Alfaiataria sob medida? Como o Mounjaro está mudando os manequins
Para o alfaiate Alexandre Won, o jeito foi impor a seguinte política: adiar ao máximo a primeira prova do terno ou do costume. Agora, ela é feita com no máximo 30 dias de antecedência da data da entrega. Antes, essa prova, assim como a segunda e última, podia ocorrer ao longo de até três meses — é o prazo mínimo que ele exige, após a compra, para a confecção de cada pedido.
A nova regra se deve a um desafio extra com o qual Won e muitos de seus pares estão se deparando de uns tempos para cá: fazer ajustes expressivos para clientes que se renderam às canetas emagrecedoras e mudaram de manequim em tempo recorde. “Uma coisa é fazer ajustes pontuais”, diz o alfaiate. “Outra coisa é praticamente refazer as peças, o que tem sido muito comum porque os clientes estão voltando para a segunda prova com até 15 quilos a menos.”
Como é de praxe no ateliê dele, os ajustes, até a hora da entrega, estão inclusos no preço dos ternos e costumes sob medida, que partem de 25.000 reais. Dada a complexidade das alterações motivadas por medicamentos como Mounjaro e Ozempic, no entanto, Won está cogitando incluir no contrato firmado com a clientela uma nova cláusula, prevendo cobrança no caso de emagrecimento muito acentuado. “Refazer um terno gera muito estresse”, justifica.
Alexandre Won: muitos pedidos de reformas de peças e encalhe de modelagens 54 e 56 (Arquivo pessoal/Divulgação)
Ele afirma que, hoje, 70% daqueles que encomendam peças sob medida chegam ao ateliê dele, situado na Rua Normandia, no bairro de Moema, em São Paulo, já fazendo uso de substâncias como a tirzepatida, o princípio ativo do Mounjaro. “Nesses casos, dou início ao trabalho já prevendo que haverá uma perda de pelo menos 10 quilos”, informa. O fenômeno também impacta a linha de pronta-entrega — as modelagens 54 e 56, que vendiam bem até há pouco tempo, passaram a encalhar.
No final das contas, porém, o saldo para o negócio tem sido positivo. Isso porque muitos clientes que se submeteram às canetas emagrecedoras estão batendo na porta de Won determinados a refazer o guarda-roupa ou com uma pilha de ternos antigos que agora estão largos demais — os ajustes, nesse caso, não saem de graça. “Tenho resgatado diversos clientes assim”, diz.
Os usuários desses medicamentos estão por toda parte, pelo menos nos círculos mais abastados — você certamente conhece alguém que se rendeu e está feliz da vida com a nova silhueta. No Brasil, de acordo com o Conselho Federal de Farmácia (CFF), o uso dessas canetas cresceu 88% no ano passado.
A onda e os riscos do uso das canetas
E a onda pode estar só começando. Um estudo publicado na revista científica The Lancet Diabetes & Endocrinology estima que um em cada quatro adultos mundo afora se enquadra nos critérios apontados para o uso de medicamentos do gênero. Eles são indicados, sob supervisão médica, para casos de diabetes tipo 2, obesidade e sobrepeso com uma comorbidade associada. Registre-se que pode haver efeitos colaterais como perda de massa muscular e até de massa óssea. E que, muitas vezes, o emagrecimento muito rápido e intenso pode resultar em pancreatite aguda.
Para Vasco Vasconcellos, esse fenômeno se traduziu, do segundo semestre do ano passado até aqui, em quase 350 ajustes significativos de ternos e costumes. “Agora deu uma estabilizada”, diz o alfaiate. Ele acredita que sua clientela mergulhou em peso na onda das canetas emagrecedoras em 2025 e agora, de maneira geral, está no manequim almejado.
