A moda voltou a celebrar a magreza dentro e fora das passarelas?

Por Gustavo Frank 12 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A moda voltou a celebrar a magreza dentro e fora das passarelas?

Nas passarelas de outono e inverno deste ano, 97,6% dos modelos usaram roupas entre os tamanhos 0 e 4 americanos, equivalente a um 34 ou 36 no Brasil. O dado é de um levantamento da "Vogue Business" que analisou 182 desfiles. Em relação à temporada anterior, houve queda no número de peças em tamanhos médios e grandes. É uma tendência que vem se consolidando há cerca de quatro anos.

O ponto de inflexão tem nome: as canetas emagrecedoras. Os medicamentos voltados ao tratamento de diabetes e obesidade viraram ferramentas de perda de peso entre pessoas sem indicação médica, incluindo mulheres que já eram magras e passaram a usar versões de baixa dosagem para ficar ainda mais. De acordo com o Financial Times, Kristina Zawadzki, diretora de curva da agência IMM Models Londres, que representa modelos acima do tamanho 40, identificou desde então uma queda consistente nas contratações. Algumas marcas chegaram a remover completamente as seções de moda curva de seus sites.

O período entre 2017 e 2019 é descrito por profissionais do setor como uma era dourada da diversidade corporal, quando marcas ampliavam grades e colocavam corpos diferentes no centro de suas campanhas. Um dos maiores exemplos que construíram suas peças ao redor da celebração de corpos é a estilista brasileira Karoline Vitto, que já se apresentou nas semanas de moda de Londres e, mais recentemente, no Rio de Janeiro.

Nas passarelas, o sinal é claro. A Gucci de Demna apresentou calças de cintura baixa em outono-inverno 2026. A Tom Ford seguiu com cropped tops e modelagens que expõem a barriga. A tendência Y2K, que traz de volta o vocabulário visual dos anos 2000, com calças de cintura baixa, tops curtíssimos e silhuetas que pressupõem um tipo específico de corpo, reforça esse movimento. A Geração Z, que abraçou esse estilo, cresceu depois do auge das revistas que prescreviam como perder dez quilos em dez dias.

O impacto vai além da moda. Pesquisa da Health Foundation no Reino Unido apontou que as prescrições privadas de GLP-1s são predominantemente feitas por mulheres de meia-idade e classe alta, muitas delas que cresceram na era Kate Moss. A indústria de procedimentos estéticos também registra crescimento, impulsionada pelo chamado "Ozempic face", perda de volume no rosto causada pelo emagrecimento rápido, que leva pacientes a buscar preenchimentos e injetáveis.

O TikTok bloqueou a hashtag #skinnytok no ano passado, que reunia conteúdo incentivando magreza extrema com referências aos sites pró-anorexia dos anos 2000. O bloqueio não acabou com o fenômeno. Influenciadoras que ensinam como comer menos e ficar mais magra seguem com audiências expressivas. O algoritmo, por sua vez, tende a entregar mais desse conteúdo para quem já consome algo parecido.

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