A nova queda de braço entre China e EUA: livre comércio ou guerra tarifária?
Apenas uma semana após o encontro entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim, os governos dos Estados Unidos e da China voltaram a demonstrar que enxergam o futuro da região Ásia-Pacífico por lentes profundamente diferentes.
Se na capital chinesa os dois líderes tentaram projetar uma imagem de aproximação, a 32ª Reunião Ministerial de Comércio da APEC, realizada em Suzhou, na China, trouxe o pragmatismo de volta à mesa.
Enquanto Pequim defendeu o livre comércio e a redução de tarifas, Washington concentrou seu discurso em competitividade, comércio equilibrado e na manutenção da liderança tecnológica americana.
O pragmatismo por trás dos acordos de Pequim
Apesar dos anúncios bilaterais recentes, os comunicados emitidos pelas duas potências revelaram interpretações distintas sobre o real alcance dos acordos:
A guerra das tarifas e o peso do superávit chinês
Em Suzhou, a divergência de prioridades macroeconômicas ficou evidente no debate sobre a Área de Livre Comércio da Ásia-Pacífico (FTAAP).
Para a China — que concentra cerca de 28% da produção industrial global —, a consolidação desse bloco é um objetivo estratégico para garantir o fluxo de suas exportações.
O ministro do Comércio chinês, Wang Wentao, tentou emplacar a FTAAP como a principal entrega do fórum.
Contudo, demonstrando um claro sinal de desconforto político, Wang se ausentou da sessão inaugural do dia 22, sendo substituído pelo vice-ministro Li Chenggang sob a justificativa de "assuntos oficiais urgentes".
O ministro retornou apenas no sábado para a coletiva de encerramento, sem dar explicações sobre o sumiço.
Do lado americano, a postura em relação ao bloco foi de total cautela. Casey K. Mace, representante sênior dos EUA na APEC, minimizou a urgência do acordo.
"A FTAAP é mais uma agenda em construção do que um destino final", disse.
A prioridade de Washington continua sendo a imposição de padrões trabalhistas e o combate a desequilíbrios comerciais.
O argumento ganha força com os dados mais recentes: o superávit comercial da China com o resto do mundo atingiu quase US$ 1,2 trilhão em 2025.
O montante, classificado como "insustentável" por ministros das Finanças do G7, é a principal justificativa de Trump para manter e elevar tarifas.
Inteligência Artificial: a nova linha de frente
A disputa geopolítica oficializou sua transição do comércio de bens de consumo para a tecnologia de ponta.
Embora os ministros da APEC tenham assinado um consenso sobre cooperação em comércio digital e inteligência artificial (IA), a aplicação prática divide as potências.
A China foca em expandir suas plataformas de e-commerce e massificar o uso de IA nas trocas comerciais regionais.
O movimento coincide com uma ofensiva de empresas chinesas, que têm lançado modelos de IA altamente competitivos e gratuitos para contornar as severas restrições impostas por Washington ao acesso de Pequim a semicondutores e chips avançados.
Em contrapartida, os EUA usam a APEC como vitrine política.
O governo americano já prepara uma "semana digital" em Chengdu, em julho, com o objetivo explícito de posicionar suas Big Techs como as líderes tecnológicas incontestáveis da região.
Próximos capítulos
O fórum de Suzhou foi apenas o início de uma longa maratona diplomática. Como anfitriã da APEC, a China sediará cerca de 300 eventos ao longo do ano.
O ápice do calendário ocorrerá em novembro, na Reunião de Líderes Econômicos em Shenzhen, onde Xi e Trump devem se enfrentar novamente. Antes disso, um novo encontro bilateral está previsto para setembro, nos Estados Unidos.
Até lá, a tendência é que nenhum dos lados ceda em suas ferramentas de barganha.
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