Ajuda dos EUA foi essencial para Colômbia combater grupos armados, diz analista

Por Rafael Balago 30 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ajuda dos EUA foi essencial para Colômbia combater grupos armados, diz analista

Bogotá - A cooperação entre os Estados Unidos e a Colômbia para combater os grupos armados no país foi fundamental para reduzir o poder de cartéis e guerrilhas, avalia Yann Basset, analista político e professor da Universidade de Rosario.

“Desde o início deste século, é graças à cooperação norte-americana que o Exército colombiano pôde fazer grandes progressos contra os grupos armados das Farc, particularmente a nível de inteligência. Aí a cooperação norte-americana foi absolutamente essencial. E também a nível de equipamento para controlar melhor o espaço aéreo”, afirma, em entrevista à EXAME.

EUA e Colômbia tiveram acordos em segurança a partir de 2000. A iniciativa, chamada Plano Colômbia, envolveu o envio de militares norte-americanos, que atuaram principalmente no planejamento e no treinamento das ações.

Com a iniciativa, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) perderam boa parte dos territórios que controlavam. Em 2016, o grupo assinou um acordo de paz com o governo colombiano. Depois disso, a cooperação com os EUA foi reduzida.

Embora a cooperação tenha dado resultados no combate aos guerrilheiros, ela não resolveu a questão do narcotráfico e da violência urbana, que teve piora nos últimos anos. A segurança pública é o principal tema da eleição presidencial deste domingo, 31.

Basset se graduou em ciência política pela Sciences Po Bordeaux e tem doutorado pelo Iheal, na universidade Sorbonne. Veja a seguir mais trechos da entrevista, em que analisa os principais pontos da disputa eleitoral no país.

O que deverá impactar a eleição deste domingo? A segurança é, de fato, o tema principal?

Há várias pesquisas que mostram coisas distintas, mas em geral a segurança aparece sempre como um dos temas de maior preocupação, se não o principal. E obviamente é a bandeira principal dos candidatos de oposição, em particular porque têm o argumento de que essa degradação da segurança no país se deve ao fracasso do programa de Paz Total de Petro. Isso afeta diretamente Iván Cepeda como candidato, porque ele foi o cérebro e também a pessoa que colocou em marcha este programa de negociação que efetivamente não resultou em nenhuma desmobilização de nenhum grupo.

É muito difícil para ele porque toda a sua vida política foi construída sobre essa ideia de paz. Ele sempre foi um militante das negociações de paz. Então, acho que ficaria muito mal para ele mudar de posição agora diante desses fracassos. Ele disse que continuaria, mas que seria mais exigente nos critérios para poder seguir com as negociações.

Iván Cepeda, candidato governista à Presidência da Colômbia, durante evento em Bogotá (Luis Acosta/AFP)

Caso a oposição, seja com Abelardo ou com Paloma, vença as eleições, eles teriam força para fazer grandes mudanças nessa área, ou enfrentariam resistência no Congresso ou na justiça?

Essa é uma boa pergunta. Iván Duque já havia tentado, quando era presidente, rever a justiça transicional e apresentar objeções, o que o Congresso havia negado. Nessa circunstância, também haveria provavelmente alguma oposição no Congresso e nas instituições em geral para fazer grandes mudanças no acordo de paz. Esse acordo já passou por sua implantação há algum tempo e é muito difícil desmontar agora o que foi feito desde então. Acho que qualquer um dos três grandes candidatos poderia ter uma coalização funcional no Congresso, mas com limites. E no que diz respeito à direita, acho que um dos limites seria justamente se quisessem questionar o acordo de paz assinado com as Farc

Também há possibilidade de mais cooperação com os Estados Unidos nessa área?

Isso não é novidade na Colômbia. Os Estados Unidos sempre foram muito ativos, sempre foram um aliado do governo colombiano na luta contra os grupos armados e particularmente pelo tema do narcotráfico.

A relação tem sido muito tensa com Gustavo Petro, como sabemos, mas mesmo Petro conseguiu mantê-la em certos limites funcionais após sua visita a Washington. Seria preciso ver se Cepeda consegue o mesmo — ele é talvez um pouco mais rígido ideologicamente, então poderia ser mais difícil a relação com os Estados Unidos.

Pelo lado da direita, acho que o problema seria o inverso. Tanto Paloma quanto Abelardo de la Espriella estão muito alinhados com a atual administração dos Estados Unidos, com o problema eventual de que, se a tendência mudar — se, por exemplo, nas eleições de meio de mandato os democratas ganharem o Congresso e conseguirem impor limites a Trump —, isso poderia começar a ser problemático para um governo de direita na Colômbia.

