Agro dos EUA vê piora na renda e queda na confiança dos produtores
Depois de subir 9 pontos percentuais em março, a confiança do agricultor dos Estados Unidos caiu em abril, segundo o Ag Barometer, levantamento da Universidade de Purdue em parceria com o CME Group. O motivo: a guerra no Irã e o preço dos insumos.
O índice geral recuou de 127 pontos em março para 121 pontos no mês passado, refletindo maior pessimismo no curto prazo entre os produtores. A deterioração não ficou restrita à percepção geral.
Apenas 15% dos produtores afirmaram estar em melhor situação do que no ano anterior, enquanto 28% esperam uma piora no desempenho financeiro nos próximos 12 meses — o saldo negativo indica um viés mais pessimista para a renda agrícola, uma medida ampla de lucratividade.
Mas a queda da renda agrícola dos produtores americanos não é recente. Depois de atingir um recorde em 2022, a renda líquida agrícola, caiu por três anos consecutivos, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A expectativa era de que a receita dos agricultores se recuperasse em 2025, em grande parte em função dos pagamentos de alívio de desastres do governo, destinados a compensar danos causados por furacões e outras tempestades.
No ano passado, o governo de Donald Trump liberou um pacote de US$ 12 bilhões para apoiar os produtores, valor considerado insuficiente para cobrir os custos. Com despesas elevadas e receita pressionada, as margens de lucro seguem apertadas.
A pesquisa também mostra que os custos de produção seguem como principal preocupação para quase metade dos produtores (46%). Ao mesmo tempo, cresceu o receio com a disponibilidade de insumos, movimento associado às incertezas no cenário internacional.
A guerra no Irã, um dos principais produtores globais de ureia, fertilizante utilizado na produção de milho, do qual os EUA são o principal produtor global, aparece como um fator central nesse contexto.
Entre os produtores de milho, o efeito já começa a ser precificado: a maioria projeta aumento nos custos, com 37% esperando alta superior a 10%.
Diante desse cenário, o produtor tem adotado uma postura mais defensiva. O índice de investimento em capital caiu para 44 — o menor nível desde outubro de 2024 — indicando queda na disposição para adquirir máquinas e expandir operações.
Agro dos EUA
O resultado do levantamento evidencia uma situação difícil para o agro americano, que sofre com margens comprimidas e dificuldades para exportar para a China em função da guerra tarifária iniciada por Trump em 2025.
Como reflexo, as exportações de soja dos EUA para a China caíram de 25 milhões de toneladas para 8 milhões de toneladas no ano passado, com o Brasil suprindo a demanda chinesa pela oleaginosa.
Além da soja, o milho — outra importante commodity agrícola exportada para o país asiático — perdeu espaço para o cereal russo, que dominou os embarques chineses em 2025.
O estudo da Universidade de Purdue mostra que dois terços dos entrevistados esperam que o conflito no Irã reduza a renda líquida das fazendas neste ano, principalmente pelo impacto sobre fertilizantes e energia.
Isso se soma às margens apertadas dos produtores, especialmente de soja, que viram seus retornos caírem em razão do aumento de custos. No Meio-Oeste, em estados como Illinois e Iowa, cerca de 75% dos agricultores são arrendatários. Por lá, os custos cresceram 13% nos últimos cinco anos, o que levou as margens a ficarem negativas, segundo estudo da Universidade de Purdue.
O reflexo já aparece nas fazendas. No ano passado, os pedidos de falência no agronegócio dos Estados Unidos cresceram 46% na comparação com 2024, segundo a American Farm Bureau Federation (AFBF), uma das principais entidades do setor no país.
Segundo a AFBF, os tribunais dos EUA registraram 315 solicitações de falência no período. No país, os processos são fundamentados no Capítulo 12 da legislação americana, criado exclusivamente para produtores rurais e pescadores familiares.
O cenário também parece pouco promissor no médio prazo. O USDA estima que a dívida agrícola total aumentará 5,2% neste ano, alcançando o recorde de US$ 624,7 bilhões — o que reforça a necessidade de apoio financeiro aos produtores nas condições atuais.
Além disso, uma pesquisa do Federal Reserve (Fed) mostra que os empréstimos agrícolas cresceram 40% no último trimestre de 2025.
O valor médio desses financiamentos foi 30% superior ao do ano anterior, indicando que os produtores estão recorrendo a volumes maiores de crédito para cobrir custos operacionais, segundo o banco central americano.
A piora não se limita ao curto prazo. A pesquisa mostra queda na confiança em relação ao futuro, com recuo nas expectativas sobre valorização das terras agrícolas e menor percepção de que a economia está na direção certa.
Além disso, apenas 37% dos produtores acreditam em “bons tempos” nos próximos cinco anos — uma queda significativa em relação ao ano anterior.
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