A 'incubadora' da música brasileira que quer revelar os próximos nomes da indústria

Por Paloma Lazzaro 19 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A 'incubadora' da música brasileira que quer revelar os próximos nomes da indústria

Chegar à indústria da música depende, entre outras coisas, de estar no lugar certo, conhecer as pessoas certas e ter dinheiro para pagar pela estrutura necessária. É exatamente esse gargalo que a Casa da Música Brasileira, conhecida como Petra Zuca, tenta endereçar.

A iniciativa oferece editais de mentoria para artistas independentes, além de estúdio, salas de ensaio, acompanhamento profissional e acesso a uma rede da indústria musical. Em 2026, a Zuca chega à segunda edição da mentoria com 3 mil inscrições, 50% a mais do que no ano anterior.

Instalada em uma casa modernista tombada de 1930, no coração de Higienópolis, em São Paulo, a Zuca nasceu em outubro de 2024, com a cantora Marina Sena e a empresária Talita Morais.

Neste ano, porém, outro nome grande da música brasileira chega como embaixador do projeto, Jota Pê.

Além do cantor, o projeto também conta com uma parceria inédita com o Spotify em 2026, por meio da iniciativa Amplifika.

A chegada de Jota.Pê à Zuca

Jota.pê é o primeiro embaixador da casa, uma função que, a partir de agora, será ocupada por um artista diferente a cada ano.

"Eu conheci a Zuca e a Talita há um ano e achei aquilo tudo maravilhoso: o espaço, a proposta, as audições de discos, os eventos culturais, os editais para ajudar artistas que estão começando", disse Jota.pê à Casual EXAME. "É realmente um sonho uma casa dessa existir."

Jota.Pê e Talita: parcerias com cantores se tornarão parte do funcionamento da Zuca a partir deste ano (Casa Zuca / Divulgação)

A escolha de Jota.pê ocorre em um momento de ascensão do cantor. Natural de Osasco, ele acumula quatro Grammys Latinos pelos trabalhos "Se Meu Peito Fosse o Mundo" e "Dominguinho", com João Gomes e Mestrinho.

A ideia, segundo Talita, é que esse nome lidere as atividades do espaço e sirva de ímã para outros artistas. "A arte tem que ser feita pelo artista. Eu sou apenas o backstage", diz ela. "O artista é o porta-voz de um movimento, de uma cena, de uma mensagem."

Dentro da programação, ele lidera a "Jam na Petra Zuca — Jota.pê Convida", série de encontros musicais ao vivo em formato intimista, com artistas de diferentes cenas.

Para Talita Morais, a escolha não foi por acaso. O cantor já frequentava a casa desde o ano passado e, segundo a empresária, sempre chegava perguntando o que podia fazer.

"O ano passado ele mentorou um dos artistas do edital, fez um feat com um deles. Foi muito natural ele vir se tornar embaixador."

Aporte do projeto 'Amplifika' do Spotify e patrocínio da Petra

Outra grande novidade de 2026 é uma parceria com o Spotify, que cria uma nova categoria dentro do edital.

O Amplifika é uma iniciativa da plataforma voltada a artistas negros criada em 2021. Neste ano, ela passa a ser executada dentro da Zuca. Vai selecionar três artistas negros para desenvolvimento e lançamento de álbuns no segundo semestre do ano.

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Para Talita, a entrada do Spotify é qualitativamente diferente de um patrocínio convencional. "A gente não está tendo um apoio do marketing. O Spotify decidiu trazer para dentro da casa a execução de uma plataforma que eles criaram há cinco anos no Brasil para impulsionar artistas negros."

Para Guga Bandeira, gerente de parcerias com artistas e gravadoras no Spotify, a iniciativa é parte de um compromisso estrutural. "Acreditamos na importância de criar oportunidades concretas de formação e desenvolvimento para novos talentos", afirma em comunicado da Zuca.

Já a Petra, cervejaria do Grupo Petrópolis, segue como patrocinadora e detentora do naming rights da casa. "A parceria com a Casa da Música Brasileira reflete o nosso compromisso em apoiar de forma contínua a música brasileira e o desenvolvimento de novos artistas", afirma Diego Santelices, head de Comunicação e Mídia da empresa, no comunicado.

Talita é direta sobre o papel dessas parcerias corporativas no modelo do projeto. "A gente tem que parar de achar que o dinheiro da cultura vem de qualquer lugar. A gente pode sim bater na porta de uma marca e, mais do que podemos, devemos, para que elas possam investir em verbas disponíveis para movimentar a cultura."

Como funciona o edital de mentoria artística

O edital sintetiza o modelo da Zuca. A seleção funciona como uma residência artística, em que os contemplados recebem mentorias mensais, apoio de produção e suporte para o lançamento dos primeiros álbuns.

A comissão avaliadora tem cinco profissionais da indústria e a escolha passa por cinco rodadas de reuniões.

Em 2026, o número de vagas salta de quatro para sete.

Os resultados da primeira turma já mostram impacto concreto, ainda que Talita seja cautelosa na avaliação. "Acho que ainda é pouco, mas é o que a gente consegue fazer", diz. "Se eu pudesse fazer mais, faria."

Entre os quatro artistas selecionados em 2025, um conseguiu um empresário, outro passou a vender shows para o Sesc e uma terceira se mudou da Bahia para São Paulo, para trabalhar a carreira com mais proximidade da indústria.

Todos lançaram os primeiros álbuns com estrutura profissional, com capa, marketing, release e distribuição nas plataformas. "Parece simples, mas não é", diz Talita.

Consolidando o crescimento

Com jams mensais lideradas por Jota.pê, o podcast "Música Contada", com curadoria de Simoninha, e os painéis mensais do "Prosa Zuca", em parceria com a UBC, a casa monta para 2026 sua agenda mais densa desde a inauguração.

O desafio declarado por Talita é menos de crescimento e mais de coesão. "A gente fala muito sobre comunidade — é um termo muito popular nesse momento de mundo. Mas o desafio esse ano é de fato fazer com que as pessoas que venham aqui entendam por que estão aqui e o que vão levar quando saem", diz. "O movimento só dito é só uma ideia."

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