A parceria de longo prazo com os Estados Unidos em segurança tem dado resultados?

Sim, tem dado resultados claros. Desde o início deste século, é graças à cooperação norte-americana que o Exército colombiano pôde fazer grandes progressos contra os grupos armados das Farc, particularmente a nível de inteligência. Aí a cooperação norte-americana foi absolutamente essencial. E também a nível de equipamento para controlar melhor o espaço aéreo.

Como vê os possíveis resultados da eleição? Abelardo estava em uma sequência de crescimento nas pesquisas. Isso pode se manter até o segundo turno?

Acho que sim. O mais provável é que tenhamos um segundo turno entre Cepeda e De la Espriella, pelo menos era o que as pesquisas pareciam indicar na última semana. Se for assim, Abelardo de la Espriella teria ainda margem para crescer com os eleitores de Paloma Valencia, que provavelmente estariam muito mais próximos dele do que de Cepeda. É o cenário que vemos. Até onde ele pode chegar e quão provável é que passe Cepeda em intenção de voto. Isso é, no final, a chave da eleição.

Como tem sido o uso de inteligência artificial na campanha presidencial?

Vemos uma grande utilização de inteligência artificial nessa campanha, particularmente pela campanha de Abelardo de la Espriella, que usa essas ferramentas para fazer vídeos de animação, com o tigre, etc.

Mas acho que, no final das contas, mais do que desinformação, se fez muito humor com isso, e não creio que tenha havido um uso tão escandaloso quanto poderíamos temer em um primeiro momento.

Obviamente a preocupação permanece, porque pode ser uma ferramenta perigosa para o debate democrático, mas no geral me parece que nessa campanha houve talvez menos desinformação do que na campanha passada, ou mesmo na de 2018, quando me parece que houve muito mais notícias falsas e informações erradas, quando essas ferramentas ainda não estavam disponíveis.

A que se deve essa redução da desinformação?

Não sei. Acho que no fundo não houve muita campanha, não se falou muito de propostas. Cada campanha se dedicou a falar para a sua base, sem sair muito disso. O fato de não ter havido debate televisivo clássico também fez com que não houvesse uma agenda de real controvérsia sobre medidas concretas, e por isso é uma campanha muito de slogans. Cada campanha no seu mundo, e talvez por isso não houve tentativas de desacreditar o outro, porque dá a impressão de que essas campanhas não se falam, nem mesmo para se contradizer.

Abelardo de la Espriella, candidato a presidente da Colômbia, em seu ralí final de campanha, em Medelín, em 24 de maio (Jaime Saldarriaga/AFP)

Também gostaria de falar sobre a situação da economia e a parte fiscal. Como vê as perspectivas da Colômbia na área econômica?

Sim. Quando Petro chegou ao poder como o primeiro governo de esquerda, havia muitos temores por parte da direita de que isso seria um desastre econômico, que haveria hiperinflação, que nos tornaríamos uma Venezuela. Nada disso aconteceu. Não houve essa gestão econômica catastrófica que se temia, mas o ponto mais crítico é que Gustavo Petro termina seu mandato com um déficit fiscal muito importante e com uma dívida que aumentou. E não quis realmente resolver o problema.

Esse problema não é do seu governo, é preciso reconhecer isso. Após a pandemia, seria necessário um ajuste que nunca veio. E Gustavo Petro não quis fazê-lo porque considerou que tinha um mandato de reformas sociais estruturais, e que abandonar essa política por uma de austeridade fiscal seria trair seus eleitores.

Então levou a cabo sua política, mas empurrou para frente o problema do déficit fiscal e da dívida. E no final será o próximo governo que terá de lidar com o problema, e muito rapidamente. Será necessário tomar medidas de ajuste que serão complicadas e que poderiam ser a ocasião dos primeiros atritos com o Congresso.

Seria possível fazer um ajuste mais forte no início do mandato?

Sim, acho que não terão escolha. No caso de Abelardo, ele disse que tentará reduzir os gastos. Disse inclusive que reduziria o gasto público em 40%, o que é absolutamente irrealista.

O orçamento do Estado na Colômbia é bastante rígido, voltado para o funcionalsmo, folha de pagamento das Forças Armadas e dos professores. Não há margem de manobra para um ajuste tão grande. Mas de qualquer forma, no caso de De la Espriella haveria uma busca por reduzir fortemente os gastos, e no caso de Cepeda, a ideia é resolver o problema combatendo a corrupção. É uma intenção louvável, mas dificilmente será suficiente para a magnitude do desafio. Provavelmente teria que buscar novos recursos fiscais, uma nova reforma fiscal, o que mais uma vez tornaria tensa a relação com o Congresso no momento em que será necessário negociar uma nova coalizão.

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