Abappur: a marca que revolucionou o couro — e quer vestir Fernanda Torres
O trabalho em couro na moda é quase atemporal: a pele, em especial a de origem animal, foi uma dos primeiros usados pelos humanos, na época pré-histórica onde a moda ainda não era uma realidade. Nos dias atuais, ele é o ponto de partida do que há de mais luxuoso na moda. E foi o material que as irmãs Samara e Raíza Lara Marques escolheram na hora de criar a Abappur.
A marca, que nasceu oficialmente em novembro de 2021, trabalha o couro de maneira inédita. Feita com a técnica cuir bouilli, as duas designers moldam diferentes dobras, cortes e desenhos no material e criam diversos tipos de corsets. E são pioneiras no Brasil para modelagem de luxo com o uso dessa técnica. Já vestiram de Juliana Paes e Marina Senna a Malu Borges.
"O cuir bouilli é uma técnica muito antiga, que era usada para fazer armaduras na época medieval. Ela consiste em você pegar o couro, normalmente o atanado, que tem um um curtimento natural, e aí você ferve, estica ele em volta do corpo do manequim e modela", explica Samara. "Outros detalhes nesse meio fomos aprendendo para chegar ao resultado que temos hoje, mas é algo muito delicado, demorado e exclusivo".
Corset em couro da Abappur, feito à mão com aviamentos banhados em ouro (Abappur/ Divulgação)
Feitas à mão, cada peça de couro que a Abappur produz é única. Nenhuma fica exatamente igual à outra. Cada corset demora no mínimo de 20 dias para ficar pronto e custa, em média, R$ 5.500. O couro utilizado é apenas de curtumes e vem de revendedores certificados. A marca também vende acessórios como cintos metálicos, capas de isqueiros, brincos, colares, bolsas e calças de tecido.
"Priorizamos materiais de qualidade, banhamos a ouro nossos aviamentos, escolhemos tecidos sempre que tenham misturas de fibras naturais ou sejam totalmente de fibras naturais. As peças tem uma duração quase vitalícia, são feitas para que as nossas clientes tenham esse produto por muito tempo. Vira um bem", conta Raíza.
Abappur - Samara Lara e Raíza Lara, fundadoras da marca de moda em couro AbappurFoto: Leandro Fonseca (Leandro Fonseca /Exame)
Do TCC para o centro da moda brasileira
A ideia da Abappur nasceu de um trabalho de conclusão de curso. Anos após debruçarem sobre o potencial do couro na faculdade, Samara e Raíza decidiram que era hora de transformar o conceito em um produto mercadológico real. O ponto de virada foi o encontro com o artista plástico Anderson Borba, que as ensinou a manipular o material de forma escultural.
"Ficamos um tempo no mercado, mas sempre com esse 'bichinho' da criação. Em 2021, decidimos sair de onde estávamos para investir de fato na marca", conta Samara. Foram dois anos de testes silenciosos no ateliê para aprimorar o método para que o couro moldado não apenas fosse bonito, mas confortável e resistente ao suor e à umidade — um dos grandes diferenciais técnicos da etiqueta.
No início, a produção ficava restrita à casa dos pais das duas designers e as vendas eram mais frequentes no e-commerce. No ano passado, no entanto, já consolidadas no mercado e em plena ascensão, elas uniram forças para abrir o primeiro ateliê no Tatuapé. São três andares: o térreo conta com a loja e um espaço dedicado para encomendas exclusivas; o primeiro andar é o espaço que elas utilizam para produzir as peças; e o segundo funciona como depósito.
O site segue como um cartão de entradas e vendas, claro. Mas seguindo a linha da experiência de luxo, o ateliê monta um espaço para experimentar a modelagem e realizar eventuais ajustes, caso assim seja necessário. "A gente sempre mantém um contato no pós-venda com os clientes. É uma peça que dura muito, mas se algo acontecer, o ateliê está aberto para ajustar e repensar", acrescenta Raíza.
