'Alta no preço dos fertilizantes ainda não atingiu o pico', diz CEO da Yara Brasil
O CEO da Yara no Brasil, Marcelo Altieri, não está otimista para a safra 2026/27. Segundo o executivo, o cenário que se desenha para o próximo ciclo é pouco promissor diante do aumento de custos para o produtor e das tensões geopolíticas.
“É difícil estar otimista quando tem duas guerras acontecendo. Gostamos de fazer negócio em um ambiente onde conseguimos construir. Não gostamos de fazer negócio em um ambiente onde há destruição”, diz o CEO, no escritório da Yara, em Pinheiros, São Paulo.
O pessimismo vem na esteira do conflito no Oriente Médio, que fez os preços dos fertilizantes dispararem mais de 50% e já começa a preocupar o agricultor, uma vez que o período de compras do insumo já começou.
Para Altieri, o agronegócio enfrenta hoje uma combinação rara de pressões, que vai dos conflitos geopolíticos ao alto custo do gás e à dependência externa de fertilizantes. O executivo avalia que, mesmo com a alta nos insumos, o mercado ainda não atingiu o pico registrado em 2022, no início da guerra na Ucrânia.
Para ele, o cenário atual é uma “tempestade perfeita”, que já afeta a rentabilidade do produtor e expõe fragilidades estruturais do país.
A Yara encerrou 2025 com lucro líquido de US$ 1,372 bilhão, um avanço significativo frente ao ano anterior. Nas Américas, o volume de entregas cresceu 6%, impulsionado pela forte demanda por NPK e pela normalização do mercado brasileiro, que retomou os patamares de vendas após os impactos logísticos das enchentes de 2024.
Na entrevista, o executivo detalha por que a crise atual pode ser mais complexa do que a de 2022, mesmo sem ter atingido o pico de preços, critica a lentidão do Plano Nacional de Fertilizantes e aponta caminhos — que passam por energia renovável, crédito mais acessível e maior integração da cadeia.
Leia a entrevista completa
Mesmo com o cessar-fogo estamos no segundo mês de guerra no Irã. Como o conflito mexeu com os negócios da Yara no Brasil e no mundo?
A Yara é uma companhia global com presença em mais de 120 mercados e unidades fabris distribuídas por todo o mundo. Embora nossa origem seja norueguesa e nossa maior atuação esteja na Europa, há um fator comum a todos os mercados onde operamos: a sensibilidade ao risco. Atualmente, enfrentamos um cenário de incertezas devido ao impacto dos conflitos globais nos preços do gás natural e do petróleo, o que reflete diretamente na produção de nitrogênio
Quais foram os impactos mais diretos desse cenário?
Cerca de 34% do nitrogênio e da ureia globais são provenientes daquela região [Oriente Médio]. No ano passado, esse volume foi exportado pelo Estreito de Ormuz. Estamos falando de milhões de toneladas; e como o gás natural é a principal matéria-prima para a produção de nitrogênio, enfrentamos um problema de escala global. Não se trata de uma questão isolada, mas de um desafio de distribuição decorrente das decisões tomadas após o início do conflito.
Quais foram essas decisões?
A primeira foi seguir estritamente as regulamentações europeias. Nós não compramos nada de origem sancionada — nem de Rússia, Bielorússia ou Irã. Essa decisão, lá em 2021, pós-pandemia e início da guerra, ajudou muito a diversificar nosso sistema de fornecedores. Hoje, o que recebemos dessa região não é grande coisa, então temos um impacto um pouco menor. Mas vamos sofrer, sem dúvida. Somos parte da cadeia de alimentos. E o grande desafio é que teremos limitações globais de produto, o que impacta principalmente os custos de produção.
Esse cenário é sustentável para a indústria?
Eu não lembro de nenhuma dessas crises em que a indústria terminou indo bem no médio prazo. No início da escalada de preços, você tem inventário menor e parece que as margens são muito boas. Mas isso acaba rápido. Depois os preços caem e você perde com o estoque. É um ciclo.
Como esse cenário impacta o agricultor diretamente?
É muito difícil de gerenciar para toda a indústria. E, dentro dessa indústria, é muito difícil sair com resultado positivo em uma guerra como essa. Eu acho que é algo muito triste, pelo lado humano, pelas pessoas. Não desejo a ninguém passar por uma situação como essa — e muito menos ao agricultor, sabe? Que, estando tão longe e com uma vocação tão importante, que é produzir alimento para o mundo, acaba sendo fortemente impactado. A relação de troca — os quilos de grão necessários para comprar fertilizante — teve uma escalada tremenda. Por quê? Porque os custos dos fertilizantes e dos agroquímicos em geral subiram muito, enquanto o grão não acompanhou. Hoje você não tem essa alta de preços que compense o custo do fertilizante.
E ainda tem o crédito e os juros altos.
O acesso ao crédito tornou-se um dos principais gargalos para o setor, especialmente porque o mercado financeiro está reagindo ao aumento do risco global e aos recentes pedidos de recuperação judicial na cadeia de distribuição. Com taxas de juros chegando a 15% ao ano, a conta para o agricultor simplesmente não fecha, transformando o financiamento em um desafio à rentabilidade. Acreditamos que o apoio via Plano Safra e a criação de marcos regulatórios que incentivem o capital são fundamentais, mas é preciso ir além: para mitigar essa "tempestade perfeita", a cadeia precisa de soluções que tragam juros mais acessíveis e ferramentas que permitam ao produtor tomar decisões de investimento inteligentes, mesmo sob pressão.
