1,7 mil lares invisíveis: como a água tratada some dos sistemas na periferia de São Paulo

Por Letícia Ozório 23 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
1,7 mil lares invisíveis: como a água tratada some dos sistemas na periferia de São Paulo

Neste domingo, 22, o mundo celebra o Dia Mundial da Água, data criada pela Organização das Nações Unidas para promover a reflexão sobre a proteção e o uso consciente desse recurso. No Brasil, enquanto o debate sobre escassez hídrica avança, um problema silencioso persiste nas metrópoles: parte significativa da água tratada que chega às periferias simplesmente não aparece nos sistemas de gestão — porque os domicílios que a consomem não existem para as bases oficiais.

Um levantamento inédito realizado pela Almerindas, startup especializada em engenharia, tecnologia e participação social aplicadas ao saneamento, mapeou 10 comunidades da zona norte de São Paulo e de Guarulhos e encontrou um descompasso expressivo entre a realidade territorial e os registros das concessionárias.

O trabalho cruzou três bases de dados para cada uma das comunidades pesquisadas. O registro operacional da concessionária apontava 1.152 domicílios. O Censo do IBGE de 2022 indicava 2.502. O levantamento em campo da Almerindas encontrou 2.857 moradias reais.

O resultado: apenas 40% dos lares existentes têm correspondência na base operacional. São 1.705 domicílios invisíveis para o sistema de água.

O impacto em volume é igualmente expressivo. Considerando uma estimativa conservadora de 10 metros cúbicos por mês por domicílio não registrado, chega-se a 17 milhões de litros mensais consumidos sem medição.

Se o consumo for 20% maior — o que é comum em locais sem hidrômetro, onde a falta de controle tende a aumentar o uso — o número sobe para 20,4 milhões de litros por mês. Projetando para as 1.750 comunidades do município de São Paulo, a estimativa chega a quase 3 bilhões de litros mensais fora do radar.

As comunidades pesquisadas foram: Milharal, Lago do Junco, Tomé de Almeida (Vila Zatt) e Ana Maria (Brasilândia), em São Paulo; e Tijuco Preto, Caminho do Rincão, Núcleo Jardim Centenário, Jardim Ansalca, Parque Jurema e Rua Antonio Bittencourt (Pimentas), em Guarulhos.

Por que esses domicílios somem das bases

A explicação está na dinâmica urbana das periferias. Nesses territórios, é comum a verticalização informal: ou seja, uma única fachada pode abrigar uma casa no andar superior, outra no térreo e mais uma nos fundos. Essas subdivisões raramente aparecem nos cadastros oficiais — e, muitas vezes, nem mesmo as ruas em que estão localizadas constam em qualquer base de dados.

"Em muitos casos, nem mesmo os logradouros estão registrados formalmente. Há processos frequentes de adensamento e verticalização informal: uma única fachada pode abrigar várias economias, casas sobrepostas, nos fundos ou subdivididas, que não aparecem nos registros tradicionais", explica Deise Coelho, CEO e cofundadora da Almerindas.

Para ela, o problema não é a ausência de infraestrutura, mas a ausência de informação precisa sobre o território. "Quando a água consumida não é totalmente medida, o primeiro impacto é a perda de visibilidade sobre o sistema. A gestão passa a operar com uma fotografia incompleta da realidade, o que compromete o planejamento do abastecimento, a eficiência operacional e a própria segurança hídrica."

Para encontrar o que os sistemas não viam, a Almerindas desenvolveu uma abordagem que combina arrolamento domiciliar em campo com uma plataforma digital própria, o Connect GIS. O trabalho começa pelo mapeamento dos logradouros — incluindo ruas que não existem em nenhuma base oficial. Em seguida, todas as fachadas são fotografadas e os moradores são entrevistados.

A etapa de entrevistas é considerada fundamental pela empresa, justamente porque é na conversa com os moradores que se revela a lógica real de ocupação dos lotes. A cada visita, são registrados hidrômetros (quando existem), contas de água e condições de abastecimento. Tudo é consolidado em uma base geoespacial com foto, localização exata e dados sobre o sistema.

"Universalizar saneamento não é apenas construir redes. É garantir que cada casa esteja conectada, que cada família compreenda, aceite e sustente essa conexão ao longo do tempo", afirma Deise Coelho.

Um contexto de crise hídrica crescente

O levantamento ganha peso num momento em que os sinais de estresse hídrico se acumulam. Segundo dados do MapBiomas, o Brasil perdeu 15,7% de sua superfície de água nos últimos 30 anos — o equivalente a 3,1 milhões de hectares.

Na Região Metropolitana de São Paulo, os reservatórios voltaram a níveis críticos entre 2025 e 2026: o Sistema Cantareira chegou ao menor nível desde 2015, e o sistema integrado metropolitano operava perto de 26% da capacidade no fim do ano passado.

O problema das perdas na distribuição agrava o quadro. O estudo mais recente citado pelo Trata Brasil aponta que 37,78% da água tratada no país se perde antes de chegar às casas. Uma redução desse índice para 25% poderia gerar economias bilionárias até 2034.

Nas periferias, a situação é ainda mais complexa. Pesquisas sobre o abastecimento em São Paulo mostram que a redução de pressão para economizar água impacta com mais intensidade as áreas altas e periféricas, especialmente onde não há caixa-d'água (ou em menor quantidade).

Levantamentos sobre assentamentos precários da cidade registram centenas de casos de abastecimento irregular em favelas e cortiços. Um estudo do IEA-USP com 12 municípios do Estado de São Paulo revelou que 32,8% da população oficialmente sem acesso à rede usa ligações clandestinas, e 22,2% se abastece por córregos e cachoeiras.

O que pode ser feito?

Para Deise Coelho, a solução começa pelo reconhecimento de que gestão hídrica é, antes de tudo, gestão territorial. "Não é possível planejar, operar ou reduzir perdas de forma eficiente sem saber exatamente quantos domicílios existem e como estão conectados ao sistema", afirma.

Ela aponta três frentes de ação para governos e concessionárias: atualização cadastral contínua nas áreas urbanas vulneráveis, uso de tecnologia geoespacial para análise em tempo real, e trabalho de campo estruturado capaz de capturar o que as bases tradicionais não enxergam.

"Em um cenário de mudanças climáticas e maior pressão sobre os recursos hídricos, isso se torna ainda mais relevante. Afinal, a água que não é medida tende a ficar invisível para a gestão — e o que não é visível não pode ser gerenciado de forma eficiente", explica.

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