Abappur - Samara Lara e Raíza Lara, fundadoras da marca de moda em couro Abappur | Foto: Leandro Fonseca (Leandro Fonseca /Exame)
Luxo para todos os gostos (e tamanhos)
Apesar da aparência rígida do couro, engana-se quem pensa que as peças da Abappur são desconfortáveis ou restritas a um único tipo de corpo. Um dos pilares das irmãs Marques é a democratização da modelagem de luxo. Através do sistema de amarração dos corsets, elas conseguem adaptar as peças a diferentes biotipos, respeitando as curvas reais de cada cliente.
"Nós, enquanto mulheres gordas, sabemos quais são as principais inseguranças na hora de vestir uma roupa. Nossa modelagem tenta abraçar corpos diferentes dentro da grade. Se você tem um busto 42 e costas 48, o corset de amarração permite esse ajuste perfeito", explica Samara. "Além de tudo, é confortável. Ele se molda no corpo sem incomodar, é maleável para isso."
A abertura do ateliê físico, conta Raíza, também foi crucial para quebrar esse "preconceito" de que o couro seria desconfortável ou apenas restrito a corpos magros: "Muitas clientes chegam achando que o produto não é para elas, mas quando provam, percebem que ele encaixa e sustenta".
Essa diversidade de tamanhos e de ideias também abraça um mercado mais complexo: o das noivas. O que começou como uma dúvida das irmãs ("quem vai querer casar de couro?") transformou-se em um projeto especial muito requisitado.
"A primeira noiva nos surpreendeu ao pedir o topo de couro com os 'rostinhos' emblemáticos da marca. De uma, veio a segunda, a terceira... Hoje, as noivas já fazem parte do nosso DNA", revela Raíza. O serviço funciona sob encomenda, já que as peças são criadas do zero e misturam a força do couro com a delicadeza do momento. O resultado é um visual inovador para o altar.
Onde a Abappur quer chegar (e quem quer vestir)
Se o processo de fabricação foi lento e artesanal, a repercussão da marca seguiu o caminho oposto. O grande "estouro da bolha" veio através de Juliana Paes. A atriz recebeu uma peça para uma pauta específica, mas a conexão foi tão imediata que ela decidiu usá-la em uma ocasião ainda mais especial.
"Ela mandou um áudio dizendo o quanto a peça era linda. Isso trouxe um reconhecimento de público muito grande para nós", recordam as irmãs.
Além das celebridades nacionais, a Abappur chamou a atenção da crítica estrangeira. De forma orgânica, a marca foi destaque na revista internacional Outlander. "Eles simplesmente olharam, gostaram e postaram. Ver esse reconhecimento técnico fora do Brasil, sem ter pago por uma matéria, foi uma validação enorme do nosso trabalho artesanal", complementa Samara.
Reconhecimento conquistado, o foco agora é expandir o alcance da marca dentro e fora do Brasil. Com peças numeradas e uma produção que foge do cronograma frenético da fast fashion, as irmãs não planejam transformar a marca em uma gigante de escala industrial. O objetivo é manter o frescor de um ateliê de alta costura, onde o cliente sabe exatamente quem fez sua peça. Mas um desfile em uma Semana de Moda de Paris cairia bem.
"A gente tem esse sonho de chegar a uma semana de moda como a de Paris ou Milão. Mas por agora queremos vestir mais pessoas relevantes e que achamos que tem match com a marca. Tentamos entrar em contato com a Rosália quando ela veio ao Brasil, e amamos a Lady Gaga. Mas temos um desejo especial por mulheres que admiramos profundamente, como a Fernanda Montenegro e a Fernanda Torres. Queremos vestir pessoas cujo trabalho seja válido e inspirador", finaliza Samara.
Ao todo, a Abappur já produziu quase 100 peças. Entre elas três vestidos de noiva, um deles exportado para uma clinte dos Estados Unidos que encontrou a marca pelo Instagram. A expetativa agora é ampliar o alcance e colocar as coleções para jogo nas principais semanas de moda espalhadas pelo mundo.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: