A tese institucional do bitcoin falhou
Por Gabriel Fauth*
A aceitação do bitcoin por Wall Street deveria ter trazido estabilidade. Em vez disso, criou uma nova vulnerabilidade: uma dependência crescente do capital americano, justamente no momento em que esse motor começa a perder força.
Desde 10 de outubro, cerca de US$ 8,5 bilhões saíram dos ETFs à vista de bitcoin listados nos Estados Unidos. A exposição a contratos futuros na Bolsa Mercantil de Chicago recuou quase dois terços desde o pico no fim de 2024, para aproximadamente US$ 8 bilhões. Na Coinbase, plataforma preferida por muitas instituições americanas, o bitcoin tem sido negociado de forma persistente com desconto em relação às bolsas offshore, como a Binance, um sinal claro de vendas sustentadas nos EUA.
O resultado disso é que o bitcoin caiu mais de 40%, mesmo enquanto ações e metais preciosos ainda encontram compradores.
Essa reversão pesa mais do que parece, porque o mercado mudou estruturalmente. Durante a maior parte de sua história, o preço do bitcoin era definido em bolsas offshore, dominadas por investidores individuais. Nos últimos dois anos, porém, ETFs spot canalizaram bilhões através de veículos americanos, a CME se tornou o principal centro de futuros, e fundos de pensão e hedge funds passaram a substituir o varejo como força dominante.
O capital institucional americano virou o principal formador de preço.
Quando esse capital estava em expansão, o bitcoin atingiu um recorde em 6 de outubro. Agora, ele estagnou e não há um catalisador óbvio para reacender o fluxo comprador. Na quarta-feira, a criptomoeda permanecia praticamente estável em torno de US$ 67.500.
O problema central é simples: a tese institucional falhou.
Investidores que compraram bitcoin como proteção contra inflação, desvalorização cambial ou volatilidade do mercado acionário viram o ativo cair junto — e, em muitos casos, mais rápido do que os próprios riscos que deveria compensar. Já aqueles que apostavam em momentum migraram para onde o movimento está de fato acontecendo: longe do bitcoin, em direção ao ouro.
Além disso, parte da onda institucional era mais mecânica do que ideológica. Hedge funds exploravam operações de base: compravam bitcoin no mercado à vista e vendiam contratos futuros com prêmio, capturando o spread como rendimento. Essa estratégia não exigia convicção sobre o preço, apenas que o retorno fosse superior ao disponível em alternativas como os Treasuries.
Durante boa parte de 2025, isso funcionou. Mas quando o spread se comprimiu abaixo dos rendimentos dos títulos do Tesouro após 10 de outubro, a arbitragem perdeu sentido e os fluxos desapareceram. Isso explica parte do enfraquecimento da demanda, embora a reversão dos ETFs pareça refletir algo mais profundo: uma queda no apetite pelo bitcoin como ativo, não apenas o fim de uma janela técnica de arbitragem.
A integração do bitcoin ao sistema financeiro americano trouxe ganhos reais: mais liquidez, acesso institucional e uma legitimidade que o mercado buscou por anos.
Por ora, porém, essa mesma integração cobra seu preço. A valorização está em declínio, e o bitcoin parece ter perdido, ao menos temporariamente, sua capacidade de reagir positivamente até mesmo a boas notícias.
*Gabriel Fauth é operador de mercados futuros há 7 anos e é um dos contribuidores de análises e avaliações de mercado na comunidade do TradingView. O TradingView é uma ferramenta de gráficos para execução e análise do mercado, além da maior rede social para investidores e Traders.
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