'A guerra no Irã chegou ao fim, mas não acabou', diz economista
Embora o entendimento entre Estados Unidos e Irã tenha reduzido os temores de uma escalada imediata da guerra no Oriente Médio, investidores ainda enxergam elevada incerteza sobre a efetiva implementação do acordo de paz, os impactos sobre a inflação global e os próximos passos do Federal Reserve (Fed). Para Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Investimentos, a sensação predominante é que "a guerra chegou ao fim, mas não acabou".
"Eu gosto de dizer que a guerra chegou ao fim, mas não acabou, porque temos um memorando de intenções", disse Kawauti em live realizada pela EXAME na noite desta quarta-feira, 18, para repercutir as decisões sobre os juros do Comitê de Política Momentária (Copom) do Banco Central e do BC dos EUA.
"Não sabemos exatamente quais serão os efeitos concretos desse fim da guerra, quando o Estreito de Ormuz vai reabrir nem quando aquele congestionamento de embarcações será resolvido. Por conta disso, ainda há muita incerteza. É difícil fazer projeção neste momento", afirmou.
A leitura de incerteza ganhou força após novas declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Mesmo após o anúncio do entendimento com Teerã no domingo, 14, e assinatura digital de um memorando na segunda, 15, Trump afirmou nesta quarta que os bombardeios podem ser retomados caso as negociações não avancem nos próximos 60 dias.
"É um memorando de entendimento. E se eu não gostar, voltaremos a disparar neles, a bombardear suas cabeças. Se eu não gostar, se eles não se comportarem, voltaremos a bombardear bem no meio da cabeça deles, ok?", declarou o presidente americano durante coletiva de imprensa no G7, na França.
Em paralelo, na manhã desta quinta, 18, Israel voltou a realizar ataques no sul do Líbano, reforçando a percepção de que a estabilização da região ainda está longe de ser garantida.
As Forças de Defesa de Israel (FDI) anunciaram ainda que manterão sua presença militar no sul do país, apesar do memorando de entendimento assinado entre Washington e Teerã prever a preservação da integridade territorial e da soberania libanesa.
Para a economista-chefe da Lifetime, essa fragilidade do acordo ajuda a explicar por que a euforia inicial dos investidores começou a perder força. Na véspera, as bolsas de Nova York fecharam em queda em meio às incertezas geopolíticas e ao comunicado mais hawkish do Fed, que indicou foco no combate à inflação e estabilização dos preços, diminuindo as expectativas por cortes de juros.
"Trump falou algumas coisas que mostram quão frágil é esse acordo fechado no final de semana. Inclusive voltou a dizer que, se esse acordo não for resolvido, não tem problema, que eles voltam a atacar. Isso para os mercados acaba sendo muito ruim", disse.
Segundo ela, o conflito continua sendo uma fonte relevante de incerteza porque questões centrais permanecem sem solução. "A sensação que eu tenho é que essa melhora ainda é frágil", diz a economista, apesar de nesta sexta, 19, o acordo ser formalizado em cerimônia na Suíça.
"A guerra ainda vai estar no noticiário por bastante tempo, seja por causa do Trump, seja pelas negociações que ainda precisam ser feitas. Ficou para um segundo momento a questão da arma nuclear no Irã, a questão da guerra entre Israel e Hezbollah, e tudo isso são fatores muito difíceis de chegar a um acordo. E ainda temos toda a normalização da cadeia logística, que demora muito tempo para acontecer", afirmou.
Essa combinação de fatores ajuda a manter a preocupação com a inflação global. O aumento dos preços da energia foi justamente um dos pontos destacados pelo Fed ao manter os juros dos Estados Unidos inalterados nesta quarta-feira.
Fed mais duro amplia cautela
Na visão de Kawauti, a decisão do banco central americano veio acompanhada de uma mensagem mais conservadora do que o mercado esperava. A economista destaca que metade dos integrantes do Fed passou a projetar uma alta de juros até o fim do ano para evitar que o choque inicial provocado pela guerra se espalhe para o restante da economia.
"Essa alta serviria para combater os efeitos de segunda ordem. Já tivemos uma alta na inflação vinda de alimentação e também de combustíveis por conta da guerra. A alta de juros serve para impedir que isso contamine o restante da economia", afirmou.
A economista também avalia que a estreia de Kevin Warsh na presidência do Fed trouxe um elemento adicional de incerteza. Segundo Kawauti, a mudança radical na comunicação do banco central deixou os investidores sem referências claras sobre os próximos passos da política monetária.
"O comunicado veio mais objetivo, mas sentimos falta da discussão por trás da decisão. Isso acaba deixando o mercado sem rumo", afirmou.
"Existe uma euforia em relação ao fim da guerra. Mas aí o Fed vem e diz: 'vou ter que subir juros'. Os mercados pensam em um ambiente inflacionário maior, muita incerteza em relação à guerra e um banco central bastante conservador. Isso acaba destruindo um pouco dessa euforia", disse à EXAME.
Tecnologia desafia juros altos
Apesar desse ambiente mais complexo, a economista-chefe vê uma diferença importante em relação a crises anteriores diante da força da tese de tecnologia e inteligência artificial.
Historicamente, choques no petróleo e conflitos geopolíticos costumavam alimentar expectativas de recessão global. Desta vez, porém, a economia americana segue demonstrando resiliência, impulsionada pelos ganhos de produtividade ligados à inteligência artificial.
"A gente vê a Nasdaq batendo recordes. Essa tese de tecnologia, dessa vez, é uma tese que a gente consegue ver a adoção quase em tempo real", afirmou.
Segundo Kawauti, diferentemente de outras revoluções tecnológicas, a inteligência artificial já está sendo incorporada ao cotidiano das empresas e dos consumidores, permitindo que os investidores observem resultados concretos enquanto os investimentos continuam sendo realizados.
"Apesar de juros altos e inflação, essas empresas continuam resistentes. A adoção de inteligência artificial está acontecendo de forma contemporânea ao que as empresas estão prometendo", disse.
Para Marcela, esse fator ajuda a explicar por que o mercado oscila entre momentos de forte preocupação e períodos de otimismo. De um lado, permanecem os riscos ligados à guerra, à inflação e aos juros elevados. De outro, a economia americana segue encontrando suporte no avanço da tecnologia e na capacidade das empresas ligadas à inteligência artificial de continuar gerando lucros. "O mercado vive uma dualidade de notícias boas e ruins e vai ao sabor disso".
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