A ciência está mais próxima de reverter perda de memória no Alzheimer
Um estudo do Cold Spring Harbor Laboratory, nos Estados Unidos, identificou uma estratégia capaz de melhorar a memória e reduzir o acúmulo de estruturas associadas ao Alzheimer em modelos animais.
A pesquisa, conduzida pelo professor Nicholas Tonks e sua equipe, aponta a proteína PTP1B como um novo alvo terapêutico para a doença, com potencial de agir em múltiplas frentes simultaneamente, algo que os tratamentos atuais ainda não conseguem oferecer.
O que causa o Alzheimer?
Entre os processos mais estudados na progressão da doença está o acúmulo de depósitos de uma proteína chamada beta-amiloide (Aβ) no cérebro.
O peptídeo é produzido naturalmente pelo organismo, mas em pessoas com Alzheimer ele se acumula em placas que interferem no funcionamento dos neurônios, sobretudo da bainha de mielina. Esse mecanismo é considerado central para o avanço da doença.
O cérebro conta com células imunes próprias, as micróglias, que deveriam ser responsáveis por eliminar esse tipo de resíduo. O problema é que, com o tempo, essas células perdem a capacidade de realizar essa função de limpeza com eficiência, permitindo que as placas se acumulem.
Como funciona a nova abordagem
Tonks descobriu a proteína PTP1B em 1988 e passou as décadas seguintes mapeando sua atuação no organismo. Ela é uma enzima da família das fosfatases de tirosina, proteínas que regulam sinais dentro das células ao remover grupos fosfato de outras proteínas.
A PTP1B atua como reguladora de processos metabólicos essenciais, especialmente nas vias de sinalização da insulina e da leptina, hormônios ligados ao controle do açúcar no sangue e do peso corporal. Por isso, a proteína já é estudada há décadas como alvo para tratamentos de diabetes tipo 2 e obesidade.
No cérebro, a PTP1B também participa da regulação de sinapses, da resposta imune cerebral e de funções ligadas à memória e ao aprendizado. É justamente essa atuação ampla, metabólica e neurológica ao mesmo tempo, que coloca a proteína no centro de uma nova geração de pesquisas sobre o Alzheimer.
No estudo mais recente do laboratório de Tonks, conduzido junto ao estudante de doutorado Yuxin Cen e ao pesquisador pós-doutoral Steven Ribeiro Alves, a equipe investigou o que acontece quando essa proteína é bloqueada.
Os experimentos em camundongos geneticamente modificados para desenvolver Alzheimer mostraram que, sem a PTP1B ativa, os animais apresentaram melhora nos déficits de aprendizado e memória e redução das placas de beta-amiloide no cérebro.
O mecanismo identificado envolve uma segunda proteína, a SYK, que regula a atividade das micróglias. A PTP1B funciona como um freio sobre a SYK. Ao removê-la, a sinalização se intensifica e as micróglias voltam a eliminar o excesso de Aβ com mais eficiência.
"Nossos resultados sugerem que a inibição da PTP1B pode melhorar a função das micróglias, eliminando as placas de Aβ", disse Cen à Science Daily.
A conexão inesperada com diabetes e obesidade
Um aspecto que amplia o interesse clínico da descoberta é a relação entre Alzheimer e doenças metabólicas.
Obesidade e diabetes tipo 2 já são reconhecidos como fatores de risco para o desenvolvimento de Alzheimer, e a PTP1B é estudada há anos como alvo terapêutico justamente nessas condições metabólicas.
Isso significa que inibidores dessa proteína já estão em desenvolvimento para outras finalidades, o que pode acelerar o caminho até aplicações no Alzheimer.
O que muda para os pacientes?
Os tratamentos disponíveis hoje para Alzheimer atuam principalmente tentando reduzir o acúmulo de beta-amiloide, mas com benefícios restritos para boa parte dos pacientes.
A proposta do laboratório de Tonks é diferente. Em vez de uma única frente, os inibidores de PTP1B atuariam em múltiplos aspectos da doença ao mesmo tempo. "Usar inibidores de PTP1B que atuam em vários aspectos da patologia, incluindo a eliminação do Aβ, pode oferecer um impacto adicional", afirmou Ribeiro Alves à Science Daily.
O próximo passo é desenvolver esses inibidores em parceria com a empresa DepYmed, Inc., com a perspectiva de combiná-los a medicamentos já aprovados. "O objetivo é retardar a progressão do Alzheimer e melhorar a qualidade de vida dos pacientes", disse Tonks.
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