'A natureza de um escritor é ser egoísta', diz Almodóvar à EXAME sobre novo filme
Ter uma assinatura no cinema é um feito para poucos. É fácil reconhecer um clássico Wes Anderson pela simetria ou um terror de Kubrick pelo close-up. Tão fácil quanto ver cores vibrantes, personagens femininas fortes e um humor ácido em cena e saber que aquela é uma parte de um filme Almodóvar.
Depois de estrear O Quarto ao Lado, vencedor do Leão de Ouro em Veneza em 2024 e seu primeiro longa-metragem falado em inglês, o diretor traz de volta todos os elementos de sua cinematografia para Natal Amargo. O filme estreou no 79º Festival de Cinema de Cannes e chega aos cinemas brasileiros já nesta quinta-feira, 28.
Poucos dias antes de embarcar rumo à Riviera Francesa, Almodóvar concedeu uma entrevista por videochamada, da própria casa, a veículos brasileiros selecionados — entre eles a Casual EXAME. Na tela, era possível ver em sua estante uma coleção de estatuetas, amontoadas como pesos de papel: um Oscar, um Bafta, dois Leões de Ouro. Durante a conversa, o cineasta mergulhou nos dilemas éticos que movem o filme.
Cena de 'Natal Amargo', novo filme de Pedro Almodóvar
Natal Amargo é egocêntrico, mas não deixa de ser corajoso
A trama de Natal Amargo conta duas histórias paralelas. Uma é a de Elsa, uma cineasta esgotada que, um ano após a morte da mãe, começa a escrever um novo roteiro de um filme. Inspirada na própria dor e na história de pessoas próximas, ela se vê sozinha quando os amigos ao seu redor ficam descontentes com o uso do sofrimento alheio para a criação do roteiro. A outra é a de Raúl, roteirista obcecado que conta ao público a história de Elsa, seu alter ego. Ele mesmo vive uma crise com as pessoas mais próximas que o cercam e o inspiram.
É um filme dentro de um filme que, por sua vez, discute a escrita de um terceiro filme — esse que Almodóvar nos apresenta, autobiográfico, metalinguístico e corajoso.
Esse ponto de partida também está no principal fio condutor do longa: o luto. A paralisia emocional que acomete ambos os protagonistas pode ser encarada, no fundo, como uma reflexão sobre as ausências. Em Natal Amargo, o peso molda as decisões de Elsa, dos amigos e de Raúl, que encontram no isolamento um espelho para a dor.
Foi a maneira que Almodóvar encontrou para refletir sobre como o sofrimento não deve ser mascarado.
Junto desse roteiro novo e ambicioso estão também cores, diálogos e atuações característicos. Uma estreia na contramão dos mais novos lançamentos de Hollywood, que passa por uma crise de identidade nos últimos anos. Enquanto a indústria norte-americana se apoia em reboots e efeitos visuais para prender a atenção do público, o cineasta espanhol atribui a humanidade de suas obras à cadência de um público cativo.
Cena de 'Natal Amargo', novo filme de Pedro Almodóvar
Reflexão humorística?
Essa busca pela verdade artística, no entanto, não exclui o humor. Como os demais filmes da carreira do cineasta, Natal Amargo bebe do sarcasmo e é cheio de "sacadinhas" inteligentes sobre o papel do roteirista, descrito como um trabalho quase maníaco. Também ironiza o próprio mercado de filmes cult, gênero que a crítica e a indústria utilizam para rotular as obras de Almodóvar.
"Minha personagem diz, de forma irônica, que filmes cults são aqueles que têm bilheteria fracassada, mas há um grupo de pessoas que gosta deles e os exalta como algo com muita qualidade. Na minha visão, existem vários tipos de filmes ‘cult’. Há aqueles que, como Opening Night ou Casablanca, são obras-primas maravilhosas, embora não sejam filmes tão majoritários”, argumentou Almodóvar.
“Há outros, como os giallos italianos dos anos 60 e 70, que não são bons filmes no geral, mas o modo como são feitos os converte em filmes muito amenos, em que parte da qualidade e do aproveitamento dessas obras é colocada pelo espectador. Shockers é outro que foi descrito como péssimo quando estreou, e hoje se tornou um cult. É um rótulo a se pensar, e o acho divertido para entender como é o cinema ao longo dos anos”.
Ainda que não seja o mais sarcástico de sua cinebiografia, o longa traz momentos engraçados ao roteiro. Em Cannes, o próprio cineasta reconheceu a falta da risada: "meu próximo filme será mais divertido nesse sentido", comentou em coletiva de imprensa.
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