A cinebiografia de Michael Jackson quebrou recordes — mas os críticos odiaram
38% na crítica, 96% no público, US$ 218 milhões em um fim de semana. O biopic do Michael Jackson levanta a questão mais antiga de Hollywood: quem define o que é um bom filme?
Quando o trailer de Michael, o filme de Antoine Fuqua sobre o Rei do Pop, foi lançado em novembro passado, ele acumulou 116 milhões de visualizações em 24 horas — o maior lançamento da história da Lionsgate e o maior para qualquer cinebiografia ou filme de concerto já feito, segundo dados da xxx. Era o sinal mais claro possível de que o público queria esse filme.
O que o público recebeu neste fim de semana foi exatamente o que queria, mas também o que a crítica temia.
Michael abriu com US$ 97,2 milhões domesticamente e US$ 218,8 milhões globalmente, segundo o Hollywood Reporter — o maior fim de semana de abertura da história para qualquer biopic, superando Oppenheimer (US$ 80 milhões).
No Rotten Tomatoes, o público deu 96% de aprovação, a maior pontuação da história do gênero. Os críticos deram 38%. A diferença de 58 pontos percentuais entre as duas audiências é um número que diz algo sobre quem vai ao cinema em 2026 — e por quê.
O padrão dos biopics sanitizados
Michael não é um caso isolado. É o mais recente capítulo de um padrão que a indústria estabeleceu com Bohemian Rhapsody em 2018 e tem repetido desde então.
O biopic de Freddie Mercury recebeu 60% dos críticos e 85% do público no Rotten Tomatoes. Foi criticado por suavizar a bissexualidade de Mercury, comprimir cronologias e distorcer a relação da banda com seu vocalista. Ganhou quatro Oscars, incluindo Melhor Ator para Rami Malek, e faturou US$ 910 milhões globalmente — até hoje o biopic musical de maior bilheteria da história, segundo o Newsweek.
Elvis, de Baz Luhrmann em 2022, foi mais bem recebido: 78% da crítica e 94% do público. Recebeu oito indicações ao Oscar. Faturou US$ 288,7 milhões contra um orçamento de US$ 85 milhões. Mas também foi questionado por ignorar que Presley começou a namorar Priscilla Beaulieu quando ela tinha 14 anos — detalhe que o filme contorna elegantemente.
Back to Black, sobre Amy Winehouse de 2024, foi o caso mais extremo: 35% da crítica e 86% do público. O filme foi acusado de retratar o ex-marido de Winehouse, Blake Fielder-Civil de forma quase simpática. Faturou apenas US$ 39 milhões globalmente, segundo o Collider, mostrando que a fórmula funciona melhor com artistas de maior nostalgia de massa.
Por que o público não se importa com o que os críticos se importam
A questão central não é se Michael é um bom filme. É por que públicos em todo o mundo pagam preços recordes para ver versões deliberadamente incompletas da vida de seus ídolos.
A resposta mais simples é a que a crítica mais resiste: o público não assiste filmes do tipo em busca de veracidade, mas sim de uma experiência de shows. . “Quando se trata de objetividade e integridade, o público sempre vai priorizar a chance de cantar junto”, escreveu o Guardian em sua análise de Michael.
Owen Gleiberman, crítico-chefe da Variety, foi um dos poucos a elogiar o filme. “Jaafar Jackson acerta a voz alta, açucarada e hesitante de Michael certinho, mas também nos mostra como aquela personalidade famosa evolui”, escreveu. Para Gleiberman, a "performance é o produto", não a biografia.
Há uma psicologia específica por trás disso que os estudos de neurociência sobre nostalgia ajudam a explicar. O cérebro em estado nostálgico ativa redes associadas a recompensa e pertencimento — não a avaliação crítica.
Luiza Vilela, repórter de Casual na EXAME, por sua vez, afirmou que "o problema vem do roteiro — o ponto mais fraco da produção". Segundo a jornalista, no filme, Michael é etéreo. "Uma eterna criança incapaz de sentir raiva, inveja ou de cometer erros banais. É um saco vazio: sem conflito interno, sem defeitos", escreveu.
Quem entra no cinema para ver Michael Jackson já chegou num estado emocional que não está calibrado para processar omissões historiográficas. Está calibrado para reconhecer a voz, o movimento, o terno branco e o moonwalk.
O problema do espólio e o problema legal
O que diferencia Michael das cinebiografias anteriores é que sua “sanitização” não foi apenas estética, mas legalmente compulsória.
Durante a produção, uma cláusula num acordo judicial de 1993 com o acusador Jordan Chandler foi descoberta: ela proibia qualquer dramatização ou menção dele em filmes ou televisão. A Lionsgate passou por 20 dias de refilmagens, refez todo o terceiro ato e cortou a cena que dramatizava o processo.
A Lionsgate passou por 22 dias de refilmagens e refez todo o terceiro ato. O custo total chegou a aproximadamente US$ 170 milhões, segundo a Variety — com parte do sobrecusto das refilmagens coberta pelo espólio de Jackson, que detém participação no projeto.
O resultado foi um filme que termina em 1988, durante a turnê do Bad. “É como um biopic de O.J. Simpson que termina quando ele ganhou o Heisman Trophy”, escreveu o crítico Sean Burns da WBUR-FM.
A nova corrida armamentista dos trailers
Paralelo ao fenômeno Michael está outro número que define como Hollywood funciona em 2026: os 718,6 milhões de visualizações em 24 horas do trailer de Spider-Man: Brand New Day, lançado em 17 de março, segundo o Hollywood Reporter.
Isso é quase o dobro do recorde anterior — Deadpool & Wolverine com 365 milhões em 2024 — e superou o recorde global de qualquer vídeo, incluindo o trailer do GTA VI (475 milhões). Em quatro dias, o trailer de Spider-Man chegou a 1 bilhão de visualizações, o primeiro da história a atingir essa marca, segundo a Variety.
O trailer de Michael com 116 milhões em 24 horas parece modesto nesse contexto, mas é o maior da história para o gênero biopic, superando tudo que Freddie Mercury, Elvis Presley e Amy Winehouse jamais geraram. É também um dado que ajuda a explicar os US$ 218 milhões de abertura: o trailer funcionou como um evento de pré-venda emocional.
A evolução dos recordes de trailers em 24 horas é, por si só, um mapa do poder relativo de cada IP:
A lacuna entre Spider-Man e Michael não é uma diferença de qualidade. É uma diferença de escala de propriedade intelectual. O Homem-Aranha é uma franquia que pertence ao imaginário coletivo de múltiplas gerações simultaneamente. Michael Jackson pertence a uma geração com profundidade emocional intensa, mas menor distribuição etária.
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