‘A régua vai subir’: 60% das empresas não estão prontas para equipes com humanos e agentes de IA
A inteligência artificial já deixou de ser uma tendência distante e passou a ocupar espaço nas estratégias das empresas brasileiras. O próximo passo, porém, vai além do uso pontual de chatbots e ferramentas generativas. O desafio agora é incorporar agentes digitais (sistemas capazes de executar tarefas, analisar informações e trabalhar em conjunto com pessoas) ao dia a dia das organizações.
Mas a maioria das empresas ainda está longe disso. É o que mostra uma pesquisa da Skyone em parceria com a MIT Technology Review Brasil, que ouviu 265 líderes e profissionais envolvidos em áreas de tecnologia, inovação, negócios e gestão de pessoas.
Segundo o levantamento, 99% das empresas acreditam que agentes de IA terão papel central nos negócios nos próximos três anos. Apesar disso, 57% ainda não possuem orçamento dedicado à área e 74% estão em estágio inicial ou intermediário de adoção da tecnologia.
Mais do que uma questão tecnológica, o estudo aponta que a discussão sobre inteligência artificial se tornou um tema de gestão, liderança e organização do trabalho. O desafio agora é construir equipes híbridas, nas quais profissionais atuam ao lado de assistentes generativos, copilotos e agentes autônomos.
"Quando uma companhia diz que a tecnologia será estratégica, mas não separa orçamento, não define responsáveis e não conecta isso aos processos, ela fica no campo da intenção", afirma Felipe Wasserman, diretor de Marketing e Growth da Skyone. "Faz um piloto aqui, testa uma ferramenta ali, mas não cria estrutura para escalar."
Veja também: ‘O maior risco da IA não é substituir, é fazer você parar de pensar’, diz especialista
O problema não é a ferramenta
A pesquisa mostra que a principal barreira para escalar a IA não está no acesso às plataformas, mas na capacidade das empresas de integrar dados, processos e áreas de negócio: 40% dos entrevistados apontam a falta de integração entre departamentos como o principal entrave, enquanto 46% afirmam operar em estruturas fragmentadas entre negócio e TI.
Além disso, 59% das empresas afirmam não possuir infraestrutura adequada para sustentar iniciativas robustas de inteligência artificial em larga escala.
"O problema é que a tecnologia não resolve sozinha uma empresa desorganizada", diz Wasserman. "Se os dados estão espalhados, os sistemas não conversam e a liderança não sabe exatamente o que quer com IA, o projeto não escala."
Veja também: Um olhar para o futuro do trabalho: Como a Inteligência Artificial está sendo usada no Brasil?
O líder do futuro terá que entender de IA
Se antes a transformação digital era delegada às áreas de tecnologia, agora ela passa a ser uma responsabilidade da liderança.
Para Wasserman, os executivos não precisam se tornar especialistas técnicos, mas terão de compreender como a IA impacta produtividade, experiência do cliente, processos e competitividade.
"O CEO precisa saber responder algumas perguntas básicas: onde a IA gera valor? Quais dados a empresa tem para sustentar isso? Como medir os resultados? A vantagem competitiva não estará apenas em ter acesso à tecnologia, mas em integrá-la ao funcionamento da empresa."
Nesse cenário, competências como pensamento crítico, gestão da mudança, aprendizado contínuo e capacidade de fazer boas perguntas se tornam ainda mais importantes.
Felipe Wasserman, diretor de Marketing e Growth da Skyone: "Assim como hoje é difícil imaginar alguém trabalhando sem internet ou e-mail, a IA deve se tornar uma camada cotidiana do trabalho" (MIT Technology Review Brasil /Getty Images)
O profissional terá um "copiloto"
O estudo aponta que 59% das empresas não se consideram preparadas para operar equipes formadas por pessoas e sistemas inteligentes nos próximos 12 meses.
Para o executivo da Skyone, a tendência é que, em poucos anos, praticamente todos os profissionais trabalhem com algum tipo de assistente de IA.
"Assim como hoje é difícil imaginar alguém trabalhando sem internet ou e-mail, a IA deve se tornar uma camada cotidiana do trabalho", afirma.
Na prática, esses sistemas poderão ajudar em pesquisas, análise de dados, produção de relatórios e automatização de tarefas repetitivas. O papel humano, porém, continuará sendo fundamental.
"A IA acelera a execução, mas o julgamento continua sendo humano."
O que aprender para continuar relevante?
Para os próximos anos, a recomendação não é dominar uma ferramenta específica, mas aprender a trabalhar em parceria com a tecnologia.
Segundo Wasserman, os profissionais mais valorizados serão aqueles capazes de combinar conhecimento de negócio com bom uso da IA.
"Curiosidade, pensamento analítico, comunicação, criatividade e capacidade de aprender rápido ganham ainda mais importância. O profissional mais relevante não será o que compete com a IA, mas o que sabe usar a IA para trabalhar melhor."
A régua vai subir
Embora algumas atividades repetitivas tendam a ser automatizadas, o executivo acredita que a principal mudança será no nível de exigência sobre os profissionais.
"A pergunta não é apenas se a IA substitui ou não substitui. Ela muda o tipo de contribuição esperada das pessoas. A régua sobe."
Nesse contexto, decisões envolvendo ética, cultura, gestão de pessoas e estratégia continuarão sendo responsabilidade humana.
"A tecnologia pode melhorar a análise, mas o julgamento final precisa continuar humano."
Para as empresas que desejam sair da fase dos testes, a lição é clara.
"No fim, a maturidade não está em fazer mais pilotos", diz Wasserman. "Está em conseguir conectar a IA ao trabalho de verdade."
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: