A empresa de Florianópolis por trás de R$ 10 trilhões em transferências bancárias
O sistema financeiro brasileiro movimenta trilhões de reais por ano em pagamentos, boletos, recebíveis e crédito entre empresas. Parte desse fluxo passa por uma empresa criada em Florianópolis no início dos anos 1990.
A Nexxera desenvolve sistemas que conectam bancos, empresas e fornecedores para troca de dados e execução de operações financeiras.
Em 2025, as plataformas da companhia devem processar cerca de R$ 10 trilhões em transações eletrônicas, segundo dados da própria empresa.
O crescimento ocorre junto com uma mudança no modelo de negócio iniciada há alguns anos. Depois de três décadas vendendo tecnologia e infraestrutura, a Nexxera passou a operar como uma plataforma de serviços por assinatura e ampliou a rede de empresas conectadas.
A empresa foi fundada pelo engenheiro civil Edson Silva, natural de Florianópolis. A entrada dele no setor financeiro aconteceu por acaso, quando passou em um concurso público e foi trabalhar em uma área de tecnologia ligada ao sistema bancário.
“Entrei como digitador e não sabia nada de computador nem de banco. Fui treinado para programar sistemas e ali começou minha formação”, diz.
Hoje a companhia soma 1,2 milhão de empresas conectadas à sua rede, 12.000 contratos ativos e faturou R$ 180 milhões em 2025, um crescimento de 76% em relação ao ano anterior.
Da engenharia civil ao software bancário
Edson Silva se formou em engenharia civil, mas começou a trabalhar com tecnologia ao ingressar em um órgão público que operava sistemas bancários.
Durante cerca de quatro anos, ele participou do desenvolvimento de sistemas de back office bancário, área responsável pelo processamento interno das operações. O trabalho envolvia rotinas usadas por instituições como Bradesco e o antigo Bamerindus.
A ideia da empresa surgiu nesse período. O grupo trabalhava no desenvolvimento de um sistema chamado home desk, um software que permitia executar operações bancárias a partir do computador.
A proposta era diferente da lógica da época. Em vez de criar um sistema separado para cada banco, o grupo desenvolveu um aplicativo que poderia se conectar a várias instituições financeiras ao mesmo tempo.
Esse conceito foi criado entre 1989 e 1992 e acabou se tornando a base da empresa fundada naquele ano.
“Criamos um aplicativo único que se conectava a todos os bancos. A ideia era centralizar as operações em um único sistema”, diz Silva.
A primeira rede para dados bancários
Nos primeiros anos, o principal obstáculo era a infraestrutura de telecomunicações do país.
Para viabilizar a transmissão de dados entre bancos e empresas, a Nexxera precisou criar sua própria rede de comunicação.
O sistema foi construído usando protocolo TCP, o mesmo padrão que seria adotado pela internet. Quando a internet comercial chegou ao Brasil, em 1995, a empresa já tinha um produto preparado para esse ambiente.
A demanda cresceu rapidamente. Entre 1992 e 2000, o principal negócio da companhia passou a ser a venda de infraestrutura de rede para transmissão de dados bancários.
A plataforma que conecta bancos e empresas
No início dos anos 2000, a Nexxera voltou à ideia original de integrar empresas e instituições financeiras.
Em 2000, lançou o chamado ambiente eletronegócio, uma plataforma que conecta sistemas de empresas aos bancos.
Esse tipo de integração se tornou mais comum com a chegada ao Brasil de sistemas de gestão empresarial, conhecidos como ERP (Enterprise Resource Planning, software de gestão empresarial), usados por grandes companhias para controlar compras, vendas e pagamentos.
A Nexxera passou a integrar esses sistemas com bancos e outras instituições financeiras. A empresa operou com plataformas como SAP, Datasul e TOTVS.
Com esse modelo, a rede ganhou escala. Hoje, 400 das 500 maiores empresas do Brasil utilizam a infraestrutura da companhia, segundo a empresa.
Crédito dentro da cadeia de fornecedores
Com o tempo, a Nexxera começou a analisar os dados gerados pelas transações que passavam por sua rede.
A empresa passou a organizar sistemas que acompanham toda a relação comercial entre empresas, incluindo pedidos, notas fiscais, pagamentos e recebimentos.
Um dos projetos citados por Edson Silva foi o desenvolvimento de uma rede para conectar o Walmart no Brasil a cerca de 18.000 fornecedores.
A análise dessas cadeias levou a empresa a desenvolver sistemas para facilitar o acesso ao crédito dentro das relações comerciais.
“Percebemos que o problema de caixa de um fornecedor pequeno afeta toda a cadeia produtiva”, diz Silva.
A solução foi criar portais que permitem antecipar pagamentos com base nos recebíveis dessas operações.
A mudança para assinatura
Uma das maiores mudanças na empresa aconteceu entre 2016 e 2018.
Até então, a Nexxera vendia licenças de software e infraestrutura tecnológica. A partir dessa fase, passou a oferecer os serviços por assinatura.
O modelo funciona de forma semelhante a um pacote de serviços digitais, com cobrança mensal pelo acesso à plataforma.
A mudança provocou uma queda inicial de receita. Segundo Silva, o faturamento chegou a cair cerca de dois terços no período de transição.
Em contrapartida, o número de contratos cresceu.
Hoje a Nexxera possui cerca de 12.000 contratos, que conectam aproximadamente 1,2 milhão de empresas em sua rede.
O papel da duplicata eletrônica
Nos últimos anos, a empresa passou a atuar também no registro e na validação de recebíveis usados em operações de crédito.
Esse movimento ganhou força com a regulamentação da duplicata eletrônica pelo Banco Central, um sistema que registra digitalmente títulos usados em transações comerciais.
A Nexxera registra os dados dessas operações e valida as informações que serão usadas pelos bancos.
Segundo Silva, isso permite que os recebíveis sejam usados como garantia em operações de crédito.
“A duplicata eletrônica transforma o recebível em um ativo validado e seguro”, afirma.
Novos produtos para pequenas empresas
Além das soluções usadas por grandes companhias, a Nexxera também passou a lançar produtos voltados a pequenos negócios.
Um exemplo é o Nick, aplicativo que permite ao lojista acompanhar vendas realizadas por cartão de crédito.
O sistema mostra quando os valores serão recebidos e permite antecipar parte desses recursos apenas nos dias em que a empresa precisa de dinheiro em caixa.
A ideia é reduzir o uso constante da antecipação de recebíveis, que costuma gerar custos financeiros para os pequenos negócios.
Crescimento e próximos passos
A Nexxera registrou R$ 89 milhões de faturamento em 2023. O número passou para R$ 102 milhões em 2024 e chegou a R$ 180 milhões em 2025, crescimento de 76%.
O volume de transações processadas pela empresa também aumentou. Em 2024, as plataformas movimentaram cerca de R$ 7 trilhões. Em 2025, o total chegou a R$ 10 trilhões.
Para 2026, a empresa pretende ampliar a base de contratos.
A projeção é passar de 12.000 contratos para cerca de 24.000, com a expansão de parcerias e novos canais de distribuição.
Ao mesmo tempo, a companhia busca aumentar o uso das ferramentas entre as empresas que já estão conectadas à rede.
Hoje apenas cerca de 1% da base de 1,2 milhão de empresas paga diretamente pelos serviços.
“Temos uma rede muito grande conectada e ainda pouco monetizada. O crescimento agora passa por ampliar o uso dessas ferramentas”, diz Silva.
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