Além das blusinhas: como a alíquota zero de importação afeta o Mercado Livre
O fim da "taxa das blusinhas" deixa em maior evidência os possíveis impactos no varejo de moda brasileiro. Mas o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) alerta, em relatório, que o impacto da revogação da alíquota vai muito além do vestuário. Segundo o banco, a discussão "já não está restrita a roupas baratas" e a penetração do comércio importado avançou de forma expressiva por praticamente todo o varejo discricionário brasileiro.
O relatório lista as categorias já afetadas: acessórios eletrônicos, produtos de beleza, decoração, artigos esportivos e até alguns itens de bens de consumo de giro rápido competem diretamente com produtos vendidos por varejistas domésticas. E o avanço das plataformas estrangeiras acontecia mesmo antes da alíquota zero: segundo o BTG, elas já vinham "ganhando centenas de pontos-base de participação de mercado anualmente em diversas categorias discricionárias, mesmo após a implementação das taxas de importação."
É nesse contexto que o banco cita diretamente o Mercado Livre. O banco diz que a empresa "divulgou em trimestres recentes que o Brasil segue sendo um de seus mercados de crescimento mais acelerado" e coloca essa informação lado a lado com o avanço das plataformas asiáticas, que "continuam investindo agressivamente em capacidades locais de logística, programas de frete grátis, ecossistemas de criadores de conteúdo e subsídios de publicidade."
Os dois modelos de negócio, com crescente sobreposição, disputam o mesmo consumidor brasileiro.
O relatório também aponta que o posicionamento das plataformas asiáticas "evoluiu", com "maior penetração de vendedores domésticos, maiores esforços de localização e investimentos contínuos em infraestrutura logística brasileira." Em outras palavras, Shopee, Shein e Temu estão reduzindo sistematicamente as fricções que historicamente as colocavam em desvantagem frente a um marketplace com operação local consolidada e com fôlego financeiro para sustentar essa estratégia no longo prazo.
Com a alíquota zero restaurada, o BTG avalia que "a penetração cross-border (do comércio importado) tende a se acelerar" e o campo de disputa se expande. As plataformas estrangeiras combinam agora a vantagem estrutural de preço no produto importado com uma operação local cada vez mais robusta, reduzindo a distância em relação ao que o Mercado Livre levou anos para construir no Brasil.
O fim da taxa das blusinhas, na leitura do banco, não é apenas o retorno de um problema antigo para o varejo tradicional. É a abertura de uma nova fase em que plataformas com escala global, preços estruturalmente mais baixos e presença local crescente disputam o mesmo consumidor brasileiro em praticamente todas as categorias do varejo digital — e o Mercado Livre está no meio dessa disputa.
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