Análise de competitividade do biometano a partir do custo nivelado
Uma forma usual de avaliar a competitividade econômica de projetos de biometano é por meio do seu custo nivelado (LCOB). Essa métrica permite comparar diferentes modelos em uma mesma base, a partir de um conjunto de premissas . No relatório técnico "O Biometano em São Paulo: Potencial e Medidas para Alavancar a Produção", o indicador é utilizado para estimar a receita média necessária por metro cúbico capaz de cobrir os custos de investimento e operação e garantir retorno ao acionista.
O LCOB apresenta variações significativas dependendo da estrutura de escoamento e do porte da planta. Os principais resultados indicam que a autoprodução é o arranjo mais competitivo, com valores entre R$ 1,70 e R$ 2,60/m³, devido à ausência de custos logísticos e de impostos sobre a venda. Caso seja considerada a venda de biometano na saída da planta (i.e. com impostos mas sem custos logísticos), o LCOB varia entre 2,20 e 3,30 R$/m³.
Já a injeção em gasoduto para projetos que utilizam a rede de distribuição apresenta LCOB entre R$ 2,80 e R$ 3,80/m³, desde que o investimento na expansão seja arcado pela distribuidora. Se este custo for alocado ao produtor, o LCOB pode chegar a R$ 4,50/m³.
Por outro lado, as rotas logísticas de transporte via biometano comprimido (Bio-GNC), biometano liquefeito (Bio-GNL) e/ou uso de rede de transporte e distribuição tendem a ser as menos competitivas, com o LCOB variando entre R$ 3,20 e R$ 5,30/m³, resultado do maior "empilhamento" de custos operacionais decorrentes das múltiplas etapas do processo logístico.
A competitividade do biometano depende do combustível a ser deslocado, modelo de negócio adotado, escala do projeto e distância entre os pontos de consumo e produção. Para os cenários analisados o biometano apresenta competitividade frente ao diesel equivalente, cujo preço no mercado brasileiro alcançava R$ 6,59/m³ em 2024. Em comparação ao gás natural, o LCOB situa-se acima do limite inferior da faixa de preços de 2024 (R$ 3,18 a R$ 5,41/m³, de acordo com deliberações da ARSESP para 2024) para quase todos os cenários analisados, exceto na modalidade de autoprodução, mas permanece abaixo do limite superior em vários cenários. Isto posiciona o combustível renovável como alternativa para substituição desses energéticos. A análise de substituição deve considerar ainda custos adicionais, como conversão de veículos e infraestrutura, que também foram analisados no estudo.
A análise de sensibilidade demonstra que a incorporação de receitas provenientes de atributos ambientais (como CBIOs e GAS-REC) e a otimização da estrutura de encargos fiscais poderiam reduzir significativamente o LCOB (até 44% em um cenário otimista), ampliando seu potencial de penetração de mercado.
No contexto atual de instabilidade geopolítica e pressão sobre os preços de combustíveis fósseis, o biometano ganha relevância, por ser produzido localmente a partir de resíduos orgânicos, à margem das oscilações do mercado internacional. Essa resiliência o posiciona não apenas como alternativa econômica, mas como ativo estratégico para a estabilidade energética do país.
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