A tendência de joias que pode estar com os dias contados

Por Marina Semensato 11 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A tendência de joias que pode estar com os dias contados

Falar de acessórios é falar de algo muito pessoal. Há quem não suporte ficar sem eles e, na outra extremidade, quem se arrepie só de pensar no peso dos brincos nas orelhas ou no tilintar no punho durante o trabalho e, por isso, os deixam restritos às ocasiões especiais.

Ainda assim, mesmo quem já tem uma relação bem resolvida com os acessórios pode ter dificuldades de escapar por completo de uma onda coletiva, principalmente quando elas são embaladas em nostalgia.

A exceção quase sempre chega por peças clássicas — as que saem e voltam de cena em ciclos, sem nunca desaparecer de vez. O colar Return to Tiffany, por exemplo, foi lançado em 1969 e virou um objeto de desejo entre muitas mulheres jovens. Recentemente, foi repaginado na coleção Color Splash e voltou ao radar do público que gosta de complementos mais delicados. A pulseira de berloques da Life by Vivara e os lenços de seda também repetem esse raciocínio.

Há, no entanto, uma moda dos últimos quinze anos que parece não ter conseguido seu grande momento de retorno: o conjunto sobreposto de pulseiras de grife. O clima entre especialistas ouvidos pelo Financial Times, em reportagem assinada por Rachel Garrahan, é mais de despedida.

Marcador social no pulso

Em 2010, era um sinal de estilo e elegância ter o braço lotado de pulseiras de grife. O blog Man Repeller, de Leandra Medine Cohen, chegou a criar o conceito de encher o pulso de acessórios de "arm party" e incentivava suas leitoras a empilhar pulseiras e relógios em camadas deliberadamente exageradas.

O combo era feito de acessórios previsíveis. Uma Cartier Love dividia espaço com a Juste un Clou, a Alhambra da Van Cleef & Arpels aparecia ao lado de uma Tiffany T, completada pela pulseira tennis de diamantes. Se o orçamento deixasse, um Rolex de ouro era o toque final do conjunto.

Era um marcador social bem importante na época. O Financial Times calcula que montar, hoje, uma versão básica desse combo de pulseiras, comprado em boutique, sai por cerca de £ 30 mil (cerca de R$ 178 mil).

Sem comeback?

Por que, então, a dificuldade em voltar? A resposta passa pela ascensão da estética batizada de old money, que nos últimos anos virou um dos códigos de aspiração mais copiado das redes sociais. O termo descreve um visual contido, que emula uma riqueza herdada a partir de peças sem logo aparente e alfaiataria discreta, estruturadas em tecidos nobres.

Principalmente nos Estados Unidos — onde a criação de riqueza surge num ritmo que o UBS mediu em mais de mil novos milionários por dia em 2024 —, a única diferenciação que sobrou é parecer que o dinheiro está na família há gerações. Eis a barreira para os conjuntos de pulseira de grife: em vez de sinalizar pertencimento, eles revelam o momento de entrada no mundo dos ricos. "Isso não é old money, é estoque", disse a autora Kiki Astor ao Financial Times.

O mesmo exagero que simbolizava ascensão passou a sinalizar, nas palavras de Garrahan, uma "riqueza performática". A jornalista de joalheria Marion Fasel, por sua vez, considera que a moda das pulseiras no pulso já "atingiu seu auge".

Mais significado que status

Nem todo mundo no setor lê a mudança como despedida. Stellene Volandes, editora-chefe da Town and Country americana, disse ao FT que usar várias pulseiras juntas "tornou-se mais um talismã pessoal do que uma medida de status".

Ela própria serve de exemplo. Não tira há três anos seu conjunto de três Coco Crush da Chanel somadas a uma pulseira da sorte da joalheria grega Lalaounis. "Troco o resto das minhas joias todos os dias, mas meu pulso se tornou uma espécie de uniforme", afirma.

Designers independentes já trabalham nessa direção. A londrina Cece Jewellery vende sua pulseira Triptych por £ 55 mil (cerca de R$ 326 mil). A peça é formada por painéis de ouro ligados por elos de diamante, cada um com símbolos em esmalte pintados à mão que o cliente escolhe para representar memórias de família. "Sempre acreditamos que as joias devem ser um reflexo da sua vida, e não um símbolo de uma marca", diz ao FT a fundadora Cecilia Fein-Hughes.

O brasileiro Fernando Jorge, que vende de Londres para o mundo, segue a mesma linha. "Simplesmente se tornou mais intencional — às vezes [as peças] são usadas juntas, às vezes sozinhas, dependendo do humor ou da ocasião", diz ele ao FT. Sua pulseira Wave, em ouro amarelo e madeira louro, funciona nas duas lógicas.

Um novo stack, com cara de anos 90

Para Fasel, o conjunto de pulseiras atual é um eco dos anos 90, mais boêmio e menos preso às boutiques de grife de 2010. Ela cita como exemplo Doechii no Grammy deste ano, com um Roberto Cavalli feito sob medida e os pulsos carregados de pulseiras finas.

O registro mais leve também pede outras faixas de preço. A Liberty London vende um conjunto de latão banhado em ouro e platina assinado por Jenny Bird por £ 200 (cerca de R$ 1.190). A Net-a-Porter oferece o set esmaltado da Maison Mayle por £ 368 (R$ 2.180).

Sozinhas também

Alguns modelos são pensados para ser usados sem companhia. Sarah Ysabel Narici, da Dyne, criou a pulseira Bud: um fio de ouro que dá várias voltas no punho e termina num botão de diamantes em formato de espinho. "É um design tão bem pensado que acaba se perdendo em meio a outras peças, sem falar no risco de ser danificado", diz ela ao FT.

A aposta na peça única apareceu com força no Oscar do mês passado. Num tapete vermelho dominado por colares, Kirsten Dunst e Renate Reinsve, indicada a Melhor Atriz, concentraram o impacto no pulso.

Dunst usava uma pulseira vintage de Suzanne Belperron, três fileiras de diamantes em ouro branco, emprestada pela Fred Leighton. Reinsve escolheu pulseira ondulada de alta joalheria da Louis Vuitton, também em ouro branco cravejado. "O impacto que uma única peça escultural pode causar é incomparável", afirma ao FT Rebecca Selva, da Fred Leighton, responsável pelo empréstimo a Dunst.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: