Agro europeu reforça ofensiva e critica entrada provisória do acordo UE-Mercosul
Os agricultores europeus voltaram a criticar a entrada provisória do acordo entre União Europeia e Mercosul nesta sexta-feira, 27. A decisão reacendeu a resistência de entidades do setor, que questionam tanto o mérito do tratado quanto a forma como foi conduzido.
A Federação Nacional dos Sindicatos de Agricultores (FNSEA), principal representante dos produtores franceses, classificou a medida como “uma negação inaceitável da democracia”.
“Nossos agricultores não serão sacrificados. Apelamos ao presidente Emmanuel Macron para que reaja com firmeza”, afirmou a entidade em nota.
O acordo prevê a criação de uma área de livre comércio envolvendo cerca de 720 milhões de pessoas, mas ainda não foi formalmente aprovado pelo Parlamento Europeu.
No mês passado, eurodeputados decidiram encaminhar o texto ao Tribunal de Justiça da União Europeia, o que pode suspender a ratificação definitiva por até dois anos.
Mesmo assim, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou nesta sexta que, após ampla consulta aos Estados-membros e ao Parlamento, a Comissão agiu para garantir “uma vantagem estratégica de pioneirismo em um mundo de forte concorrência e prazos curtos”. Segundo ela, “essa vantagem de pioneirismo precisa se materializar”.
O presidente francês, Emmanuel Macron — que liderou a resistência ao acordo antes de ser derrotado nas votações de janeiro — criticou a decisão e afirmou que a Comissão adotou uma medida unilateral ao implementar provisoriamente o tratado.
“Para a França, é uma surpresa, e uma surpresa desagradável. E para o Parlamento Europeu, este é o caminho errado”, disse em pronunciamento na televisão.
Os produtores europeus argumentam que o setor agrícola local pode perder competitividade diante das commodities do Mercosul, especialmente as brasileiras, consideradas mais competitivas.
Em Bruxelas, a Copa-Cogeca — principal organização de representação dos agricultores e cooperativas agrícolas da União Europeia — também protestou contra a entrada provisória do acordo.
Na Espanha, a Asociación Valenciana de Agricultores (Ava-Asaja) classificou a medida como “uma verdadeira traição institucional ao setor agrícola europeu”.
A entidade destacou como especialmente grave o fato de a decisão ocorrer poucos dias após a publicação do relatório final de auditoria sobre o Brasil.
O documento conclui que a recomendação crítica para garantir que carne bovina de animais tratados com estradiol 17β, um hormônio, não seja exportada à União Europeia “não foi satisfatoriamente atendida”.
Na mesma linha, a Irish Farmers Association (IFA), que representa produtores de carne na Irlanda, afirmou que a aplicação provisória do acordo desrespeita a decisão recente do Parlamento de encaminhar o texto ao Tribunal de Justiça da UE.
“Nós nos opomos ao Mercosul há mais de duas décadas. A questão que tínhamos com o acordo naquela época, particularmente em relação à rastreabilidade e à falta de padrões, não desapareceu", afirmou a entidade em nota.
Acordo UE-Mercosul
O acordo da União Europeia com o Mercosul deve gerar um ganho anual de até US$ 3,8 bilhões (R$ 20 bilhões) para o Brasil nas exportações para a UE, após 10 anos de implementação do tratado. A projeção é de um estudo do Insper Agro.
Segundo a pesquisa, o aumento decorre principalmente de cotas tarifárias (TRQs) para produtos agrícolas, mecanismo que impõe um limite de volume para entrada com tarifa reduzida.
Produtos como carne bovina, açúcar, etanol e arroz estão entre os mais beneficiados, mas a TRQ “limita a expansão para além do volume pré-definido”, diz o estudo.
Em 2025, a União Europeia foi o terceiro maior destino da carne bovina brasileira. No período, o bloco importou 129 mil toneladas, movimentando US$ 1,06 bilhão — um crescimento de 56,6% em volume e de 75,5% em receita.
No caso da proteína, o tratado estabelece uma cota adicional de 99 mil toneladas por ano para o Mercosul, além das 200 mil toneladas já exportadas atualmente para o bloco europeu. Do novo volume, 42,5% (ou 42.075 toneladas) caberão ao Brasil.
A implementação das cotas será gradual, ao longo de cinco anos. O volume adicional equivale a cerca de 1,2% do consumo anual de carne bovina na União Europeia, estimado em 8 milhões de toneladas.
"Os benefícios mais expressivos não virão da eliminação direta de tarifas, mas do uso estratégico das cotas comerciais estabelecidas no tratado", afirmam os autores Cinthia Cabral da Costa e Leandro Gilio.
Segundo o governo brasileiro, o tratado integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) conjunto de mais de US$ 22 trilhões.
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