Antes dos dinossauros: o fóssil gigante de 9 metros que não era planta
Um organismo gigante que viveu há cerca de 400 milhões de anos, antes mesmo do surgimento das árvores e dos dinossauros, pode não ser planta, animal ou fungo, segundo uma nova pesquisa publicada na revista Science Advance. O estudo sugere que os fósseis conhecidos como Prototaxites representam uma forma de vida multicelular que não se encaixa em nenhum grupo moderno conhecido.
Os Prototaxites são encontrados há mais de 160 anos e podem ter chegado a 9 metros de altura, tornando-se a maior forma de vida terrestre de seu período. Mesmo assim, a classificação do organismo permanece em debate, com hipóteses que já o descreveram como tronco de árvore, líquen e fungo.
De acordo com Corentin Loron, paleontólogo da Universidade de Edimburgo, as análises indicam que se trata de uma categoria biológica “muito diferente de qualquer outro grupo moderno que conhecemos”.
O que é Prototaxites?
A nova investigação analisou três fósseis de Prototaxites encontrados no sílex de Rhynie, um sítio paleontológico próximo a Aberdeen, na Escócia. O local preserva alguns dos melhores registros de plantas, fungos e animais que começaram a colonizar a terra firme durante o Devoniano Inferior, há cerca de 400 milhões de anos.
O sílex de Rhynie é considerado um dos ambientes fósseis mais bem preservados do mundo. Por ter se formado em um ecossistema ligado a antigas fontes termais, comparadas pelos cientistas a áreas como Yellowstone, o material permite detectar assinaturas químicas de moléculas que desapareceram ao longo do tempo.
Segundo Loron, essa preservação possibilita identificar compostos chamados de “produtos de fossilização”, que ajudam a reconstruir a composição original do organismo.
Prototaxites era um fungo?
Os resultados apontaram que os biomarcadores presentes nos Prototaxites eram diferentes daqueles encontrados em fungos fossilizados no mesmo local. Os fósseis de fungos preservados no sílex continham compostos associados à decomposição de quitina e glucano, moléculas estruturais típicas desses organismos.
Nos Prototaxites, porém, esses biomarcadores não foram identificados, o que, segundo os autores, enfraquece a hipótese de que o organismo fosse um fungo.
Além da análise química, o estudo também descreve diferenças estruturais. Os pesquisadores observaram um padrão de ramificação complexo em manchas esféricas escuras no fóssil, que podem ter tido funções como transporte de gás, água ou nutrientes. Segundo os estudiosos, essas estruturas não correspondem a nenhum fungo conhecido, vivo ou extinto.
Com base no conjunto de evidências, os autores afirmam que ainda é cedo para enquadrar os Prototaxites em uma categoria biológica tradicional.
Como o fóssil se alimentava?
A pesquisa também dialoga com trabalhos anteriores que indicam que o Prototaxites não produzia energia por fotossíntese, como as plantas. Em vez disso, a hipótese é que ele consumia fontes de carbono do ambiente, de forma semelhante ao que ocorre com fungos que se alimentam de matéria orgânica em decomposição.
Kevin Boyce, professor da Universidade Stanford, que já estudou fósseis de Prototaxites e não participou do novo trabalho, afirmou que o organismo é antigo demais para ser comparado diretamente com cogumelos e fungos atuais. Segundo ele, mesmo que tivesse funções parecidas, sua forma pode ter evoluído de maneira independente.
Apesar do avanço, o estudo também recebeu ressalvas. Marc-André Selosse, professor do Museu de História Natural de Paris, avaliou que as análises são detalhadas, mas apontou que a pesquisa examinou apenas uma das cerca de 25 espécies conhecidas de Prototaxites. Para ele, ainda existe a possibilidade de que o organismo tenha funcionado de forma semelhante a um líquen.
Loron, por sua vez, pontuou que ainda há questões em aberto, como a maneira de fixação no solo e se o Prototaxites conseguia permanecer ereto durante toda a vida. A equipe destacou que pretende ampliar as análises para outros fósseis tubulares semelhantes para aprofundar a investigação.
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