A próxima disputa da IA será, sobretudo, de narrativa
Há menos futurismo nos corredores do Red Hat Summit deste ano.
O que parece contraditório para um evento que reúne alguns dos principais nomes globais de infraestrutura, inteligência artificial e open source corporativo talvez revele justamente a principal mudança perceptível em Atlanta: a tecnologia continua impressionando, os anúncios seguem grandiosos, mas as conversas parecem menos fascinadas pelo hype e mais preocupadas com sustentação, integração e capacidade real de execução.
Depois de dois anos em que praticamente toda empresa precisou demonstrar ao mercado algum tipo de protagonismo em IA, o ambiente em Atlanta transmite uma sensação diferente.
O Red Hat Summit acontece no gigantesco Georgia World Congress Center, um daqueles espaços que parecem uma pequena cidade temporária construída para discutir o futuro.
Nos corredores dominados pelas cores branca, vermelha e preta da Red Hat, circulam executivos da América Latina, engenheiros da Ásia, startups europeias, lideranças africanas e algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo discutindo exatamente os mesmos temas: IA (claro), cloud híbrida, automação, soberania digital e infraestrutura.
E o detalhe mais interessante figura menos na tecnologia em si e mais na mudança de discurso das empresas.
A Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma demonstração de inovação para começar a virar infraestrutura.
Essa mudança apareceu de forma bastante clara na keynote de Matt Hicks, CEO da Red Hat, adquirida pela IBM em 2019 por US$ 33 bilhões. Ele repetiu ao longo do evento uma percepção que ajuda a explicar o momento atual do mercado: a IA já não pode ser ignorada pelas empresas.
Entretanto, avançar rápido demais sobre estruturas frágeis pode ser tão perigoso quanto ficar para trás.
A fala encontra eco no próprio cenário corporativo.
Novos desafios
A corrida pela IA encontrou empresas carregando mais de uma década de dívida tecnológica acumulada, múltiplos ambientes de cloud, sistemas legados e operações que muitas vezes sequer conseguiram concluir a própria modernização digital anterior.
Em outras palavras: a tecnologia chegou antes de muita companhia conseguir organizar a própria casa.
Por essa razão, palavras como governança, integração, soberania digital e controle aparecem tanto nas apresentações, nas entrevistas e até nas conversas paralelas do evento. Não como jargão técnico, mas como tentativa de responder a uma pressão que começa a vir dos conselhos, dos investidores e da própria operação.
Gilson Magalhães, vice-presidente & general manager da Red Hat para a América Latina, resume bem essa percepção ao afirmar que o principal desafio atual já não é acesso à tecnologia, e sim capacidade de execução.
Mas a observação mais interessante de Gilson, executivo com 40 anos de experiência nesse mercado, está justamente fora da tecnologia. Ao falar sobre posicionamento de marca, ele reconhece que empresas capazes de construir boas narrativas em torno da IA ganham atenção, percepção de inovação e valor reputacional mais rapidamente.
O problema, reforça, é quando existe apenas narrativa sem sustentação operacional.
“Algumas empresas fazem bom uso da tecnologia, mas não conseguem transformar isso em narrativa. Outras fazem só a narrativa. E aí existe um risco enorme”, afirmou durante nossa conversa em Atlanta.
A fala ajuda a explicar o momento atual do setor.
Ferramentas generativas se popularizaram rapidamente. Plataformas se multiplicaram. O acesso ficou relativamente simples. O desafio agora é transformar tudo isso em produtividade real e vantagem competitiva sem gerar desorganização operacional, dispersão de dados ou aumento de risco.
A percepção é compartilhada por Sandra Vaz, presidente da Red Hat Brasil. Para ela, as empresas começam a deixar a fase dos experimentos para entrar numa etapa mais madura da IA corporativa, em que retorno sobre investimento, eficiência operacional e governança de dados passam a ocupar espaço central na agenda.
Sandra usa uma definição particularmente interessante para explicar um dos conceitos mais repetidos aqui em Atlanta: soberania digital. Para ela, trata-se de “saber de onde vem o dado, como ele é tratado e como ele será usado com segurança”.
Pode parecer apenas uma discussão técnica. Não é.
Nasa, Nissan e NVIDIA
Num ambiente geopolítico mais instável, em que infraestrutura, dados e IA passam a influenciar diretamente competitividade econômica e autonomia operacional, controle tecnológico deixou de ser um assunto restrito ao departamento de TI para virar estratégia corporativa.
Não é coincidência, por exemplo, que alguns dos casos mais comentados do evento envolvam operações em que falha simplesmente não é uma opção. O Jet Propulsion Laboratory (JPL), da NASA, está utilizando soluções da Red Hat para modernizar sua infraestrutura de missões críticas no espaço profundo.
A Nissan trabalha junto à companhia no desenvolvimento de veículos definidos por software, separando hardware e software para acelerar atualizações e ciclos de inovação.
Já a parceria ampliada com a NVIDIA reforça uma percepção cada vez mais clara: a corrida deixou de depender apenas de modelos poderosos para exigir infraestrutura robusta, integração e capacidade operacional em larga escala.
A reflexão mais interessante do evento, porém, está acontecendo numa camada menos tecnológica e mais humana.
Victoria Martínez Suárez, gerente de Desenvolvimento de Negócios de Inteligência Artificial da companhia, chama atenção para um fenômeno que começa a aparecer também no marketing e na comunicação corporativa. Para ela, a explosão da IA começou a produzir uma saturação narrativa.
“Sem narrativa, não existe tração”, afirma. O público já consegue perceber quando um conteúdo é excessivamente artificial. “É como uma maçã de plástico. Você olha, mas não sente vontade de consumir.”
A observação ajuda a explicar uma mudança importante no setor de tecnologia: durante muito tempo, inovação bastava como ativo reputacional. Bastava anunciar velocidade, disrupção e futuro.
Agora isso já não basta.
As empresas precisarão demonstrar capacidade de integração, estabilidade, transparência e confiança.
A próxima disputa da Inteligência Artificial continuará sendo tecnológica, evidentemente. Mas ela começa, igualmente, a se tornar uma disputa por credibilidade.
O mercado continua fascinado pela Inteligência Artificial. Mas começa lentamente a admirar menos quem apenas a celebra no discurso — e mais quem consegue transformá-la em confiança, operação e reputação sustentável.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: