Adeus efeito Ozempic? Novo Nordisk perde US$ 330 bilhões e ações derretem

Por Tamires Vitorio 5 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Adeus efeito Ozempic? Novo Nordisk perde US$ 330 bilhões e ações derretem

As ações da Novo Nordisk emagreceram. A fabricante do Ozempic e do Wegovy, medicamentos usados para tratamento de diabetes e obesidade, derreteram no mercado após divulgar, na terça-feira, 3, uma prévia de seu guidance para 2026.

A empresa projetou que o crescimento ajustado de vendas e do lucro operacional deve variar entre uma queda de 5% e 13%, a taxas constantes de câmbio. O intervalo ficou muito abaixo do consenso de analistas, que esperavam retração próxima de 3,5%, e levou as ações a caírem cerca de 14% a 18% nos principais mercados.

Com o movimento, a Novo Nordisk perdeu cerca de US$ 35 bilhões a US$ 40 bilhões em valor de mercado em um único dia. Os papéis chegaram a cair 19%, o que apagou ganhos recentes e devolveu parte da valorização acumulada durante o auge da popularidade dos medicamentos GLP-1.

Entre 2023 e 2024, a Novo Nordisk chegou a valer mais de US$ 550 bilhões, tornando-se a empresa mais valiosa da Europa. A fabricante dinamarquesa do Ozempic chegou a superar, em determinado momento, o próprio Produto Interno Bruto (PIB) anual da Dinamarca, que foi de US$ 392 bilhões em 2024. Esse patamar foi impulsionado pelo avanço do Ozempic e do Wegovy, que transformaram a companhia no principal símbolo dos medicamentos para emagrecer.

Agora, após a divulgação do guidance para 2026, o valor de mercado recuou para a faixa de US$ 223 bilhões a US$ 225 bilhões, abaixo até mesmo da era pré-Ozempic. A queda foi de mais de US$ 330 bilhões em relação ao pico. Em 2022, a empresa era avaliada em cerca de US$ 306 bilhões.

O que causou a queda

Segundo a companhia, o principal motivo para a projeção negativa foi o seu maior mercado, os Estados Unidos. Isso porque, por lá, foi aprovada uma medida chamada de Most Favoured Nations (MFN), que forçou a Novo Nordisk a vender seus medicamentos nos EUA pelo preço mais baixo que oferece em qualquer outro país desenvolvido.

O movimento foi agravado por mudanças no ambiente regulatório do país. A redução da cobertura do Medicaid (programa de saúde do governo americano que fornece cobertura gratuita ou de baixo custo para pessoas de baixa renda) para tratamentos contra obesidade limitou o volume de prescrições, o que, de acordo com a empresa, reduziu seu crescimento justamente em um dos canais mais sensíveis a preço.

Ao mesmo tempo, ajustes contábeis e comerciais que ajudaram a inflar os resultados em 2025 deixaram de existir. Entre eles, condições temporariamente mais favoráveis nos descontos concedidos a seguradoras nos Estados Unidos e a reversão pontual de provisões ligadas ao programa 340B (que prevê que farmacêuticas vendam medicamentos com descontos elevados para hospitais e clínicas que atendem populações de baixa renda). Esses efeitos, segundo a Novo Nordisk, elevaram o resultado no ano passado, mas não devem se repetir em 2026.

O cenário competitivo também pesa, de acordo com a companhia. A disseminação de versões manipuladas, comercializadas a valores mais baixos, ampliou a pressão sobre os produtos de marca e reduziu o alcance dos medicamentos da empresa.

O cenário competitivo também pesa, segundo a companhia. Além da disseminação de versões manipuladas vendidas a preços mais baixos, a Novo Nordisk enfrenta o avanço de medicamentos rivais, sobretudo da Eli Lilly, que vêm ganhando participação de mercado, além da expiração de patentes do semaglutida em alguns mercados internacionais, o que amplia a concorrência e pressiona preços.

A Novo Nordisk também informou que o Wegovy em comprimido (lançado em janeiro nos EUA) alcançou cerca de 50 mil prescrições semanais ao fim do mês, com maior concentração no canal de pagamento direto. Mesmo com o início acima do esperado, a empresa afirmou que o desempenho já foi incorporado às projeções para 2026 e não compensou as pressões estruturais.

Pressão da concorrência

Enquanto a Novo Nordisk projeta retração, a Eli Lilly avança.

A farmacêutica americana assumiu a liderança do mercado de medicamentos GLP-1 injetáveis em 2025, alcançando 53% de participação no primeiro trimestre e 57% no segundo, segundo dados de mercado divulgados nas apresentações de resultados de Eli Lilly e rastreamento de prescrições mensais nos EUA.

A virada foi impulsionada pelo desempenho de Mounjaro e Zepbound. Em 2024, os dois medicamentos somaram cerca de US$ 16,5 bilhões em vendas. Em 2025, o crescimento acelerou: apenas no terceiro trimestre, o Mounjaro registrou US$ 6,52 bilhões em receita, alta de 109% em relação ao ano anterior, enquanto o Zepbound alcançou US$ 3,59 bilhões, avanço de 184% na mesma base de comparação.

Do ponto de vista clínico, os produtos da Lilly também exibem vantagem competitiva. O tirzepatida, princípio ativo de Mounjaro e Zepbound, combina os receptores GLP-1 e GIP e demonstrou cerca de 20% de perda de peso nos estudos em dose máxima — aproximadamente 47% mais eficácia relativa do que o Wegovy, da Novo Nordisk, em testes comparativos.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: