A aposta da PepsiCo para aumentar a reciclagem — e a qualidade de vida do catador

Por Letícia Ozório 21 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A aposta da PepsiCo para aumentar a reciclagem — e a qualidade de vida do catador

Foi lançada nesta semana a Universidade PepsiCo do Catador, criada pela fabricante de bebidas e alimentos com foco em melhorias nas condições de vida e trabalho da população responsável por quase 90% da reciclagem no Brasil: os catadores de material reciclável.

O trabalho vem da parceria com a rede de cooperativas de reciclagem Rede Sul e a Universidade Estácio e oferece alfabetização, formação em gestão e inclusão digital para catadores de material reciclável — com bolsas de estudo para que ninguém precise escolher entre estudar e trabalhar. A meta é impactar até 3 mil pessoas até junho de 2027 e recuperar cerca de 1.700 toneladas de resíduos no período.

O projeto é o capítulo mais recente de uma estratégia que a PepsiCo vem construindo há 15 anos no Brasil — e que conecta circularidade, cadeia de fornecedores, design de embalagem e geração de renda numa mesma lógica. Para a companhia, profissionalizar quem está na base da reciclagem não é filantropia. É parte do negócio.

"A responsabilidade desse impacto não está só no consumidor e nas organizações, mas também nas empresas. Juntos podemos criar iniciativas que cuidem do planeta e das pessoas", diz Martin Ribichich, novo presidente da divisão de Alimentos da PepsiCo Brasil.

Ribichich chegou ao cargo em março, e a Universidade do Catador esteve entre as suas primeiras agendas públicas. Para ele, o projeto traduz o que a companhia chama de PepsiCo Positive — programa global de sustentabilidade que orienta como o negócio deve impactar pessoas e planeta ao longo de toda a sua cadeia.

"Esse tipo de iniciativa faz parte do DNA da companhia", explica. "O coração do negócio são as pessoas e o planeta — então iniciativas como essa são uma consequência lógica."

O programa está estruturado em três pilares: social, com foco em educação e profissionalização; econômico, com meta de aumentar entre 50% e 60% a renda do catador autônomo; e ambiental, com a recuperação de 1.700 toneladas de resíduos em um ano.

Embalagem como estratégia

A conexão entre uma universidade para catadores e uma empresa de alimentos e bebidas passa pela embalagem — e por tudo que acontece com ela depois que sai das mãos do consumidor. Hoje, 90% das embalagens da PepsiCo são recicláveis, biodegradáveis ou compostáveis. Em bebidas, esse número chega a 99,9%. Marcas como H2O e Lipton já operam com 100% de reciclagem, feitas com rPet, plástico reciclado que retorna à cadeia produtiva.

Mas esses números só fazem sentido se o material for efetivamente recolhido e triado — e é aí que entra quem está na ponta. Para Silber, garantir esse ciclo é uma questão de sobrevivência do setor. "No caso de bebidas, o setor ainda depende muito do plástico. Garantir a reciclagem desse resíduo é sobre manter a categoria viva."

O aprendizado, porém, não vem só dos laboratórios. Os anos de trabalho na cooperativa também trazem para os catadores um entendimento sobre embalagens digno de formação. "É um conhecimento que nenhuma faculdade vai trazer", diz Livia Favaro, gerente sênior de impacto positivo da PepsiCo. "É um MBA da esteira."

Universidade PepsiCo para Catadores: programa vai levar alfabetização e cursos de gestão e inclusão digital para catadores e suas famílias (Pepsico/Divulgação)

Reciclagem desde o design

A troca entre indústria e cooperativa já produziu resultados concretos no desenvolvimento de produtos. Quando o time de pesquisa e desenvolvimento da PepsiCo trouxe uma embalagem teste para avaliação, foram cooperadas que sinalizaram o problema: o formato anterior exigia corte manual com faca — o que torna essa reciclagem insalubre, lenta e improdutiva. O projeto voltou para ajuste e foi ao mercado com a modificação sugerida pela cooperativa.

Para Silber, essa experiência mudou a forma como a empresa pensa o designdos seus produtos. "A gente saiu de um design para o humano para um para a humanidade. A experiência de consumo importa, mas a experiência pós-consumo também. E isso a gente aprende conversando com quem está na linha de frente", conta.

Favaro reforça que ouvir quem faz a triagem não é opcional — é onde está o conhecimento real. "Trazer a indústria para mais perto de quem realmente faz a triagem é o que vai gerar a inovação que o país precisa", explica.

Regina Teixeira, diretora sênior de assuntos corporativos da PepsiCo, resume o que esse processo representa para a companhia. "Quando você entende que todo mundo está buscando o mesmo objetivo, o ponto importante é como conectar todos os elos da cadeia em prol de uma mesma ambição. E acho que ainda tem uma avenida enorme para continuar avançando."

Os próximos passos

No horizonte do projeto, a ambição vai além da alfabetização. A Rede Sul e a PepsiCo já discutem transformar a Universidade do Catador em um curso superior reconhecido pelo MEC — com a profissão de agente ambiental formalizada como carreira.

"A gente não quer que trabalhar na cooperativa seja a última opção de quem não encontrou mais nada. A gente quer que seja a primeira opção de quem quer trabalhar com sustentabilidade", diz Favaro. Para isso, ainda é preciso melhorar as condições de trabalho e de remuneração no setor.

Assinatura da Universidade do Catador nesta semana, em São Paulo

Há também uma frente mais concreta: transformar as cooperativas em unidades de beneficiamento de mais e mais materiais. A Coopercaps tem capacidade para triar 40 toneladas por dia e opera com 15 — não por falta de capacidade, mas pelas dificuldades para que o resíduo que chegue até ela. A ideia é que a cooperativa passe a processar o material e forneça o PET reciclado diretamente para a indústria, sem intermediários.

Para Malpighi, esse caminho só é possível se a base estiver sólida. "A Universidade do Catador vem para trazer esse conhecimento, promover oportunidades, inclusão, aumento de renda — mas também para trazer à tona uma capacidade instalada que hoje a gente não tem visibilidade. E eu tenho certeza que a inovação vai vir muito mais daqui."

Ribichich, que chegou ao cargo faz pouco tempo e já mergulhou nessa agenda, sintetiza o que orienta a estratégia. "Quando você entende o tamanho do impacto que a gente tem, a responsabilidade vem naturalmente. Às vezes é muito mais fácil não fazer. Mas a gente realmente acredita, no corpo e no sangue, que precisa fazer — e por isso são anos de trabalho e muitas pessoas envolvidas."

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