'A armadilha do porto seguro': o que esperar do ouro após a queda de 16%?

Por Ana Luiza Serrão 26 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'A armadilha do porto seguro': o que esperar do ouro após a queda de 16%?

O preço do ouro recuou 16% desde o início do conflito no Irã, em 28 de fevereiro, apagando a maior parte dos ganhos acumulados ao longo de 2026 e reacendendo o debate sobre o seu futuro.

O movimento surpreende porque vai na contramão do comportamento esperado para o ouro em momentos de instabilidade geopolítica, segundo dados compilados pelo Financial Times.

Nos primeiros dez dias do conflito, o metal chegou a sustentar seu valor enquanto ações e títulos sofriam quedas. A partir daí, porém, o ouro foi arrastado pela mesma onda de liquidações que derrubou outros ativos.

Por que o ouro caiu junto com os demais ativos?

A explicação mais direta de por que o ouro caiu junto com os demais ativos vem da dinâmica de liquidez dos mercados financeiros.

A analista do grupo de serviços financeiros StoneX, Rhona O'Connell, disse ao FT que investidores não deveriam cair na "armadilha do porto seguro".

O estrategista de mercado do banco privado alemão Berenberg, Jason Turner, complementou dizendo que instituições financeiras estavam "liquidando posições lucrativas em ouro para cobrir chamadas de margem nos mercados de ações e renda fixa".

Além disso, o grupo de dados Vanda estima que os ETFs globais de ouro — fundos negociados em bolsa que permitem ao investidor se expor ao metal sem precisar comprá-lo fisicamente — registraram saídas de, aproximadamente, US$ 10,8 bilhões desde o início do conflito.

Do recorde histórico ao sell-off de março

O ouro acumulou uma série de máximas a partir do início de 2024, chegando ao recorde histórico de US$ 5.594 por onça troy em janeiro deste ano.

O preço se estabilizou brevemente na terça-feira, 24, a US$ 4.400 por onça, após o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, sinalizar que enviou um acordo de paz ao Irã por meio do Paquistão.

Nesta quarta-feira, 25, por volta das 7h37, a cotação futura do ouro estava subindo 3,49%, a US$ 4.589,42 por onça, enquanto o preço à vista estava em US$ 4.556,85, com alta de 1,83%.

Além das vendas forçadas por margem, as expectativas de juros mais altos pressionam o metal.

Bancos centrais têm sinalizado aperto na política monetária para conter o impacto inflacionário da guerra, tornando os títulos de renda fixa mais atrativos em relação ao ouro, que não paga juros ou dividendos.

"Todo mundo perguntava 'quando o ouro voltará a se correlacionar com os juros reais?' — a resposta é agora", detalhou, também, o diretor de pesquisa da plataforma BullionVault, Adrian Ash.

Há a possibilidade, não confirmada em dados oficiais, de que bancos centrais comecem a se desfazer de reservas em ouro para financiar gastos, de acordo com fontes ouvidas pelo FT.

Perspectiva de recuperação

O estrategista de mercado do World Gold Council, John Reade, disse ao FT que o momento reflete "grande realização de lucros, redução de risco e desalavancagem".

Reade apontou, ainda, que o ingresso crescente de investidores especulativos no mercado tornou o preço do ouro estruturalmente mais volátil.

"O papel do ouro como diversificador de portfólio e mitigador de risco foi de alguma forma fragilizado pela volatilidade das últimas semanas", afirmou.

Apesar do cenário adverso no curto prazo, analistas do banco BMO, ouvidos pelo FT, afirmaram esperar que o ouro recupere "grande parte" das perdas assim que o apetite por risco dos investidores se normalizar.

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