Ações da Azul disparam mais de 30% após saída do Chapter 11
As ações da Azul (AZUL53) operam em forte alta nesta segunda-feira, 23, após a conclusão de sua saída do processo de recuperação judicial nos Estados Unidos, conhecido como Chapter 11. Os papéis da companhia aérea chegaram a subir mais de 30% na primeira hora de negociação e, às 11h45, mantinham o avanço embora em patamar menor, com ganhos de mais de 16%, cotados a R$ 277,86.
O anúncio da saída do Chapter 11 foi feito na sexta, 20, após o fechamento do mercado, e marca o fim de uma reestruturação financeira que durou menos de nove meses. Foi o menor tempo dentre as aéreas brasileiras que passaram pelo mesmo processo.
A saída da Latam demorou quase dois anos e meio (entre julho de 2020 e novembro de 2022). A da Gol, pouco mais de um ano (de janeiro de 2024 a junho de 2025).
No caso da Azul, a saída mais rápida é explicada por condições acertadas logo na entrada do Chapter 11 para levantar recursos.
A companhia garantiu um DIP Financing (empréstimos concedidos a empresas em RJ) da ordem de US$ 1,6 bilhão com os credores e, em paralelo, fez um outro combinado: a United Airlines, que ja tinha participação na empresa, aumentaria sua posição acionária; a American Airlines, ganharia uma fatia da empresa.
Diante do fim do processo, a empresa disse iniciar agora uma "nova fase com menor alavancagem, reforço de caixa e redução relevante de passivos".
Nesta segunda, o CEO John Rodgerson disse à imprensa que a Azul vai focar em rentabilidade no redesenho da sua malha. "Nós somos maiores hoje do que nós éramos em 2025", afirmou. Ao mesmo tempo, deixou claro que a volta a algumas praças será avaliada com cautela: "Nós sempre vamos buscar mercados onde nós temos mais rentabilidade".
A companhia aérea também descartou nova conversa sobre uma fusão com a Gol.
Ações da Azul despencaram 80% em pouco mais de um mês
Em meio ao processo de recuperação judicial, porém, a Azul viu seu valor de mercado evaporar. As ações da companhia acumulam queda próxima de 80,6% em 2026 e vivem dias de extrema volatilidade na B3.
Na quinta-feira, 19, os papéis despencaram 36,3% depois de caírem quase 50% na abertura e tiveram negociações interrompidas para leilão. No dia seguinte as ações subiram 60%, mas sem força suficiente para alterar o cenário de forte desvalorização neste início de ano.
No dia da forte queda nesta semana, a Azul informou ao mercado a conclusão de uma oferta que levantou R$ 4,98 bilhões e aprovou um aumento de capital que elevou o capital social de R$ 16,77 bilhões para cerca de R$ 21,8 bilhões — uma alta de aproximadamente 30%.
Como o reforço ocorreu por meio da emissão de novas ações, o número de papéis em circulação cresceu na mesma proporção, pressionando o preço unitário.
Em janeiro, a empresa já havia realizado um aumento de capital de R$ 7,44 bilhões, com a emissão de 1 trilhão de novas ações. Na ocasião, a queda chegou a 85%, refletindo a diluição massiva dos investidores.
Para Enrico Cozzolino, CEO e estrategista da Zermatt Partners, a queda recente reflete tanto fatores técnicos quanto estruturais.
Em meio ao processo de reestruturação via Chapter 11 que envolve diluição significativa dos acionistas atuais, foram aprovados bônus de subscrição para a American Airlines que podem se converter em até 4,86 trilhões de ações ordinárias, além de bônus para credores quirografários que podem resultar em até 1,23 trilhão de ações.
"Ao sair do Chapter 11, a United Airlines e a American Airlines podem se tornar os dois maiores acionistas da Azul, cada uma detendo aproximadamente 8,5% das ações, o que representa uma diluição substancial para os acionistas existentes", afirmou Cozzolino.
Recuperação judicial no centro da reprecificação
O avanço do plano é visto como positivo do ponto de vista financeiro. A Azul confirmou ainda aditivos em acordos com American Airlines e United Airlines para uma injeção de US$ 200 milhões, sendo US$ 100 milhões de cada companhia.
No caso da United, o aporte ocorre via oferta pública de ações; já a American investirá por meio de bônus (warrants), condicionados à aprovação de autoridades concorrenciais brasileiras, como o Cade.
Ainda assim, o mercado segue cauteloso. "O investidor minoritário teme uma perda do percentual relevante. Às vezes, ele está muito posicionado na ação e aí já ocorreu os mecanismos de oferta, bônus, agrupamentos, que podem ampliar a diluição maior ainda desse investidor", disse Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos.
Já os investidores institucionais monitoram o risco operacional e a capacidade de execução da reorganização. Mesmo em um cenário de sucesso do Chapter 11, a participação tende a ser fortemente diluída. Em um quadro mais adverso, há possibilidade de novas emissões e perda quase total do capital investido, segundo o analista.
"O aporte da American Airlines, ele melhora a probabilidade de sucesso no plano, o Chapter 11, mas não esgota o risco operacional e de mercado", afirma Trotta.
O que esperar das ações da Azul?
O analista avalia que o o futuro do acionista da Azul pode ser dividido em três cenários. "No cenário mais provável, a companhia sai do Chapter 11 com o capital fortemente diluído", afirma. Nesse caso, a participação e o valor residual dos atuais investidores seriam significativamente reduzidos, além de permanecer o risco de novas ofertas com desconto.
"Em um cenário intermediário, se houver recuperação operacional, com corte de custos, otimização de malha e melhora do setor, o valor residual para o acionista, mesmo diluído, pode recuperar parte do capital ao longo dos anos", diz. Ainda assim, ele ressalta que isso exigiria disciplina operacional em um ambiente ainda adverso para aéreas.
Já no quadro mais negativo, o risco é de novas diluições e reestruturações que reduzam ainda mais o patrimônio do acionista. "No caso extremo, pode haver perda quase total do capital e participação apenas simbólica para minoritários", afirma.
Na mesma linha, Enrico Cozzolino avalia que "existe risco substancial de diluição adicional ou perda quase total de capital". O estrategista também chama atenção para riscos contábeis e operacionais.
"Podem ocorrer baixas de goodwill, ativos intangíveis ou outros ativos de longo prazo, com impacto nos resultados", diz. Ele acrescenta que companhia está totalmente exposta à volatilidade do combustível de aviação, pois não possui contratos de hedge, e às oscilações cambiais, já que também não conta com proteção contra variações de moeda.
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