A volta dos fones de ouvido com fio: por que a geração Z abandonou o bluetooth

Por Tamires Vitorio 22 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A volta dos fones de ouvido com fio: por que a geração Z abandonou o bluetooth

Algo parecia fora de lugar nos vagões do metrô de Nova York. Em meio a smartphones de última geração e relógios inteligentes, um número crescente de jovens carregava fios brancos pendurados no pescoço.

A cena chamou a atenção de Ben Arnold, analista da consultoria Circana. Durante anos, os fones sem fio pareciam ter vencido a disputa pelo ouvido dos consumidores. Mas os números começaram a contar outra história.

Depois de cinco anos de queda, as vendas de fones com fio voltaram a crescer nos Estados Unidos em 2025. A receita da categoria avançou 3%, o equivalente a cerca de US$ 15 milhões, segundo a Circana. Entre julho e dezembro, o crescimento acelerou para 10%. Nas seis primeiras semanas de 2026, a alta chegou a 20%.

O movimento não ameaça o domínio dos modelos sem fio. Em 2025, os fones true wireless ainda responderam por 65% da receita do mercado americano. O que mudou foi a trajetória de um produto que parecia condenado à irrelevância.

Mais do que um acessório, o fio virou um símbolo cultural para parte da geração Z, que transformou uma tecnologia considerada ultrapassada em elemento de identidade.

Quando a simplicidade vira diferencial

O preço ajuda a explicar a volta. Segundo a Circana, o valor médio de um fone com fio nos Estados Unidos ficou em torno de US$ 13 em 2025. Nos modelos sem fio, a média foi de US$ 99.

Mas a diferença financeira explica apenas parte do fenômeno.

Ao contrário dos dispositivos bluetooth, os fones com fio não precisam ser carregados, não dependem de bateria e dispensam pareamento. Em uma rotina marcada por notificações constantes e múltiplas telas, a simplicidade virou um atributo.

O retorno acontece no mesmo momento em que jovens redescobrem câmeras digitais compactas, tocadores de CD, iPods antigos e máquinas fotográficas analógicas. O interesse por produtos associados aos anos 1990 e 2000 se transformou em uma tendência global de consumo.

Uma pesquisa da GWI mostrou que metade da geração Z afirma sentir nostalgia por formas de mídia do passado. O dado reforça uma tendência já observada em diferentes mercados: a busca por objetos que carregam significado emocional e se diferenciam do consumo digital dominante.

O movimento acompanha o crescimento do chamado mercado da nostalgia, que tem impulsionado desde a volta dos discos de vinil até o ressurgimento de tecnologias consideradas obsoletas.

O áudio virou rotina emocional

A volta do fio ocorre em um momento em que o áudio ocupa mais espaço no cotidiano dos jovens.

Segundo o Gen Z Audio Report, estudo realizado pela Edison Research em parceria com a SiriusXM Media, americanos de 13 a 24 anos passam, em média, 4 horas e 10 minutos por dia ouvindo música, podcasts ou outros formatos de áudio.

Na pesquisa, 86% dos entrevistados disseram consumir áudio para melhorar o humor. Outros 63% afirmaram recorrer ao conteúdo para enfrentar momentos difíceis, enquanto 61% disseram que ele contribui para a saúde mental.

Os números ajudam a explicar por que o fone de ouvido deixou de ser apenas um acessório tecnológico. Para muitos jovens, ele se tornou uma espécie de fronteira portátil entre o ambiente externo e o espaço pessoal.

O fenômeno também está ligado à chamada economia da atenção, em que plataformas digitais disputam cada minuto disponível dos usuários.

A necessidade de criar essa barreira cresce à medida que aumenta o tempo gasto online. Segundo o Pew Research Center, quase metade dos adolescentes americanos afirma estar conectada à internet quase constantemente.

O dado reforça preocupações sobre o impacto das redes sociais na saúde mental e no bem-estar dos mais jovens.

O anti-gadget

O momento é particularmente curioso porque acontece justamente quando os fabricantes tentam transformar fones de ouvido em plataformas de tecnologia.

Apple, Google e Samsung investem em recursos como inteligência artificial, tradução em tempo real, monitoramento de saúde e integração com assistentes digitais.

A estratégia ficou evidente nos novos AirPods, que incorporam sensores biométricos e recursos baseados em IA.

Os fones sem fio deixaram de ser apenas dispositivos de áudio para se tornar extensões do smartphone e da crescente corrida por aplicações de inteligência artificial.

O sucesso dos modelos com fio aponta na direção oposta.

Eles não oferecem sensores, comandos por voz ou baterias inteligentes. Não coletam dados. Não precisam de atualizações de software.

Em um mercado obcecado por inovação, a proposta parece quase anacrônica.

Talvez seja justamente esse o apelo.

O fio voltou a aparecer nos vagões do metrô, nas salas de aula e nas redes sociais porque representa algo raro na economia digital: uma tecnologia que continua fazendo exatamente a mesma coisa que fazia há duas décadas.

Para uma geração acostumada a mudanças constantes, isso pode ser mais moderno do que parece.

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