Anthropic afirma que estava 'muito próxima' do Departamento de Guerra antes de Trump dizer não

Por André Lopes 22 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Anthropic afirma que estava 'muito próxima' do Departamento de Guerra antes de Trump dizer não

A Anthropic apresentou duas declarações sob juramento a uma corte federal da Califórnia na sexta-feira, 20, contestando a tese do Departamento de Guerra de que a empresa representa um "risco inaceitável à segurança nacional". Nos documentos, a companhia afirma que o caso do governo se apoia em mal-entendidos técnicos e em acusações que, segundo ela, nunca foram feitas durante meses de negociação entre as partes.

Os textos foram protocolados junto da réplica da empresa no processo contra o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O material antecede uma audiência marcada para terça-feira, 24 de março, diante da juíza Rita Lin, em San Francisco.

A disputa começou no fim de fevereiro, quando o presidente Donald Trump e o secretário de Defesa, Pete Hegseth, anunciaram publicamente o rompimento com a Anthropic após a empresa se recusar a liberar uso militar irrestrito de sua tecnologia de IA.

As duas declarações foram assinadas por Sarah Heck, chefe de política da Anthropic, e por Thiyagu Ramasamy, responsável pela área de setor público da companhia. Heck trabalhou no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca no governo Barack Obama, passou pela Stripe, empresa de pagamentos, e hoje lidera a frente de relações governamentais da Anthropic. Ela esteve presente na reunião de 24 de fevereiro em que o presidente-executivo Dario Amodei se encontrou com Hegseth e com Emil Michael, subsecretário de Defesa.

Em seu depoimento, Heck ataca o que chama de falsidade central da argumentação do governo: a alegação de que a Anthropic exigia algum tipo de poder de aprovação sobre operações militares. Segundo ela, “em nenhum momento” qualquer funcionário da empresa afirmou querer desempenhar esse papel.

Heck também sustenta que a preocupação do Pentágono com uma eventual desativação ou alteração da tecnologia da Anthropic no meio de uma operação nunca apareceu nas conversas entre as partes. De acordo com ela, esse ponto só surgiu nos autos do processo, sem que a empresa tivesse tido chance de responder antes.

Outro trecho relevante da declaração trata de um email enviado em 4 de março por Emil Michael a Amodei, um dia após o Pentágono formalizar a classificação de risco na cadeia de suprimentos contra a companhia. Na mensagem, anexada pela Anthropic ao processo, Michael afirma que os dois lados estavam “muito próximos” de um acordo justamente nos dois pontos que o governo agora usa para sustentar que a empresa ameaça a segurança nacional: armas autônomas e vigilância em massa de americanos.

A cronologia descrita por Heck amplia a contradição. Em 5 de março, Amodei disse que a companhia mantinha conversas “produtivas” com o Pentágono. No dia seguinte, Michael publicou no X que não havia “negociação ativa” entre o antigo Departamento da Guerra e a Anthropic. Uma semana depois, disse à CNBC que não havia “nenhuma chance” de retomada das conversas.

Executivo rebate tese técnica do governo

Ramasamy, o segundo executivo a assinar declaração, aborda a frente técnica da disputa. Antes de chegar à Anthropic em 2025, ele passou seis anos na Amazon Web Services, braço de computação em nuvem da Amazon, cuidando de implantações de IA para clientes do governo, inclusive em ambientes classificados. Na Anthropic, ajudou a montar a equipe que levou os modelos Claude para usos em segurança nacional e defesa, incluindo o contrato de US$ 200 milhões com o Pentágono anunciado no ano passado.

Na declaração, Ramasamy contesta a alegação do governo de que a Anthropic poderia interferir em operações militares ao desligar sua tecnologia ou alterar seu funcionamento. Segundo ele, isso não seria tecnicamente possível quando o Claude é instalado em um sistema isolado, ou air-gapped, operado por terceiros sob controle do governo. Nessa estrutura, afirma, a Anthropic não tem acesso ao sistema, não dispõe de mecanismo remoto de desligamento e não consegue empurrar atualizações não autorizadas.

Na prática, diz o executivo, qualquer mudança no modelo exigiria aprovação explícita do próprio Pentágono e ação direta para instalação. A ideia de um “veto operacional” da Anthropic seria, nessa leitura, uma ficção técnica.

Ramasamy também afirma que a empresa não consegue ver o que usuários do governo digitam no sistema, nem extrair esses dados. Ele ainda rebate a acusação de que a contratação de estrangeiros tornaria a companhia um risco à segurança. Segundo o executivo, funcionários da Anthropic passaram pelo processo de autorização de segurança do governo americano, a mesma checagem exigida para acesso a informação classificada.

Em outro ponto, ele afirma que, até onde sabe, a Anthropic é a única empresa de IA cujos profissionais com credencial de segurança participaram da construção de modelos destinados a operar em ambientes sigilosos.

A ação judicial da companhia sustenta que a classificação de risco na cadeia de suprimentos — a primeira já aplicada a uma empresa americana — equivale a retaliação do governo por causa das posições públicas da Anthropic sobre segurança em IA, em violação à Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que protege a liberdade de expressão.

Já o governo rejeitou esse enquadramento em documento de 40 páginas protocolado nesta semana. A gestão afirma que a recusa da Anthropic em permitir todos os usos militares legais de sua tecnologia foi uma decisão comercial, e não discurso protegido pela Constituição, e que a medida adotada foi uma decisão de segurança nacional, não uma punição pelas opiniões da empresa.

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