Vasco Vasconcellos: a maior parte de seus clientes já emagreceu e está com peso estável (Roberto Tamer/Divulgação)
“Alguns dos meus clientes perderam mais de 30 quilos”, acrescenta. “É uma mudança que nos obriga a levar o terno ou o costume para a fábrica e remontar a peça inteiramente, lembrando que é muito mais fácil construir um novo conjunto do que desmontá-lo, pois corremos o risco de rasgar os tecidos, em geral, muito nobres.”
Seu ateliê, batizado com o nome e o sobrenome dele, tem como política oferecer ajustes gratuitos ad aeternum para roupas sob medida. É um diferencial que o alfaiate gaúcho não pretende abandonar, apesar da trabalheira extra imposta por Ozempic e companhia. “Meu propósito não é só vender, mas resolver os problemas dos clientes”, garante.
Ele dispõe de duas lojas. A mais antiga encontra-se na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, no Jardim América, em São Paulo, e a outra fica no Lago Sul, em Brasília. Desde janeiro, a fábrica, que emprega 80 pessoas, está localizada no centro paulistano.
O foco da marca, lançada em 2012, são os ternos e os costumes sob medida, que custam a partir de 14.990 reais. “Podem chegar a 300.000 reais”, gaba-se Vasconcellos, que, antes de montar o próprio negócio, trabalhou em duas outras grifes conhecidas pela alfaiataria, a Brooksfield e a Ermenegildo Zegna.
Ele calcula que o uso dos emagrecedores aumentou em 70% a procura por ajustes. “Alguns clientes estão aparecendo com mais de dez vestimentas que agora estão largas demais”, registra. Quando isso acontece, ele promete entregar, no curto prazo, apenas uma — para não aumentar, ainda mais, o peso extra sentido pela equipe de costura nos últimos tempos.
Bruno Colella: alterações podem custar até 50% do valor do conjunto (Roberto Tamer/Divulgação)
Cliente de Vasconcellos de longa data, o cirurgião plástico Germano Lima chegou a pesar 107 quilos. Há cerca de um ano e meio, depois de se sujeitar às canetas emagrecedoras e adotar hábitos mais saudáveis, baixou para 78, mantidos de lá para cá. Com o novo manequim, bateu à porta do alfaiate em busca de novos costumes. Em seguida, entregou-lhe os cerca de 30 conjuntos que havia comprado dele ao longo dos anos e que já foram diminuídos. “A perda de peso contribui, automaticamente, para a autoestima, e esta serve de motivação para a compra de novas roupas”, diz Lima.
Na alfaiataria de Bruno Colella, a BRNC, localizada na Rua Domingos Leme, na Vila Nova Conceição, em São Paulo, vigora a seguinte regra: até 30 dias após a entrega de um terno ou costume sob medida, que custam a partir de 20.000 reais, todo e qualquer ajuste é por conta da casa. Passado esse período, as alterações podem sair por até 50% do valor do conjunto. Com o advento das canetas — e os complexos ajustes provocados por elas —, a política continua a mesma. “Para os clientes que emagrecem mais de 10 quilos, é preciso abrir o conjunto todo e refilá-lo”, detalha Colella. “Dá quase o mesmo trabalho que começar do zero.”
A BRNC está escolada em atender pessoas que estão em processo de emagrecimento. Isso porque 50% dos compradores de artigos do tipo são noivos, os quais comumente se submetem a dietas rígidas e a uma maratona de exercícios até o dia do altar. “Por causa disso, eu já costumava prever alguma perda de peso entre a tiragem das medidas e a prova final”, diz o alfaiate. “Mas nada que se compare às mudanças de hoje em dia.”
Ele estima que quase um terço da sua clientela aderiu aos medicamentos emagrecedores. “É uma novidade que trouxe maior complexidade para a confecção de itens sob medida, mas que, no fim, é vantajosa para o negócio”, pondera. “A perda de peso serve de estímulo para a clientela voltar e encomendar novas roupas.” Acrescenta que há outros caminhos para o emagrecimento. “Parei de jantar, por exemplo, e como no máximo até as 18 horas”, informa. “Com isso, já perdi 4 quilos.”
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