'A morte do Labubu': o hype acabou, mas a Pop Mart não
Um brinquedo conhecido como "boneca feia" que dominou as bolsas — físicas e de valores —, as redes sociais e marcou presença na lista de presentes das pessoas.
O Labubu, personagem vendido pela chinesa Pop Mart, ajudou os resultados da empresa no ano passado e chegou até a impulsionar seu valor de mercado a um patamar mais alto que o da Vale (VALE3), uma das companhias mais valiosas do Ibovespa. Agora, o que foi uma febre já voltou a uma temperatura mais amena.
Dados de tráfego web coletados pela Comscore mostram uma queda abrupta nas visitas ao site oficial da empresa, principal canal de venda dos bonecos.
O pico ocorreu em julho de 2025, com 2,6 milhões de visitantes mensais no site da Pop Mart, segundo o Business Insider, mas esse número caiu vertiginosamente a partir de outubro, quando o site teve 892 mil visitas. O dado mais recente, de fevereiro deste ano, é de 159 mil, 94% menor que o pico.
O movimento faz sentido. Enquanto o Labubu era raro e havia risco de falsificações, o site oficial da Pop Mart era o destino prioritário dos compradores. Com a normalização do estoque e a abertura de mais de 65 lojas físicas nos Estados Unidos, parte das vendas pode ter migrado para outros canais.
Apesar dessa possível explicação para a diminuição das visitas, o declínio de interesse é notável. Na maior feira de brinquedos dos EUA, a Toy Fair de fevereiro de 2026, todos os fabricantes ouvidos pelo Business Insider concordaram que o auge do Labubu havia ficado para trás.
Dados do Google confirmam a queda do interesse de pesquisa. O pico de popularidade na plataforma de busca foi também em julho do ano passado. Em outubro, ele era apenas 38% do ápice e agora, em junho de 2026, é 4%.
A febre que virou dependência
A popularidade do Labubu decolou quando celebridades como Rihanna e Lisa, do BLACKPINK, foram fotografadas com os bonecos pendurados em suas bolsas. O pico ocorreu no meio de 2025, com o produto constantemente esgotado online.
A busca pelo brinquedo impulsionou as ações da companhia, que chegaram a subir cerca de 300% desde o início de 2025 até o recorde alcançado em agosto. O movimento foi associado à expansão do chamado soft power, termo que descreve a influência cultural de um país oriental, no caso a China, em mercados ocidentais.
O giro de estoques aumentou 21% no período, alcançando 123 dias ao final de 2025. A empresa atribui o resultado à ampliação da presença internacional e à expansão da rede de lojas.
O problema é que o sucesso do Labubu se tornou grande demais para a própria Pop Mart. Em março de 2026, a empresa divulgou que 40% de sua receita vinha do brinquedo, ante 23% em 2024. Outras linhas, como Crybaby e Molly, apresentaram desempenho inferior ao esperado.
Essa concentração deixou investidores preocupados.
O CEO da Pop Mart, Grant Wang, reconheceu o desafio durante a teleconferência de resultados de março. "Olhando para trás, ainda temos muitos problemas a resolver, mas construímos pontos fortes sólidos ao longo do último ano: um portfólio robusto de propriedades intelectuais, uma equipe de gestão altamente capaz e um profundo entendimento de construção de marca e dinâmicas de mercado."
Segundo Angus Lee, do Sparx Group, o desafio central está na capacidade de sustentar a narrativa de crescimento baseada em propriedade intelectual.
“O que diferencia a Pop Mart é a narrativa, seja o Labubu ou a próxima propriedade intelectual de sucesso, mas, no momento, essa história parece incerta”, pontuou o especialista à Bloomberg.
Os números da Pop Mart
Apesar do cenário desfavorável de seu maior produto, os resultados financeiros da Pop Mart continuam impressionantes. De acordo com o balanço anual de 2025, a receita total da companhia saltou de 13 bilhões de yuans em 2024 para 37,1 bilhões de yuans em 2025, um crescimento de cerca de 185%.
O lucro líquido atribuído aos acionistas foi de 12,7 bilhões de yuans, ante 3,1 bilhões no ano anterior, ou seja, a margem subiu de 25,4% para 35,1%.
No primeiro trimestre de 2026, quando a febre do Labubu já havia passado, a receita global da empresa continuou crescendo. A expansão foi entre 75% e 80% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o jornal de Hong Kong The Standard.
Na China, os resultados foram mais positivos ainda , com crescimento de 100% a 105%. Porém, na Europa e nas Américas, os crescimentos foram mais modestos, entre 55% e 65%.
Apesar dos números robustos, o próprio CEO sinalizou uma mudança de postura. Wang disse esperar que a empresa transite de um ciclo de crescimento acelerado para um ritmo mais linear e saudável, com meta de expansão de pelo menos 20% ao ano daqui para frente, de acordo com o jornal.
Legado do Labubu e a expansão da Pop Mart
O legado do Labubu, no entanto, pode sobreviver ao brinquedo em si.
Na Toy Fair, fabricantes disseram ao Business insider que ele deixou uma marca duradoura no setor: brinquedos voltados a colecionadores adultos e vendidos em embalagens cegas — sem revelar qual versão está dentro — tornaram-se tendências consolidadas no mercado, mesmo após o fim do hype do bonequinho de orelhas pontudas.
Neste mês, ele vai chegar oficialmente ao Brasil. A Pop Mart confirmou que os bonecos colecionáveis estarão disponíveis no país a partir de junho, com preços que podem chegar a R$ 800 dependendo da edição e do tamanho do produto.
Outra frente de expansão da empresa ocorre no audiovisual. O Labubu vai ganhar um filme em parceria com a Sony Pictures. O projeto, que mistura atores reais e computação gráfica (CGI), está em fase inicial de desenvolvimento e marca a expansão da franquia de brinquedos para o cinema.
Segundo a Pop Mart, o longa será produzido, dirigido e coescrito por Paul King, conhecido por filmes como “Paddington” e “Wonka”. O roteiro também contará com a participação de Steven Levenson.
A empresa tem também ampliado o portfólio com novos personagens, como Skullpanda e Twinkle Twinkle, além de investir em colaborações com a Sanrio Co. e iniciativas ligadas à Copa do Mundo da FIFA.
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