Ações de montadoras europeias caem após tarifas de Trump

Por Rebecca Crepaldi 4 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ações de montadoras europeias caem após tarifas de Trump

As ações de grandes fabricantes de carros da União Europeia (UE) registram queda na manhã desta segunda-feira, 4, após Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, anunciar, no dia 1º de maio, tarifas de 25% sobre importações de seus produtos para os EUA. As taxas passam a valer já nesta semana.

Às 11h30, Volkswagen recuava 2,13%, Porsche caía 2,28%, enquanto BMW perdia 2,39%, Grupo Renault desvalorizava 1,35%, Volvo recuava 0,60% e Mercedes-Benz caía 2,75%. Já Stellantis, dona das marcas Fiat e Peugeot, subia, a 1,33%, junto com Ferrari que virou para alta a 0,32%.

Segundo Leandro Martins, analista técnico em renda variável no Inter, já é possível ver pressão nos papéis à medida que a questão ganha tração.

“No curto prazo, o efeito mais imediato é negativo para as ações, justamente pela revisão de expectativas de lucro. Empresas com maior exposição ao mercado americano, especialmente no segmento premium, tendem a sofrer mais”, diz.

As tarifas de 25% para carros e caminhões da UE tendem a impactar diretamente a competitividade das montadoras europeias no mercado americano, que é um dos mais relevantes em termos de margem e volume.

Para contornar a situação, as fabricantes possuem duas opções que, na visão Será o J. R. Caporal, CEO da Auto Avaliar, plataforma de tecnologia e gestão de negócios para o varejo automotivo brasileiro, são ruins para os negócios.

“A primeira é repassar o custo, o que deve aumentar o preço dos veículos nos EUA em 25%. Isso destrói a demanda, afasta os consumidores e faz com que percam participação de mercado (market share) para as montadoras americanas ou asiáticas com produção local.”

Ele continua: “A segunda é manter os preços competitivos e pagar a tarifa tirando dinheiro do próprio bolso, mas isso vai corroer as margens de lucro”, afirma. Ainda existe uma terceira opção, empresas da União Europeia realocarem sua produção para produzirem os veículos nos EUA, o que leva tempo e exige investimento.

Quem fabrica nos Estados Unidos, sai em vantagem

Algumas delas já têm fábricas em solo americano, é o caso da Stellantis, que sobe hoje. Enquanto outras, como Porsche, recuam porque não têm fábricas nos EUA para proteger sua produção. Todo carro vendido nos EUA cruza o oceano, com isso, a tarifa atinge toda a operação.

“Stellantis é uma empresa europeia, mas cujo verdadeiro motor de lucros é a antiga Chrysler (Jeep, Ram, Dodge). A esmagadora maioria do dinheiro que a Stellantis ganha nos EUA vem de picapes e SUVs fabricados na América do Norte”, comenta Caporal.

No caso de BMW, Mercedes e VW elas caem, porque embora tenham fábricas nos EUA, elas ainda importam da Alemanha seus modelos de maior lucro como a Classe S da Mercedes, a Série 7 da BMW, e as versões de alta performance AMG e linha M. "Além disso, elas importam muitas peças europeias para alimentar as fábricas americanas”, explica Caporal.

Na Renault as ações desvalorizam por contágio, com medo de que BMW e Mercedes inundem o mercado europeu com carros e que, com isso, esmague os preços e as margens da Renault na própria Europa.

Se as rivais europeias (como VW ou Mercedes) ficarem 25% mais caras, a Stellantis ganha uma vantagem competitiva enorme e pode roubar market share dentro dos EUA, destaca Caporal. “Para o mercado, uma tarifa contra a Europa na verdade protege o principal mercado da Stellantis.”

“Já a Volvo que possui matriz na Suécia fez grandes investimentos em sua fábrica em Ridgeville, na Carolina do Sul. Com as crescentes tensões comerciais com a China e a Europa, a Volvo acelerou a localização da sua produção (especialmente de SUVs importantes e elétricos) para dentro dos EUA”, pontua.

Importações para os EUA podem recuar

Para os especialistas, a imposição das tarifas tende a diminuir as importações para os Estados Unidos. “Veremos uma mudança forçada nas cadeias de suprimentos, com a importação direta despencando em favor de veículos já fabricados no Canadá, México (dependendo dos acordos em vigor) e nos próprios EUA”, comenta Caporal,

Incentivo à produção local nos Estados Unidos e ganho de espaço por concorrentes domésticos também pode ocorrer. Em relação às margens, Caporal e Martins ressaltam que é “inevitável” elas ficarem pressionadas no curto prazo, já que, para as montadoras globais, os Estados Unidos são o mercado mais rentável — sobretudo para marcas de luxo europeias como Porsche, Audi e Mercedes.

TACO Trade

O chamado “TACO Trade” (Trump Always Chickens Out), em tradução livre “Trump sempre amarela”, reflete um padrão já observado pelo mercado: Trump adota uma postura mais agressiva nas negociações, mas frequentemente suaviza ou recua parcialmente após reação dos mercados ou pressões políticas, explica Martins.

“Esse cenário é possívcel novamente. O histórico mostra que medidas mais duras muitas vezes são usadas como ferramenta de barganha. Se houver impacto relevante nos mercados ou pressão de setores estratégicos da economia americana, existe sim a possibilidade de flexibilização ou revisão dessas tarifas”, aponta.

Já Caporal destaca que o risco não é apenas teórico — já aparece no comportamento recente das ações do setor. Mas concorda que, ainda assim, parte do mercado vê esse movimento menos como um colapso estrutural e mais como uma possível oportunidade de entrada, dentro da lógica do “TACO Trade”.

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