A espera de Endrick: o que o atacante disse à EXAME antes da Copa do Mundo começar
A Copa do Mundo já começou, mas Endrick ainda não entrou em campo. Na estreia contra o Marrocos, ficou os 90 minutos no banco e foi flagrado desabafando com Neymar. Para o duelo contra o Haiti nesta sexta-feira, 19, a tendência segue a mesma — o técnico, Carlo Ancelotti, deve manter Matheus Cunha como referência no ataque, com Endrick novamente como opção a entrar no decorrer do jogo.
O cenário é bem diferente do que o próprio atacante descrevia em entrevista exclusiva à EXAME, concedida antes do início do torneio, quando foi convocado por Ancelotti como um dos nomes mais jovens do elenco — poucos dias mais velho que Rayan, o caçula do grupo. "Estou feliz e realizado, com uma grande responsabilidade, mas com meu esforço recompensado", disse na ocasião.
Já àquela altura, Endrick evitava tratar a presença na Copa como conquista. "O meu papel é o de todos que foram chamados: ajudar a formar um grupo campeão. Não tem outro. Conheci já quase todos [atletas] e tenho certeza que vai ser um grupo focado nisso. Vamos com o melhor treinador, e nosso elenco é um dos melhores do mundo."
A fala ganha um significado diferente agora: o "grupo campeão" que ele descrevia ainda não encontrou espaço para ele em campo.
Uma trajetória construída sob expectativa, desde a base
A relação de Endrick com a camisa da seleção começou nas categorias de base, com o título da Copa do Mundo Sub-17 em 2022, na França — quando o Brasil venceu a Argentina na final e encerrou um jejum que vinha desde 1984.
Na seleção principal, a estreia veio em novembro de 2023, sob o comando de Fernando Diniz, e o primeiro gol pela equipe principal saiu poucos meses depois, em março de 2024, em amistoso contra a Inglaterra, em Wembley.
Antes da lista final de Ancelotti para o Mundial, Endrick chegou em alta na disputa por vaga no ataque: desde a estreia pelo Lyon, em janeiro, era o segundo brasileiro com mais participações em gols na Europa, atrás apenas de Vinicius Júnior, somando 17 participações em 21 partidas pelo clube francês.
Ele e Rayan são os mais jovens entre os 26 convocados, ambos com 19 anos. A melhor atuação dele pela seleção até então havia sido justamente contra um adversário forte: no amistoso contra a Croácia, em março, ele entrou no segundo tempo, sofreu o pênalti e deu a assistência para o terceiro gol do Brasil — exatamente o tipo de impacto rápido que a torcida vinha cobrando que ele repetisse dentro da Copa.
Do Palmeiras à venda histórica, passando pelo resgate no Lyon
Formado nas categorias de base do Palmeiras, Endrick se tornou o jogador mais jovem a atuar e a marcar pelo clube, ainda aos 16 anos, antes de ser vendido ao Real Madrid em dezembro de 2022 — negociação avaliada em cerca de 72 milhões de euros (R$ 419 milhões na cotação atual), uma das maiores vendas da história do futebol brasileiro.
O acordo só passou a valer quando ele completou 18 anos, em 2024.
No Real Madrid, a falta de espaço no time titular e uma ruptura no tendão da coxa direita levaram a um empréstimo ao Lyon no final de 2025. Foi lá que Endrick recuperou protagonismo dentro de campo — e gerou um fenômeno de audiência no Brasil.
Segundo levantamento obtido pela EXAME, antes da chegada do atacante, os jogos do Lyon na CazéTV tinham média de 280 mil visualizações; com Endrick em campo, 13 partidas somaram mais de 32 milhões de views, média superior a 2,3 milhões por jogo. O auge foi a vitória sobre o Paris Saint-Germain por 2 a 1, no Parque dos Príncipes, quando ele marcou um gol e deu uma assistência — a transmissão chegou a 4,5 milhões de visualizações simultâneas, recorde das exibições da Liga Francesa na temporada.
"A experiência foi ótima. Voltei a fazer o que mais gosto: a jogar e a competir", disse Endrick à EXAME sobre a passagem pela França. "Poder trabalhar e jogar ao lado da minha família é o que me faz feliz. E tive isso em Lyon." O retorno ao Real Madrid aconteceu em maio, após o fim do período de empréstimo.
A pressão que ele já previa antes da Copa começar
Mesmo antes da bola rolar, Endrick já reconhecia o peso da expectativa em torno do nome dele — e descrevia uma forma específica de lidar com isso, que hoje, vendo de fora o banco de reservas nas duas primeiras rodadas, ganha um contorno quase premonitório.
"Se dou o meu máximo em cada treino, em cada hora de tratamento, de repouso, no cuidado com o sono, com alimentação, e faço tudo que está ao meu alcance, eu chego no jogo tranquilo porque fiz tudo que era possível", disse.
A entrevista também registrou o fenômeno de popularidade que cresceu em torno dele: desde a convocação, Endrick foi um dos jogadores que mais ganharam seguidores no Instagram, atrás apenas de Neymar — 476 mil novos seguidores na época, ultrapassando a marca de 17,5 milhões.
Esse número só cresceu desde então: nos dias após o desabafo no banco contra o Marrocos, ele voltou a dominar as redes sociais, somando quase 600 mil novos seguidores em 24 horas, segundo o Lance — um termômetro de como a ausência dele em campo se tornou, ironicamente, um dos assuntos mais comentados da Copa até aqui.
Aos 19 anos, depois de uma trajetória que passou pela base do Palmeiras, por uma venda histórica, pela pressão do Real Madrid e pela retomada no Lyon, o teste que Endrick descrevia como o "primeiro grande" da carreira ainda está, na prática, esperando para começar — minuto a minuto, e jogo a jogo.
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