Análise: na Hungria, a derrota é de Orbán — e de Trump
A eleição na Hungria, realizada neste domingo, 12, foi marcada pela derrota de Viktor Orbán, um primeiro-ministro de direita populista que estava no cargo há 16 anos e contava com o apoio explícito do presidente americano, Donald Trump.
Não foi a primeira vez que o americano tentou influenciar disputas no exterior, e seus esforços alternam entre derrotas e vitórias.
Na eleição húngara, Trump fez promessas de aumentar a ajuda ao país em caso de vitória do aliado.
"Meu governo está pronto para usar todo o poderio econômico dos EUA para fortalecer a economia da Hungria, como fizemos para nossos aliados no passado, se [Orbán] e o povo húngaro precisarem. Estamos ansiosos para investir na prosperidade futura gerada pela liderança contínua de Orbán!", escreveu em sua rede social.
Além disso, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, foi a um comício em Budapeste, ao lado de Orbán, para pedir votos. Apesar do esforço, neste domingo, os húngaros elegeram Peter Magyar como novo premiê.
Esta foi a segunda derrota de Vance na Europa. Em fevereiro de 2025, ele foi à Alemanha, se encontrou com Alice Weidel, líder do partido de extrema-direita AfD e depois defendeu que as outras legendas de direita se aliassem a ela e rompessem o chamado cordão sanitário, que evitava alianças com a legenda.
A AfD terminou aquela eleição em segundo lugar e seguiu isolada. Analistas apontam que a interferência de Vance fez com que mais alemães decidissem ir votar a favor do outro candidato, Friedrich Merz, que foi eleito premiê.
Argentina e Japão
Se na Europa a ligação com Trump não tem ajudado partidos, nas Américas e na Ásia houve cenário diferente.
O maior destaque foi nas eleições de meio de mandato da Argentina, em outubro de 2025, quando o presidente americano deu forte apoio a Javier Milei, inclusive com a liberação de empréstimos bilionários ao país. A ajuda levou Milei a vencer, a aumentar sua bancada no Congresso e a avançar com suas reformas no país.
Em fevereiro deste ano, o líder americano também deu apoio a Sanae Takaichi, que se reelegeu primeira-ministra do Japão.
Ela já estava no cargo desde outubro de 2025 e propõe uma série de reformas para tentar fazer o Japão crescer novamente. Trump prometeu ajuda, mas também exigiu que o país se comprometesse a investir em negócios nos EUA.
Os presidentes Donald Trump e Javier Milei, na entrada da Casa Branca (Kevin Dietsch/AFP)
Posição sobre o Brasil
Sobre as eleições presidenciais do Brasil, marcadas para outubro, Trump ainda não se posicionou.
Em seu primeiro mandato (2017-2021), ele recebeu o então presidente Jair Bolsonaro na Casa Branca e na Flórida. Bolsonaro fez diversos elogios públicos a Trump e buscou se aproximar dele ao longo do governo, oferecendo um alinhamento mais amplo entre Brasil e Estados Unidos.
No mandato atual, Trump impôs tarifas ao Brasil pela acusação de que o país estaria perseguindo judicialmente Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado.
O americano, no entanto, se aproximou de Lula a partir de setembro e depois revogou boa parte das tarifas e as sanções contra Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Lula e Trump tiveram uma conversa presencial na Malásia, em outubro, e combinaram um novo encontro este ano, que foi adiado em meio à guerra no Irã e está sem data prevista.
Trump fez elogios a Lula, e ambos disseram no ano passado que "houve química" e que passariam a ter contato direto. Nos últimos meses, no entanto, o presidente brasileiro fez algumas críticas ao americano.
Mesmo assim, parcerias têm avançado. Na sexta-feira, 12, foi assinada a Ação Brasil-EUA Contra o Crime Organizado, uma iniciativa entre a Receita Federal brasileira e a agência de controle de fronteiras americana, para combater o crime transnacional com maior troca de dados.
Analistas apontam que o Brasil não está entre as prioridades americanas neste momento, pois o foco está no Oriente Médio, embora novos momentos de tensão possam surgir.
Um deles é a conclusão da investigação que o governo americano está fazendo sobre as relações comerciais brasileiras, por meio da Seção 301. Esse processo pode abrir caminho para que os americanos imponham mais tarifas ao Brasil, que teriam caráter mais duradouro.
O Brasil, no entanto, teria espaço para negociar concessões aos americanos, em um processo em que a relação pessoal entre os dois presidentes terá papel fundamental.
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