Agentes de IA ganham espaço e desafiam a gestão nas empresas
A inteligência artificial já permite automatizar planejamento, produção de conteúdo, vendas e desenvolvimento de sistemas, mas seu uso mais eficaz depende menos de ferramentas isoladas e mais de processos claros, contexto e curadoria humana. Essa foi a linha central do painel IA e o futuro dos negócios, com Leonardo Cirino, CMO da EXAME | Saint Paul, e Miguel Lannes Fernandes, Diretor de IA da EXAME | Saint Paul, no AI Summit EXAME, realizado em 2 de junho, em São Paulo. Promovido pela EXAME em parceria com a Saint Paul, o evento discutiu aplicações de IA nos negócios e nas carreiras profissionais.
Fernandes abriu sua participação com um trecho de um documentário produzido por ele na Europa, com artistas, filósofos, engenheiros e outros interlocutores sobre como a IA afeta criação, trabalho e relações humanas. A viagem nasceu de curiosidade intelectual e uso intensivo de IA. Fernandes queria entender como pessoas fora do ambiente corporativo percebiam a tecnologia. Para isso, usou agentes para identificar eventos na Europa, localizar organizadores, enviar e-mails, fazer follow-ups e sugerir roteiro, hospedagem e transporte.
Depois das gravações, recorreu a ferramentas generativas para organizar cerca de 28 horas de material, descrever cenas, analisar transcrições, sugerir narrativa e transformar o conteúdo em cortes iniciais. “Todo o processo de pré-produção e de pós-produção foi basicamente uma colaboração minha com a IA”, disse Fernandes.
O exemplo ilustrou uma visão recorrente: a IA deve assumir tarefas operacionais, burocráticas ou repetitivas, enquanto o profissional preserva o papel de interlocutor, curador e tomador de decisão.
Escala no conteúdo
Outro eixo da apresentação foi a produção para redes sociais. Depois de vender sua empresa de IA e educação para a EXAME | Saint Paul e se tornar diretor de IA da instituição, Fernandes passou a produzir vídeos para divulgar o MBA da escola. Como não queria gravar com frequência, começou a usar IA e avatares para ampliar sua presença digital.
A partir dessa experiência, desenvolveu um fluxo de agentes para produzir carrosséis. O sistema simula uma equipe invisível formada por pesquisador, jornalistas com vieses diferentes, editores, copywriters e uma CMO artificial.
A conversa também abordou o risco de pasteurização. Quando a empresa pede apenas “um carrossel” ou “um relatório” sem dar contexto, tende a receber uma resposta comum. A diferença, enfatizada por Cirino, está em incorporar repertório, critérios, histórico, objetivos e um fluxo de trabalho próprio.
Tecnologia, marketing, vendas
Ao tratar das áreas em que a IA já mostra maior aderência nas empresas, Fernandes citou três frentes: marketing, vendas e tecnologia. “Hoje você consegue, em um dia, criar sistemas que eu demorava seis meses para fazer com uma equipe de vários programadores”, comparou.
Na tecnologia, o foco está em prototipar sistemas em menos tempo e com equipes menores. Em marketing, entre outras funções, a IA permite produzir vídeos e carrosséis em escala. Em vendas, aparecem agentes capazes de qualificar clientes, analisar conversas comerciais e gerar insights para produtos e relacionamento.
Um ponto importante foi a defesa de que a automação deve nascer de processos conhecidos. Fernandes deu como exemplo a própria ferramenta de carrosséis: primeiro, fez manualmente a sequência de prompts, avaliou resultados, repetiu o fluxo e só depois pediu à IA que transformasse aquilo em automação.
Cirino reforçou que muitas iniciativas fracassam quando a empresa tenta aplicar IA em rotinas ainda não estruturadas. “As falhas dos projetos estão muito relacionadas ao fato de que decidimos colocar IA naquilo em que ainda não temos processo”, afirmou. A partir dessa lógica, a tecnologia só ganha escala quando deixa de ser usada apenas para respostas isoladas em um chat e passa a executar etapas de um fluxo repetido pela empresa no dia a dia.
Contexto antes do prompt
A discussão também questionou a busca pelo “prompt perfeito”. O argumento central foi que o resultado melhora quando o usuário trata a IA como trataria um colaborador humano: oferecendo contexto, referências, critérios, histórico e feedback. Um comando genérico, sem orientação, tende a produzir respostas igualmente genéricas.
Fernandes reforçou essa visão ao afirmar que a tecnologia precisa ser orientada por quem entende o problema. “Você parte de um conhecimento muito profundo de causa e vai usando a inteligência artificial para dar escala à solução desse problema”, afirmou.
O painel apresentou a IA como colaboradora ou copiloto. Ela pode absorver volumes de informação, executar follow-ups, preparar contratos, montar propostas, gerar carrosséis e organizar tarefas. Ainda assim, o profissional precisa dizer o que faz sentido, corrigir desvios e decidir quando o resultado está bom.
O impacto no trabalho
Na parte final, uma pergunta da plateia levou o debate para os efeitos sociais e econômicos da IA no Brasil. A preocupação era a substituição de mão de obra por agentes, especialmente em um país com déficit educacional e grande parcela da população distante das novas competências tecnológicas.
Fernandes respondeu que a mudança deve atingir principalmente as atividades de escritório. Ao mesmo tempo, mencionou que ocupações que exigem presença física tendem a se manter ou ganhar relevância. O impacto, portanto, não seria uniforme.
A discussão também apontou para uma reacomodação de funções. O exemplo citado foi o product manager, que antes especificava um software e encaminhava o pedido para a área de tecnologia, mas agora pode desenvolver um protótipo. O tempo de execução diminui, mas a quantidade de trabalho disponível continua grande.
No encerramento, o painel tratou do papel das empresas e lideranças no letramento em IA. A adoção da tecnologia foi apresentada como um movimento já em curso, não como uma escolha que ainda será submetida a uma decisão coletiva. Diante disso, segundo Cirino, a preparação das equipes torna-se uma responsabilidade prática e também social. “Temos a obrigação de ajudar as pessoas nesse letramento”, concluiu.
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