A vez do biometano na economia nacional

Por Lucas Bacellar 1 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A vez do biometano na economia nacional

O lixo orgânico, quando mal gerenciado, libera biogás, um potente gás de efeito estufa que acelera o aquecimento global. Entretanto, essa equação pode ser invertida se o biogás for processado para produzir biometano, um combustível que pode ajudar a descarbonizar a economia brasileira enquanto movimenta bilhões de reais.

Por que o biometano é estratégico para o Brasil?

O Brasil, maior produtor de cana-de-açúcar do mundo, dispõe de milhões de toneladas de biomassa residual da produção de açúcar e etanol, que é ideal para a geração de biometano. Também temos um histórico de vanguarda no setor: o Programa Nacional do Álcool (Pró-Álcool), criado em resposta às crises de petróleo da década de 1970, foi o maior e mais ambicioso programa de biocombustíveis da história, substituindo 2,5 bilhões de barris de petróleo ao longo de 50 anos.

O potencial brasileiro não se restringe ao campo: resíduos urbanos também podem servir de matéria-prima. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei n° 12.305) determina que os lixões a céu aberto ainda existentes sejam convertidos em aterros sanitários, que podem gerar biometano em larga escala.

O biometano é um combustível drop-in, ou seja, quimicamente idêntico ao metano fóssil, podendo substituí-lo diretamente, sem necessidade de adaptação nos equipamentos. Um estudo publicado pela FIESP (produzido pela PSR, Amplum e I17) aponta que, apenas no estado de São Paulo, o biometano gerado a partir de biomassa e resíduos pode atingir 6,4 milhões de m³/dia (metade da demanda estadual de gás), evitando a emissão de 25 milhões de toneladas de CO2 por ano, ou 16% da meta de descarbonização paulista.

O cenário regulatório também joga a favor: a Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), promulgada em outubro de 2024, estabelece uma meta anual de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) para o mercado de gás natural, através da participação do biometano no consumo, com um valor inicial de 0,25% e um teto de 10%. A nova legislação orienta o mercado, que já anunciou para os próximos cinco anos investimentos que somam R$ 8,5 bilhões em usinas, conforme dados da Abrema.

O estudo da FIESP comprova a viabilidade econômica do biometano em nichos estratégicos. No transporte pesado, o custo total de vida útil (TCO) de veículos a biometano é inferior ao dos movidos a diesel. O próprio setor sucroalcoleiro poderia se beneficiar pela substituição do diesel de frotas de caminhões e equipamentos gerais (bombas, colheitadeiras etc.) por biometano produzido localmente.

Um dos gargalos, porém, é a ainda escassa oferta de caminhões a gás com maior potência, empregados na colheita da cana de açúcar. Também será preciso investir na distribuição do biometano via dutos que conectem as fazendas onde é produzido às redes de gás. "Corredores sustentáveis" com postos de abastecimento em rodovias também podem ajudar a destravar a demanda.

Dependente do modal rodoviário e repleto de biomassa, o Brasil reúne condições únicas para protagonizar mais uma transição energética. O biometano pode descarbonizar a frota nacional de forma competitiva e resolver, de quebra, o destino de resíduos hoje desperdiçados.

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