A mina de terras raras que vale bilhões no Brasil e os nomes por trás do negócio
A compra da mineradora Serra Verde por US$ 2,8 bilhões nesta semana colocou uma empresa jovem de Goiás no centro de uma disputa global por minerais usados em carros elétricos, turbinas e equipamentos de defesa. A brasileira é a única que produz esses elementos em escala fora da Ásia.
O negócio com a USA Rare Earth ainda depende de aprovações regulatórias, com fechamento previsto ainda para 2026. Por trás da transação está uma história que começa longe dos grandes centros industriais e passa por investidores estrangeiros, técnicos brasileiros e uma jazida pouco comum.
De veio a Serra Verde
A Serra Verde nasceu em 2010 para explorar uma área em Minaçu, no interior de Goiás. Diferente de mineradoras criadas por famílias ou grupos industriais, a empresa foi estruturada desde o início com capital de fundos internacionais. Entre eles estão a Denham Capital, a Vision Blue Resources e a Energy & Minerals Group.
O projeto levou mais de uma década entre estudos, licenças e testes até sair do papel e virar produção.
No centro dessa história está a jazida de Pela Ema, um depósito de argila iônica. Esse detalhe geológico muda a conta: permite extrair terras raras com processos mais simples do que os usados em outras partes do mundo. Foi esse fator que colocou a mina no radar internacional.
Hoje, a Serra Verde é apontada como o único produtor em escala fora da Ásia capaz de fornecer quatro elementos usados na fabricação de ímãs permanentes.
A operação começou a rodar, de fato, em 2024, depois de mais de US$ 1,1 bilhão em investimentos. A expectativa é atingir capacidade plena até 2027 e responder por mais de 50% da oferta de terras raras pesadas fora da China.
Quais são os nomes por trás da operação
A construção da empresa também passa por nomes conhecidos da mineração global. O conselho é presidido por Mick Davis, ex-CEO da Xstrata e investidor do projeto por meio da Vision Blue. No comando da operação está Thras Moraitis. No Brasil, a operação é liderada por Ricardo Grossi, com passagem por empresas como Vale e CSN.chat
É o próprio Grossi quem ajuda a explicar o papel que a empresa passou a ocupar. Em entrevista recente à Exame, ele disse que o país já tem base para crescer nesse mercado, mas ainda depende de ajustes.
“O Brasil tem um papel importante a desempenhar na diversificação de um mercado tão concentrado.O país já possui vantagens estruturais, como recursos abundantes, infraestrutura em evolução, tradição mineradora, mão de obra qualificada e condições para uma produção responsável”, afirmou.
Ao mesmo tempo, apontou um entrave direto: “Destravar esse potencial dependerá de previsibilidade regulatória, eficiência no licenciamento e acesso a financiamento”.
Da mina ao ímã
O acordo com a USA Rare Earth tenta resolver parte dessa equação. A combinação das duas empresas prevê a criação de uma operação integrada, que vai da extração do minério à produção de ímãs, com ativos no Brasil, Estados Unidos e Europa. Na prática, a mina em Goiás passa a ser a base de uma cadeia fora da Ásia.
“A combinação permitirá investimentos sustentados e crescimento da operação, criando empregos, contribuições fiscais e investimentos”, disse Moraitis em comunicado. Segundo ele, a união com a empresa americana cria uma estrutura mais ampla, com acesso a tecnologias de separação, processamento e fabricação.
A nova empresa deve reunir operações em Brasil, Estados Unidos, França e Reino Unido, cobrindo etapas como mineração, separação, metalização e produção de ímãs.
Contrato de 15 anos e previsibilidade
Outro ponto central do acordo é o contrato de fornecimento de longo prazo. A Serra Verde fechou um acordo de 15 anos para vender 100% da produção inicial, com preços mínimos definidos para minerais como disprósio e térbio.
“Estamos satisfeitos por termos garantido esse acordo de fornecimento de 15 anos”, disse Moraitis. “Os preços mínimos reduzem o risco e permitem investir na expansão com mais previsibilidade.”
Na prática, o contrato garante fluxo de caixa e reduz a exposição a oscilações de preço — um dos principais riscos do setor. Grossi também destacou o impacto local da operação.
“Esses marcos demonstram a capacidade do Brasil de desempenhar um papel de liderança no desenvolvimento das cadeias globais de suprimentos de terras raras”, afirmou.
Segundo ele, a continuidade dos investimentos deve garantir empregos e arrecadação em Minaçu e no estado de Goiás.
Um ativo no centro da disputa global
A movimentação acontece em meio a uma disputa maior. Estados Unidos e aliados tentam montar uma cadeia completa fora da Ásia, reduzindo a dependência da China no fornecimento de minerais críticos.
A própria Serra Verde já vinha sendo vista como peça-chave nesse movimento. A mina produz um concentrado com alta proporção de elementos usados em ímãs permanentes, essenciais para setores como energia, mobilidade elétrica e defesa.
Com a venda, a empresa que começou como um projeto em Minaçu passa a integrar uma estrutura global mais ampla, conectando a extração no Brasil à indústria de tecnologia fora do país.
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