Academias cariocas apostam em exclusividade e experiência para além do exercício
O mercado fitness no Brasil nunca esteve tão aquecido. São 59.891 empresas ativas no segmento hoje, ante 21.541 em 2014, de acordo com dados do Conselho Federal de Educação Física (Confef). Ao todo, esses estabelecimentos movimentam cerca de R$ 12 bilhões por ano.
A alta não é por acaso: dados do Datafolha de 2025 indicam que cerca de 53% dos brasileiros se exercitam com regularidade, um dos maiores percentuais recentes. É uma boa notícia para a saúde pública, mas coloca pressão sobre a infraestrutura: mais gente treinando significa equipamento disputado, personal trainer dividido entre vários alunos e uma experiência que pode não ser tão agradável para quem precisa de mais conforto ou supervisão.
Existe, porém, um modelo que vai na contramão das academias lotadas. Em vez de abrir as portas para o maior número possível de matrículas, esses estabelecimentos limitam o número de alunos, trabalham com hora marcada e oferecem uma estrutura que vai além da musculação — uma experiência completa, que inclui desde a recuperação até estações para a criação de conteúdo. Duas redes desse segmento fazem sucesso no Rio de Janeiro.
Rafael Silva chocou a família quando decidiu abandonar o curso de Direito e interromper uma linhagem inteira de advogados. Ele se sentia infeliz e, movido pela necessidade de encontrar um propósito, concentrou-se em algo que ele já sabia que o fazia bem: a atividade física.
Animado com as novas possibilidades, inscreveu-se numa competição de fisiculturismo. Ficou tão imerso no mundo fitness que decidiu mudar de curso e ingressou em Nutrição. Na época, em 2019, uniu as duas novas paixões para criar conteúdos sobre dicas de treino e dieta no Instagram, e logo conquistou o público da Barra da Tijuca — onde o estilo de vida saudável já era bem consolidado.
Com a chegada da pandemia, em 2020, ele transformou a presença digital em negócio. Criou a Silva Team, consultoria online para alunos de diferentes regiões do Brasil e do exterior. O ambiente virtual foi importante para Rafael consolidar a marca, mas também revelou a necessidade de ter um espaço físico alinhado ao conceito que defendia.
O passo seguinte, então, foi abrir a própria academia. Ao lado de dois amigos de infância, ele inaugurou a primeira unidade da Silva Gym em janeiro de 2023, na Barra da Tijuca. O estabelecimento surgiu com uma proposta pouco comum no setor: número limitado de alunos, hora marcada para treinar e acompanhamento no modelo 3x1 — um preparador físico para cada três clientes.
"Essa experiência personalizada foi inspirada no senso de comunidade criado pelo crossfit, e acredito que o modelo não só diferencia a academia, mas também a aproxima de uma nova geração de frequentadores", explica Rafael.
Os três venderam bens e contaram com o apoio familiar para fazer o negócio dar certo, mas o retorno foi rápido. Em dois meses, a academia atingiu a capacidade máxima e formou fila de espera com mais de 400 pessoas.
A expansão veio no mesmo ano. A segunda unidade, na rua Olegário Maciel, teve um investimento de R$ 2,3 milhões. Hoje, a Silva Gym soma sete unidades no Rio de Janeiro, uma em São Paulo e prepara a abertura em Balneário Camboriú, prevista para janeiro de 2026. A expectativa, segundo o empresário, é encerrar o ano com faturamento de R$ 50 milhões.
The Symple Gym
Enquanto a Silva Gym crescia na Barra, os irmãos Gustavo e Gabriel Rodrigues abriam, em 2024, a primeira unidade da The Simple Gym em Botafogo. A premissa também parte do exercício físico como um estilo de vida, e não uma parte pequena da rotina. "No Brasil, a gente via muito o gatilho estético, mas lá fora as academias se voltam ao exercício físico, ao cuidado com a saúde mental e à vida em comunidade", diz Gabriel.
A academia combina musculação, pilates e treinos de alta intensidade com estética minimalista, lounges, saunas e banheiras de gelo, com mensalidades entre R$ 167 e R$ 567. Dentro do espaço, funciona também a Academia Foguete, plataforma de aulas ao vivo de Ricardo Lapa, presente em 70 países com cerca de 50 mil alunos ativos.
"As grandes redes, arrisco a dizer, ganham muito mais na ineficiência, ao matricular muito mais pessoas do que a academia suporta, sabendo que muitos acabam não frequentando. A gente não quer isso, queremos que o aluno venha para cá e fique aqui dentro, faça reuniões, lanche, faça um recovery, escute uma música, faça amizades e networking aqui dentro", diz Ricardo Lapa, sócio da academia e fundador da Academia Foguete.
A estratégia de conteúdo também é parte do produto. Tripés ficam disponíveis no espaço para que os alunos filmem os próprios treinos — a influenciadora Manuela Cit, com 1,6 milhão de seguidores no Instagram, foi convidada a integrar a sociedade justamente por traduzir esse universo para as redes.
Com três unidades abertas e mais duas assinadas, a The Simple Gym projeta terminar 2026 com 10 unidades, uma delas em São Paulo, e chegar a 100 pontos espalhados pelo Brasil nos próximos cinco anos.
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