A doença mais temida da história é ainda mais antiga do que você pensa

Por Paloma Lazzaro 19 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A doença mais temida da história é ainda mais antiga do que você pensa

A imagem mais comum associada à peste bubônica é a de ratos, cidades medievais superlotadas e a Europa devastada pela Peste Negra. Essa ideia, porém, pode estar obscurecendo uma história muito mais antiga.

Um estudo publicado na revista Nature por pesquisadores da Universidade de Copenhaguem demonstra que a doença já matava seres humanos há 5.500 anos, muito antes do surgimento das primeiras cidades, da agricultura em larga escala ou dos ratos associados às epidemias históricas.

A descoberta foi possível graças à análise de DNA antigo extraído de dentes humanos encontrados em quatro cemitérios de caçadores-coletores próximos ao Lago Baikal, na Sibéria Oriental, na Rússia.

Os pesquisadores conseguiram reconstruir genomas bacterianos completos e identificar cepas primitivas da bactéria Yersinia pestis, responsável pela peste, em linhagens que não eram conhecidas pela ciência.

O que o DNA antigo revelou

Das 46 pessoas estudadas, 18 apresentaram vestígios da bactéria da peste, uma taxa de detecção de quase 40%. Os próprios pesquisadores destacam que esse índice supera o registrado em alguns locais de enterro medievais associados a surtos da doença na Idade Média.

Combinando as evidências genéticas com análises arqueológicas e datação por radiocarbono, a equipe conseguiu reconstruir o que pode ter acontecido durante esses surtos pré-históricos.

Nos dois maiores cemitérios analisados, chamou atenção o número elevado de crianças e adolescentes jovens entre os mortos, um padrão que arqueólogos tentavam explicar desde a década de 1990. "Descobrir que a peste foi a causa é extraordinário, mas faz todo sentido", disse Andrzej Weber, arqueólogo da Universidade de Alberta e investigador principal do Projeto de Arqueologia do Baikal, à Science Daily.

A datação por radiocarbono revelou que muitos enterramentos ocorreram em um período relativamente breve. Em alguns casos, irmãos ou pais e filhos parecem ter morrido aproximadamente ao mesmo tempo e foram sepultados juntos, um padrão consistente com surtos de transmissão rápida dentro de grupos familiares.

De onde veio a peste?

O estudo também traz pistas sobre a origem geográfica da doença. As evidências apontam para a Ásia Central ou Nordeste Asiático como o provável local de surgimento da peste, de onde ela teria se espalhado pela Eurásia por meio de populações de roedores selvagens.

As evidências arqueológicas indicam que os caçadores-coletores estudados mantinham contato próximo com marmotas, grandes roedores que escavam tocas no solo e que ainda hoje são contaminados pela bactéria.

Os pesquisadores acreditam que a doença pode ter passado diretamente das marmotas infectadas para os humanos, desencadeando os surtos nessas comunidades pré-históricas sem a necessidade de cidades, ratos ou pulgas para se disseminar de forma letal.

Por que essas cepas eram tão letais

Pesquisas anteriores haviam sugerido que as formas mais antigas de Yersinia pestis não possuíam as características genéticas que tornaram a peste bubônica tão eficiente na Idade Média, em especial a capacidade de se disseminar por pulgas e roedores. Com base nisso, muitos cientistas acreditavam que os surtos mais antigos provavelmente eram menos graves.

O novo estudo contradiz essa visão. Os pesquisadores identificaram nas cepas antigas um fator genético específico chamado superantígeno, ausente nas versões históricas posteriores da doença. Superantígenos são substâncias capazes de desencadear reações imunológicas intensas e estão associados a processos inflamatórios graves, potencialmente tornando a infecção muito mais perigosa.

"Essa descoberta muda nossa compreensão sobre os primeiros surtos de peste: mesmo antes de a bactéria ter desenvolvido a transmissão eficiente por pulgas, essas cepas antigas já carregavam uma combinação potente de fatores de virulência que podiam tornar a infecção altamente letal", afirmou Martin Sikora, professor associado da Universidade de Copenhague e coautor sênior do estudo.

Para Eske Willerslev, professor das universidades de Copenhague e Cambridge e também autor sênior, a questão sobre a gravidade das formas mais antigas da doença estava em aberto até agora. "Se as formas mais antigas de peste eram brandas ou virulentas era motivo de debate, mas nossas descobertas demonstram que essas cepas antigas já eram altamente letais."

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