Ala contra evangélicos no desfile consolida rejeição a Lula, diz CEO do Ideia
O desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), saiu da Sapucaí para o centro do debate eleitoral. Além dos questionamentos da oposição por uma suposta propaganda eleitoral antecipada, o governo tem uma nova preocupação: os evangélicos.
A controvérsia se concentrou em uma ala que representava conservadores como integrantes de uma “família enlatada”, leitura que, nas redes sociais, foi associada a um ataque a valores religiosos.
Batizada de "neoconservadores em conserva" a ala retratou, segundo a Acadêmicos de Niterói, um grupo que vota contra a maioria das pautas defendidas por Lula.
O episódio ocorre em um momento em que Lula é pré-candidato à reeleição e enfrenta dificuldade histórica junto ao eleitorado evangélico, grupo que representa 27% da população, segundo o Censo de 2022.
Segundo pesquisa do instituto IDEIA divulgada após o desfile, a maioria dos evangélicos entrevistados classificou a ala como ofensa à liberdade religiosa ou representação preconceituosa.
Cerca de 34,3% classificaram a ala como “ofensa à liberdade religiosa” e 26,8% como “representação preconceituosa”.
Já 11% viram “crítica artística legítima” e 8,7% consideraram “sátira aceitável”; 19,2% não souberam opinar.
Para Cila Shulman, CEO do Instituto IDEIA, o impacto precisa ser lido dentro de um contexto estrutural do eleitorado.
“O Brasil é uma sociedade profundamente familista. Isso gera um conservadorismo moral difuso, que hoje se organiza politicamente sobretudo entre os evangélicos, 27% da população no Censo de 2022. Esse recorte também está concentrado no Sudeste, com 20 milhões de evangélicos, onde se forma o centro gravitacional da eleição de 2026”, afirma.
A especialista em opinião pública e política sustenta que o problema não é apenas a crítica cultural, mas a forma como identidades se convertem em fronteiras eleitorais.
"Com 72% de desaprovação ao governo entre os evangélicos, segundo levantamento Meio/Ideia de fevereiro, qualquer gesto simbólico interpretado como hostilidade tende a consolidar rejeição nesse segmento", afirma Shulman.
Um carro alegórico representando o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, da escola de samba Acadêmicos de Niterói, é visto durante a noite de abertura do Carnaval do Rio, no Sambódromo Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, Brasil, em 15 de fevereiro de 2026. (Pablo PORCIUNCULA /AFP)
Repercussão digital amplia alcance político
A pesquisa também mediu como o episódio chegou ao público. Entre os evangélicos, 45,9% souberam da ala “família em conserva” por notícias e postagens em redes sociais, enquanto 19,1% assistiram ao desfile ou a vídeos. Outros 23,9% afirmaram não ter visto nem ouvido falar. A maioria formou opinião a partir da repercussão digital, não da apresentação direta.
Parlamentares da oposição reagiram ao desfile e compartilharam vídeos e imagens do desfile. Adversários de Lula criaram fotos de suas famílias enlatadas, com auxílio de inteligência artificial, para ironizar a ala da escola de samba.
Shulman aponta que a forma como o episódio se tornou um meme político organizado pela oposição ampliou o seu alcance simbólico.
"Isso precisa ser considerado na avaliação do risco em uma eleição que tende a ser decidida voto a voto”, diz.
O levantamento ainda indica que 27,1% avaliam que o caso aumenta a polarização religiosa e política, 21,2% veem normalização de discriminação simbólica e 20,7% enxergam provocação de reflexão crítica. Para 17,5%, o episódio amplia o debate público; 13,4% dizem que não gera impacto relevante.
Há também percepção de assimetria: 35,1% afirmam que, se outro grupo religioso fosse retratado da mesma forma, a reação seria mais intensa. Para 29,3%, seria igual; 14,8% acreditam que seria menos intensa.
“O ponto central não é religioso, é estratégico”, afirma Shulman. “Quem transforma identidade em antagonismo estreita sua própria coalizão e amplia a do adversário.”
Em um cenário no qual a eleição de 2026 tende a ser competitiva e concentrada no Sudeste, a leitura de Shulman aponta que o episódio reforça uma barreira já existente entre Lula e um dos segmentos que mais crescem no eleitorado brasileiro.
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