A base virou o melhor investimento do futebol brasileiro?
O futebol brasileiro alcançou um novo recorde financeiro em 2025. Segundo o Relatório Convocados 2026, os clubes da Série A movimentaram R$14,3 bilhões em receitas no período, crescimento de 32% em relação ao ano anterior.
Entre todas as fontes de arrecadação, as transferências de atletas tiveram papel decisivo no resultado: foram R$ 3,9 bilhões obtidos com negociações de jogadores, alta de 63% em comparação a 2024 e o maior valor já registrado pelo setor.
O resultado reforça o peso das negociações de atletas dentro do modelo de negócios dos clubes brasileiros e ajuda a explicar o aumento dos investimentos em formação e desenvolvimento de jovens talentos.
“Poucos investimentos no futebol brasileiro apresentam hoje um potencial de retorno tão significativo quanto a formação de atletas. O crescimento das receitas com transferências reforça que a base se tornou um dos ativos mais rentáveis e estratégicos para os clubes”, diz Moises Assayag, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em finanças no futebol.
As vendas que ajudam a explicar o fenômeno
O crescimento das receitas com transferências acompanha uma valorização cada vez maior dos jovens talentos formados no futebol brasileiro. Algumas das principais negociações do mercado nos últimos anos tiveram origem nas categorias de base e ajudaram a ilustrar a força desse movimento.
O Palmeiras protagonizou duas das maiores operações recentes do futebol nacional. Endrick foi negociado com o Real Madrid por 47,5 milhões de euros fixos, em uma transação que pode superar os 70 milhões de euros considerando bônus e encargos previstos no acordo. Pouco depois, o clube acertou a venda de Estêvão ao Chelsea por 45 milhões de euros fixos, com valores adicionais condicionados ao cumprimento de metas contratuais.
O Flamengo também aparece entre os principais exemplos. Vinícius Júnior foi vendido ao Real Madrid por 45 milhões de euros, enquanto Lucas Paquetá foi negociado com o Milan por 38,4 milhões de euros. Já o Santos transferiu Rodrygo para o Real Madrid por outros 45 milhões de euros.
Formação de atletas
Os números do Relatório Convocados 2026 ajudam a dimensionar esse movimento. As receitas com transferências alcançaram R$ 3,9 bilhões em 2025, representando cerca de 27% dos R$ 14,3 bilhões movimentados pelos clubes da Série A no período. O montante foi um dos principais responsáveis pelo crescimento de 32% registrado na receita total da elite do futebol brasileiro.
“A infraestrutura é um dos pilares da formação de atletas. Centros de treinamento modernos, alojamentos adequados e espaços para à preparação física, recuperação e desenvolvimento dos jogadores criam um ambiente mais favorável para a evolução dos talentos. Por isso, os investimentos em estrutura passaram a ocupar um papel cada vez mais relevante nos projetos de base dos clubes brasileiros”, afirma Sergio Schildt, presidente da Recoma.
O Cuiabá é um dos exemplos de como a infraestrutura passou a ocupar papel central na formação de atletas no futebol brasileiro. Com investimento de aproximadamente R$ 50 milhões, o CT Manoel Dresch tem áreas dedicadas à análise de desempenho, fisiologia, preparação física e recuperação de atletas. Integrando base e profissional em uma mesma estrutura, o complexo se tornou um dos principais ativos do clube na estratégia de desenvolvimento de talentos. Paralelamente, o Cuiabá investe cerca de R$ 10 milhões por ano em suas categorias de formação.
“Os investimentos em centros de treinamento deixaram de ser um diferencial e passaram a ser uma necessidade para os clubes que desejam formar atletas em alto nível", diz Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá.
No Ceará, além do retorno técnico dentro de campo, a base também tem sido uma aliada na busca pelo equilíbrio das finanças. No início do ano, por exemplo, o atacante Guilherme foi negociado com o Göztepe, da Turquia, em acordo para o pagamento de 1,4 milhão de euros (aproximadamente R$ 8,3 milhões) por 85% dos direitos econômicos do atleta. A negociação representou, sozinha, 27,9% de todo o valor em vendas orçado para a temporada, na casa dos R$ 29,8 milhões, fator que reforça as expectativas do clube em torno da base também no que diz respeito ao retorno financeiro.
“Sempre tratamos a base como um dos pilares estratégicos do Ceará. Representa o nosso futuro e, por diversas vezes, até mesmo o presente. Apesar das dificuldades na captação e do orçamento limitado, nos orgulhamos muito por conseguir revelar jogadores e seres humanos que também contribuem com o clube dentro e fora do campo”,fala o presidente do Ceará SC, João Paulo Silva.
“A base é hoje um um eixo central do negócio do clube. Quando a gente fala em sustentabilidade no futebol brasileiro, passa diretamente pela capacidade de revelar, desenvolver e inserir esses atletas no profissional. É um investimento que se paga dentro de campo e fora dele”, afirma Adalberto Gonçalves, diretor geral da base do Inter.
Tecnologia alemã
Como exemplo, o CUJU, aplicativo de origem alemã, utiliza a Inteligência Artificial para medir e analisar dados de performance de jovens talentos do futebol. A plataforma tem firmado sua participação no futebol transformando a vida de jogadores que sonham em se tornarem atletas de alto rendimento.
“Estamos buscando ampliar cada vez mais o nosso trabalho. Sabemos que a IA jamais substituirá o trabalho humano, mas a tecnologia pode otimizar o tempo e a carga dos profissionais que vivem disso todos os dias. Os usuários passam por oito exercícios que demonstram suas habilidades, com base em fundamentos como passes, finalização, impulso físico e controle de bola”, diz Sâmela Lima Martins, Especialista em Estratégia e Branding de CUJU.
O estudo também aponta que as transferências apresentaram a maior expansão entre as principais fontes de receita dos clubes no último ano, com crescimento de 63% em relação a 2024.
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