Adidas processa site de vazamentos de tênis por suposta extorsão

Por Marina Semensato 26 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Adidas processa site de vazamentos de tênis por suposta extorsão

A Adidas entrou com uma ação judicial contra a plataforma de notícias e vazamentos de tênis — chamados no mundo do streetwear de leaks — Sole Retriever. A gigante alemã acusa a empresa de roubo de informações confidenciais e tentativa de extorsão.

O caso, protocolado em 12 de março, coloca em disputa os limites entre prática jornalística e uso indevido de dados corporativos. As informações são do jornalista Mike Sykes, do Business of Fashion.

Segundo a Adidas, a Sole Retriever teve acesso a imagens e detalhes de modelos ainda não lançados — como os tênis de basquete AE 3 e DON Issue 8 — e teria exigido benefícios, como acesso antecipado a produtos e eventos, para não divulgar o material.

A empresa pede indenização de US$ 75 mil, além de eventuais lucros obtidos com as publicações.

A Sole Retriever, por sua vez, nega as acusações. Em comunicado, afirma que atua como veículo de mídia e que tem o direito de divulgar informações recebidas, com base nas proteções legais à imprensa (veja a íntegra mais abaixo).

A plataforma, no caso, se descreve como um ponto de encontro para fãs de tênis, com foco em sorteios, lançamentos e notícias do setor. No Instagram, soma cerca de 174 mil seguidores.

O processo

Segundo informações do portal SGB Online, o processo foi aberto no Tribunal Federal do Oregon e também cita o fundador da empresa, Harris Monoson, além de cinco indivíduos não identificados, que, segundo a Adidas, podem ter ligação com sua operação na América do Norte, em Portland.

Na ação, a Adidas afirma que a Sole Retriever conspirou para obter "designs confidenciais e próprios" de modelos ainda não lançados, incluindo tênis assinados pelos jogadores Anthony Edwards e Donovan Mitchell, que têm contratos de exclusividade com a marca.

Segundo a empresa, após obter o material, a Sole Retriever teria tentado negociar benefícios em troca de não divulgar as imagens.

A Adidas afirma que, diante da recusa, a plataforma publicou os conteúdos e utilizou os vazamentos para promover seu serviço e direcionar tráfego para seu site e plataforma de assinatura.

Entre as evidências citadas está um e-mail enviado por Monoson a funcionários da Adidas em 31 de agosto de 2025. Na mensagem, ele afirma que aquela seria sua "última tentativa" de fazer a empresa cumprir um acordo e indica que poderia publicar os materiais caso não fosse atendido.

Dois dias depois, em 2 de setembro, a Sole Retriever publicou nas redes sociais uma "montagem especulativa" da colorway "Bred" do modelo AE2. A Adidas afirma que a imagem tinha como base um arquivo confidencial obtido de forma indevida.

Na sequência, em 11 de setembro, novos vazamentos trouxeram as colorways "Lucid Red" e "Blue Fusion", além de protótipos em CAD das linhas Anthony Edwards 3 e DON Issue 8, previstas para lançamento em janeiro de 2026.

O que está em jogo

Segundo Sykes, o processo levanta o debate sobre até que ponto a divulgação de vazamentos é atividade jornalística e em que momento passa a ser considerada violação de propriedade intelectual.

"Esta é uma batalha retórica. De um lado, fala-se em roubo e extorsão. Do outro, em liberdade de imprensa", disse Susan Scafidi, professora de direito da moda na Universidade Fordham e fundadora do Fashion Law Institute, ao BoF.

"A questão legal reside, de fato, em algum ponto intermediário: apropriação indevida de segredos comerciais e violação de direitos autorais", completa.

Para a especialista, muito do desfecho depende de como a Sole Retriever obteve a informação. "Se alguém na Adidas teve acesso a essa informação e simplesmente a publicou em um site bacana porque queria compartilhá-la com o mundo, é totalmente possível que a Sole Retriever não tivesse como saber que a empresa não queria que essa informação fosse divulgada", disse Scafidi.

"Portanto, a questão passa a ser uma investigação sobre a relação entre a Sole Retriever e seu diretor, e com quem quer que ele estivesse conversando na Adidas".

Como é o sistema de "leaks"

O ecossistema de “leaks” faz parte da indústria de tênis há anos. Sites, perfis e aplicativos especializados animam os amantes de tênis com imagens, especificações e datas de lançamento antes dos anúncios oficiais, para gerar expectativa e criar demanda antes mesmo dos calçados chegarem às prateleiras.

Por um lado, esse sistema pode ajudar as marcas, que conseguem ter um termômetro do público e fazer ajustes para que a recepção seja melhor.

Por outro, esses vazamentos não planejados podem arruinar campanhas inteiras, expor produtos fora de contexto e antecipar informações estratégicas para concorrentes. É o argumento da Adidas na ação.

Dentro desse universo, a Sole Retriever reúne uma grande base de público, com centenas de milhares de seguidores nas redes sociais e operação própria via aplicativo. Outras contas do mesmo segmento chegam a milhões.

A disputa por controle

Este é o primeiro caso conhecido de uma marca de tênis processando um site de vazamentos. Independentemente do resultado, o processo pode alterar a forma como as empresas lidam com esse tipo de conteúdo.

O BoF aponta alguns desdobramentos possíveis. O primeiro deles é de endurecimento nessa relação, com as marcas reduzindo o número de pessoas com acesso antecipado a produtos, imagens e campanhas, além de reforçar contratos de confidencialidade.

Parcerias com perfis, aplicativos e veículos especializados devem passar por ajustes. Isso inclui critérios mais rígidos para convites, envio de produtos e participação em eventos — especialmente para quem trabalha com antecipação de lançamentos.

O caso também pode influenciar como o setor entende o papel dessas plataformas e delimitar quando a divulgação é tratada como atividade jornalística e quando passa a ser interpretada como uso irregular de informações confidenciais.

O segundo diz respeito à comunidade sneakerhead. As marcas mais retraídas podem reduzir o fluxo de conteúdos dos sites de vazamento e gerar reação negativa entre consumidores que usam esses canais para se informar.

Nota da Sole Retriever

"A Sole Retriever é um canal orgulhosamente independente que cobre a indústria de tênis há quase uma década. O processo movido na semana passada pela Adidas America é um ataque à liberdade de expressão de uma editora independente que reporta sobre a cultura que amamos, e estabelece um precedente perigoso para todos os veículos de mídia, criadores e jornalistas que cobrem esse setor. Negamos essas alegações integralmente e defendemos firmemente nossos direitos como plataforma de mídia e apoiamos as proteções da Primeira Emenda garantidas à imprensa. Agradecemos à comunidade sneakerhead pelo apoio contínuo e aguardamos ansiosamente uma defesa completa e vigorosa neste caso no tribunal."

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