A estratégia da Dengo para driblar o cacau a US$ 10 mil por tonelada

Por César H. S. Rezende 4 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A estratégia da Dengo para driblar o cacau a US$ 10 mil por tonelada

O mercado global de cacau viveu um dos choques mais intensos de sua história recente. Entre o fim de 2024 e o início de 2025, os preços ultrapassaram US$ 10 mil por tonelada — mais que o triplo do padrão histórico —, em meio a quebras de safra na África Ocidental, região que concentra mais de 70% da produção global.

O movimento forçou uma reconfiguração silenciosa na indústria global de chocolate: queda da demanda, mudanças de formulação e redução de gramatura dos produtos tornaram-se comuns. É nesse cenário que a brasileira Dengo decidiu seguir na contramão, como afirma Cintia Moreira, CEO da empresa.

“Houve, de fato, esse aumento sem precedentes da commodity, e isso afeta os negócios”, diz a executiva. “Mas nós não alteramos as nossas receitas. Absolutamente nada de mudança de formulação.”

A Dengo é uma marca de chocolates premium criada em 2017 por Guilherme Leal, cofundador da Natura. A empresa não divulga dados como volume de produção, lucro ou número de vendas. São 40 lojas no Brasil e outras três em Paris, na França — que funcionou como um “laboratório de testes” para a expansão internacional.

Enquanto parte da indústria recorreu a substituições — como a redução do teor de cacau ou o uso de gorduras alternativas —, a Dengo optou por preservar seu posicionamento premium, baseado em alto teor de cacau e ingredientes naturais.

Isso significa operar com maior exposição ao custo da matéria-prima. Ainda assim, a empresa buscou compensar a pressão com ganhos internos, por meio de eficiência operacional, revisão de processos e disciplina de gestão. A aposta, segundo a CEO, é que qualidade e marca sustentam preço — mesmo em ciclos adversos.

“Nem a Dengo nem a indústria repassaram todo o aumento da matéria-prima. Se isso acontecesse, o produto provavelmente seria inviável para o consumidor”, afirma.

O impacto do cacau caro foi amplo. Segundo relatório do Itaú BBA, a alta levou à queda da moagem global — principal indicador de demanda —, evidenciando um processo de “racionamento via preço”. Na Europa, maior mercado consumidor, a moagem caiu 8,3% no quarto trimestre de 2025, com o ano fechando no menor nível desde 2015.

Ao mesmo tempo, o mercado começou a se ajustar: a produção global subiu 11% na safra 2024/25, e o déficit deu lugar a um superávit — ainda que sustentado mais pela queda da demanda do que por uma expansão robusta da oferta.

Essa dinâmica ajuda a explicar a volatilidade recente, com preços voltando à faixa de US$ 3 mil a US$ 4 mil por tonelada em 2026, mas ainda sob risco climático e estrutural.

Produção de cacau

Segundo a CEO, parte da estratégia da Dengo vem de uma escolha estrutural: operar com cacau 100% brasileiro e com uma cadeia integrada, do produtor ao produto final.

A empresa compra exclusivamente de pequenos e médios produtores em Ilhéus, no sul da Bahia, e paga um prêmio por qualidade, apostando em um modelo de valor compartilhado.

“Queremos estabelecer uma relação mais justa com o produtor, que hoje fica com uma fração muito pequena do valor”, afirma a executiva.

Esse modelo inclui critérios rigorosos — como fermentação adequada, secagem natural e ausência de defeitos — além da exigência de sistemas agroflorestais, como a cabruca no sul da Bahia.  Na prática, a estratégia reduz dependência de mercados internacionais e cria diferenciação de produto.

Apesar da recente correção nos preços, o cenário ainda inspira cautela. A concentração da produção na África, o envelhecimento das lavouras e os riscos climáticos seguem como fatores estruturais de pressão.

No Brasil, o desafio é outro: aumentar produtividade. Hoje, o país ainda não é autossuficiente, em grande parte por falta de investimento, acesso a crédito e renovação das lavouras. Para a Dengo, diz a CEO, esse contexto "representa tanto risco quanto oportunidade".

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