A IA vai realizar desejos; felicidade é outra história, diz Pondé no AI Summit, da EXAME

Por André Lopes 3 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A IA vai realizar desejos; felicidade é outra história, diz Pondé no AI Summit, da EXAME

“A inteligência artificial não vai necessariamente nos tornar mais felizes”, afirmou o filósofo Luiz Felipe Pondé no encerramento do AI Summit, realizado pela EXAME nesta terça-feira, 2.

Convidado para refletir sobre os impactos da tecnologia na condição humana, Pondé argumentou que o avanço da inteligência artificial não elimina uma característica fundamental das pessoas: a dificuldade de permanecer satisfeitas por longos períodos.

Segundo ele, a discussão sobre felicidade acompanha a filosofia há séculos e permanece sem uma resposta definitiva, independentemente do estágio de desenvolvimento tecnológico da sociedade.

“Nós somos uma espécie complicada, contraditória. Quando conseguimos uma coisa, passamos a desejar outra”, disse.

Para o filósofo, parte do debate contemporâneo associa felicidade à realização de desejos, lógica que também está presente no funcionamento do consumo e da economia moderna. Ainda assim, ele argumenta que a experiência humana é mais complexa do que a simples satisfação de necessidades ou vontades.

“O problema da felicidade nunca foi evidente. E continua não sendo evidente”, disse Pondé durante a palestra.

Ao longo da apresentação, o professor procurou deslocar a discussão da tecnologia para questões mais amplas ligadas à natureza humana, sugerindo que avanços técnicos não alteram necessariamente os dilemas existenciais que acompanham as pessoas ao longo da história.

Para ilustrar seu argumento, Pondé propôs ao público um exercício hipotético relacionado ao uso de tecnologias capazes de influenciar características biológicas de futuros filhos.

Segundo ele, mesmo diante da possibilidade de aumentar as chances de uma criança nascer mais saudável, mais inteligente ou com outras características consideradas desejáveis, parte significativa das pessoas demonstra resistência à adoção desse tipo de recurso.

O filósofo observou que essa reação aparece de forma recorrente em debates sobre novas tecnologias e não se limita ao público geral, alcançando inclusive especialistas ligados a áreas como reprodução assistida.

“Quando discutimos tecnologias que prometem aperfeiçoar a vida humana, a adesão costuma ser menor do que se imagina”, afirmou.

Entre o entusiasmo e a desconfiança tecnológica

Na parte final da palestra, Pondé sugeriu que a relação da sociedade com a tecnologia sempre foi marcada por uma tensão entre entusiasmo e cautela.

Segundo ele, a história mostra que inovações frequentemente despertam expectativas de transformação profunda da vida humana, mas nem sempre produzem os resultados imaginados por seus defensores.

O filósofo também rejeitou leituras estritamente otimistas ou pessimistas sobre a inteligência artificial. Em vez disso, argumentou que as novas ferramentas devem ser analisadas à luz de questões permanentes da experiência humana, como desejo, insatisfação, realização e liberdade.

Ao encerrar o evento, Pondé deixou em aberto a principal questão do debate. Para ele, a inteligência artificial pode ampliar capacidades, automatizar tarefas e criar novas possibilidades econômicas e sociais. O que ela não parece capaz de resolver, ao menos por enquanto, é uma pergunta que acompanha a humanidade desde a Antiguidade: o que significa, afinal, ser feliz?

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