Em relação à guerra na Ucrânia, o que mudou?
Na guerra anterior — que ainda está em curso, e isso é importante destacar — o cenário já era de pressão sobre os mercados. Hoje, porém, há um agravante: além desse conflito, surge uma nova frente de tensão, o que adiciona complexidade ao ambiente global. Atualmente, portanto, convivemos com duas guerras simultâneas. A primeira, entre Rússia e Ucrânia, já se estende há cerca de quatro anos. Quando esse conflito começou, os preços dispararam de forma ainda mais intensa do que agora, embora ainda não tenham atingido novamente o pico observado em 2022. Naquele momento, houve um fator decisivo: os grãos acompanharam a alta. Isso manteve a relação de troca em patamares elevados, permitindo que o produtor rural cobrisse seus custos e ainda garantisse uma rentabilidade consistente.
E agora, como está essa rentabilidade?
O cenário atual é de queda na rentabilidade, atingindo um dos níveis mais baixos dos últimos anos — algo próximo de 20anos, segundo estimativas de mercado. Isso representa uma mudança relevante frente ao ciclo recente mais favorável ao produtor. Além disso, há um descolamento importante nas condições econômicas do campo. O que analistas globais chamam de farmer affordability— ou seja, a capacidade de compra do agricultor— está bastante comprometida. Na prática, isso significa que, mesmo com alguma estabilidade pontual, o produtor enfrenta hoje uma diferença significativa em relação a períodos anteriores, com menor poder de investimento e margens mais apertadas ao longo da safra.
E como a Yara está reagindo a esse cenário, principalmente no Brasil?
Eu acho que o agricultor entende a importância de escolher parceiros confiáveis em momentos como esse — parceiros que estão há muito tempo no Brasil, como a Yara, que tem 120 anos no mundo e 50 anos no país. Hoje, essa escolha é fundamental: um parceiro que ajude o agricultor a tomar decisões inteligentes de investimento. Porque, no cenário atual, é muito difícil tomar uma decisão de compra com segurança. No Brasil, nossas fábricas estão operando a 100%. Temos matéria-prima e estrutura para produzir. Foi uma estratégia acertada, iniciada lá em 2022, que hoje nos coloca em uma posição melhor e nos permite evitar o desabastecimento do mercado.
Vocês conseguem atender toda a demanda?
Os nossos compromisso estão cobertos, nós conseguimos, mas claro, não conseguimos abastecer todo o mercado. Nós conseguimos as dizer nossos cliente, nossos parceiros, nossa cota de mercado que a gente tem, mas não é um ano onde a gente vai conseguir expandir. É um ano onde a gente pelo contrário, vendo que o mercado vai ter uma retração.
Qual é a perspectiva de retração do mercado?
Dependendo de quem você escuta, o mercado pode retrair entre 5% e 10%, ou até mais, dependendo também da escalada dos preços. Porque, quando deixa de ser um bom negócio, o que o produtor vai fazer? E tem um ponto importante — agora estou lembrando: no ano passado tivemos uma super safra, foram 446 milhões de toneladas. Imagina isso, o volume de grão produzido.
Nesse sentido, o Plano Nacional de Fertilizantes não avançou como esperado.
Foi iniciado lá atrás, foi feito um negócio gigantesco para falar que ele ia andar, e todo mundo que eu conversei — governo, indústria — foi unânime: as coisas não andaram como deveriam ter andado. E estamos com 85% de dependência de importação de fertilizantes. O Plano Nacional de Fertilizantes não pode ser um plano de governo. Ele tem que ser um plano de país. Por quê? Porque construir uma fábrica de fertilizantes leva de 5 a 7 anos. O governo dura quatro anos. Então, quem anuncia não vai inaugurar. De fato, tem que ser um plano de país.
Com a guerra caminhando para o terceiro mês, existe risco prolongado dessa crise?
O retorno à normalidade será particularmente difícil desta vez devido aos severos danos na infraestrutura global. O setor enfrenta o impacto direto de ataques por mísseis e drones, que atingiram diversos gasodutos e unidades de produção de fertilizantes, comprometendo a capacidade operacional do sistema.
Recentemente, a Petrobras anunciou a construção de uma unidade de fertilizantes em Mato Grosso do Sul. Como você avalia a competitividade desse movimento?
Minha visão é extremamente positiva; é um projeto excelente que espero ver concretizado. O Brasil tem potencial para ser muito competitivo, desde que realizemos os investimentos necessários em infraestrutura de gás. Atualmente, o custo do gás na boca do poço é baixo, mas a falta de infraestrutura de transporte e a carga tributária acabam inviabilizando a indústria. Com soluções estruturais e investimentos que tragam competitividade real, esse projeto tem tudo para ser um sucesso. Precisamos de iniciativas como essa com urgência, pois a construção de uma fábrica desse porte leva de cinco a sete anos e exige bilhões de dólares em investimento.
Diante de um cenário com múltiplos conflitos e desafios de rentabilidade, é possível manter o otimismo para as próximas safras?
É difícil ser otimista quando há guerras em curso; como seres humanos, não gostamos de ver destruição, mas sim de construir negócios em ambientes prósperos. No entanto, nosso compromisso permanece inabalável. Estamos em 'comitê de crise' diariamente para mitigar impactos e garantir que o agricultor tenha o suporte necessário para seguir produzindo com rentabilidade. A agricultura é feita de ciclos.
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