Ancelotti e o modo Real Madrid: é assim que o Brasil vai ganhar a Copa do Mundo?

Por institucional 1 de Julho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ancelotti e o modo Real Madrid: é assim que o Brasil vai ganhar a Copa do Mundo?

O Brasil que avançou no mata-mata da Copa do Mundo de 2026 não joga como o Brasil que o imaginário coletivo guarda.

Ele defende em bloco, cede a bola sem culpa e aposta tudo na velocidade da transição — um retrato cada vez mais nítido do Real Madrid que Carlo Ancelotti comandou até o ano passado. A pergunta que ronda a seleção é se essa fórmula, mais fria do que vistosa, é o caminho para encerrar o jejum de títulos que perdura desde 2002.

A transformação não foi imediata. Depois do empate duro com o Marrocos na estreia, Ancelotti mexeu na formação e encontrou, nas vitórias por 3 a 0 sobre Haiti e Escócia, uma identidade que vinha buscando desde que assumiu o cargo.

E essa identidade tem assinatura conhecida para os fãs de futebol europeu.

Defender longe da bola, atacar no espaço

A marca mais visível do trabalho é a disposição de abrir mão da posse. Diferentemente das seleções brasileiras anteriores, obcecadas por dominar o jogo, o time de Ancelotti não tem vergonha de recuar as linhas, fechar espaços e esperar.

Contra a Escócia, sem a bola, o Brasil se organizou em um 4-4-2 compacto, recuperou a bola em setores avançados e acelerou as transições.

É exatamente o que Ancelotti fazia no Santiago Bernabéu.

Na campanha do título da Liga dos Campeões de 2023-24, o Real Madrid dividiu a posse em igualdade com adversários como o RB Leipzig, sem que isso o impedisse de vencer.

O italiano nunca foi um treinador de estilo propositivo a qualquer custo: prefere se adaptar ao elenco e potencializar seus melhores jogadores, mesmo que isso signifique deixar a bola com o rival.

O Vini Jr. do Bernabéu reaparece na seleção

O ponto em que a semelhança fica mais evidente é o uso de Vinícius Júnior. Desde o jogo contra o Haiti, o atacante deixou a ponta e passou a atuar no espaço entre o zagueiro e o lateral adversário, recebendo lançamentos em profundidade — um movimento muito parecido com o que já fazia no Real Madrid, justamente sob o comando de Ancelotti.

A mudança produziu efeito imediato. No recorte recente, Vini somou três gols, uma assistência e ainda teve um gol mal anulado, números que reforçam como o novo posicionamento ampliou seu peso ofensivo.

“Vini é perigoso não só no um contra um, mas também atacando a profundidade, no centro do campo. Ele pode mudar de posição e os outros podem se adaptar”, disse Ancelotti em entrevista coletiva.

A frase ajuda a entender a lógica do trabalho do treinador: o sistema não força os jogadores a se encaixarem em funções fixas; ele se ajusta para extrair o máximo dos atletas mais decisivos.

Essa fala ficou clara ao ver o que Ancelotti colocou dentro de campo. Contra o Haiti, ele deu mais liberdade para que Douglas Santos atuasse pelas laterais, enquanto Vini focava na parte interna do ataque.

"Colocamos o Vini um pouco mais por dentro, deixando o jogo por fora mais para Douglas Santos, que foi muito bem. Vini é perigoso não só no um contra um, mas também no ataque à profundidade. Atacar a profundidade no centro do campo é mais perigoso, marcou um gol e deu uma assistência”, analisou o treinador.

A peça que destravou o meio-campo

A virada tática teve um nome inesperado: Matheus Cunha.

Com a bola, o atacante recua para atuar como um meio-campista a mais, formando um quarteto que desafoga a saída de bola ao lado de Casemiro, o mais recuado.

O desenho, que lembra um 4-3-3 com falso nove, deu ao Brasil o equilíbrio que faltava entre defender com solidez e municiar os velocistas da frente.

Foi essa estabilidade que levou Ancelotti a uma decisão inédita no ciclo. Contra o Japão, ele repetiu a escalação titular pela primeira vez, encerrando uma sequência de 15 times diferentes. O técnico que passou meses testando finalmente encontrou sua base.

O preço do pragmatismo

Nem todos veem a transformação com entusiasmo.

O Brasil de Ancelotti dificilmente entregará os espetáculos plásticos que marcaram outras gerações — e há quem lamente a troca do brilho pela eficiência.

A aposta do italiano é construir uma equipe fria, letal nas transições e defensivamente muito mais sólida do que nos últimos Mundiais.

Vini Jr: Ancelotti testa mesmo esquema do Real Madrid com o jogador (CHANDAN KHANNA / AFP)

O teste real, porém, ainda está por vir. Diante de adversários frágeis, ceder a bola é confortável.

A dúvida é como esse Brasil se comportará contra as favoritas — França, Espanha ou Argentina —, justamente o tipo de jogo em que o pragmatismo de Ancelotti foi forjado.

Em um amistoso contra a França, em março, a seleção mostrou o roteiro ao abrir mão da bola, fechar em bloco baixo e tentar acionar Vinícius e Raphinha nas costas da defesa.

A fórmula do rei da Champions

A maior credencial dessa aposta é o currículo de quem a conduz.

Ancelotti é o maior vencedor da história da Champions League como treinador e construiu essa marca exatamente sabendo sofrer e vencer jogos cirúrgicos, em vez de dominar do início ao fim.

O Real Madrid daqueles anos não era necessariamente o melhor time da Europa, mas era o que melhor competia nos momentos decisivos.

É essa lógica que ele tenta transplantar para a seleção.

O Brasil de 2026 talvez não seja o time mais talentoso da Copa, mas apostou em ser o mais difícil de vencer no mata-mata.

Se a fórmula que deu cinco Champions a Ancelotti vai entregar o hexa, é o que as próximas semanas dirão.

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