Aos 80 anos, indústria de SP fatura milhões com armadilha contra pernilongos
A Indústria Elétrica Marangoni Maretti, fabricante de componentes para transformadores elétricos fundada na década de 1940 em Mogi Mirim (SP), viu em uma startup ucraniana uma oportunidade de impulsionar o crescimento no Brasil.
A solução que chamou a atenção da empresa brasileira foi o Mosqitter, um aparelho que atrai pernilongos, reduzindo a quantidade de espécies em uma região. A empresa apostou em pesquisas para a adaptação da armadilha no Brasil – e ano passado a armadilha estava no mercado.
Agora, a companhia prepara uma nova etapa. Além de lançar um modelo de locação para empresas, pretende trazer ao Brasil uma versão compacta do equipamento ainda em 2026 e ampliar sua presença comercial. A meta é crescer 40% este ano em relação a 2025.
De transformadores elétricos para o combate a mosquitos
A história da Marangoni começou com a manutenção de transformadores elétricos em uma época em que o Brasil ainda não produzia esses equipamentos localmente.
Com o passar das décadas, a companhia se especializou em sistemas de refrigeração para transformadores, tornando-se fabricante de radiadores e ventiladores industriais usados no setor elétrico. Também atua em pisos metálicos industriais e segurança viária.
A entrada no mercado de tecnologia ocorreu de forma gradual. Em 2016, a empresa criou uma área de pesquisa e desenvolvimento com estrutura semelhante à de uma startup.
A oportunidade que deu origem à Mosqitter surgiu durante uma feira de tecnologia realizada anualmente em Las Vegas (EUA). A companhia monitorava desde 2012 o avanço de doenças transmitidas por mosquitos no Brasil, mas buscava uma solução respaldada por estudos científicos.
Após os primeiros contatos, a empresa importou unidades para testes no Brasil. As validações foram realizadas pelo Grupo de Pesquisa em Imunoparasitologia da Universidade do Sul de Santa Catarina (IMPAR-Unisul), laboratório que mantém colônias de Aedes aegypti para pesquisas.
Mosqitter: aparelho simula a respiração, a temperatura corporal e compostos presentes no suor humano para atrair e capturar mosquitos sem uso de inseticidas (Gil Silva/Kyvo)
“Trouxemos algumas dessas armadilhas importadas para o Brasil para realizar validações locais, muito por causa do Aedes aegypti, já que na Europa as espécies que prevalecem são outras”, afirma Pedro Moreira, responsável pela Mosqitter no Brasil.
Os testes ocorreram entre o fim de 2022 e meados de 2023.
“De todos os equipamentos já analisados, esse é o que mais imita as características do corpo humano, com temperatura de 37 graus, além do diferencial de emitir o feromônio sintético.”, afirma Josiane Prophiro, coordenadora do grupo de pesquisa da universidade.
O contrato de fabricação e distribuição foi fechado no fim de 2023. As vendas ao mercado começaram em 2024.
Como funciona a armadilha
O alvo principal são as fêmeas, responsáveis pelas picadas e pela transmissão de doenças, como dengue.
“Quando você introduz um equipamento que está simulando um mamífero, você acaba atraindo principalmente as fêmeas. Essa diferença entre machos e fêmeas no local é o que dificulta a reprodução”, diz Moreira.
A companhia afirma que a tecnologia consegue atrair mosquitos a até 50 metros de distância em áreas sem barreiras físicas. Segundo estudos realizados pela empresa, o equipamento pode reduzir em até 93% as picadas de pernilongos em humanos.
O modelo utiliza dois insumos que exigem reposição periódica: um cilindro de CO₂, substituído mensalmente, e um sachê com o atrativo sintético, trocado a cada 60 dias.
A Marangoni comercializa os insumos necessários para o funcionamento da armadilha e oferece acompanhamento técnico. No modelo de locação, o suporte é mais próximo, enquanto clientes que compram o equipamento fazem as reposições seguindo orientações da empresa.
O desafio de convencer o mercado
A principal barreira encontrada pela empresa não foi tecnológica, mas comercial.
O equipamento possui custo superior ao de soluções tradicionais de controle de mosquitos, exigindo um trabalho de convencimento sobre retorno financeiro e eficiência operacional.
“Não é fácil convencer um cliente de que ele vai ter uma economia no longo prazo tendo esse desembolso inicial um pouco maior”, afirma Moreira.
A empresa precisou mostrar que o custo inicial mais elevado poderia ser compensado pela redução do uso de fumacês e outras soluções recorrentes. Para acelerar a adoção, a estratégia foi instalar equipamentos gratuitamente em hotéis e restaurantes selecionados durante a fase de testes.
Segundo ele, muitos dos primeiros clientes residenciais conheceram o produto após vê-lo em funcionamento em hotéis e estabelecimentos comerciais.
A Mosqitter está presente em 20 estados brasileiros. Entre os clientes citados pela empresa estão os hotéis Rosewood, o Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, e o Palácio Tangará, em São Paulo, além da Pousada Caiman, no Pantanal.
A próxima aposta: locação
Depois de concentrar esforços na venda dos equipamentos desde a chegada ao mercado brasileiro, a Marangoni prepara uma mudança de estratégia. A empresa começará a oferecer a Mosqitter no modelo de locação para hotéis, restaurantes, clubes e outros estabelecimentos comerciais.
A decisão surgiu após a companhia perceber que o investimento inicial exigido pela tecnologia ainda representa uma barreira para parte dos clientes corporativos. Enquanto consumidores residenciais costumam decidir a compra rapidamente após conhecer o produto, empresas geralmente precisam avaliar orçamento, retorno financeiro e a gestão dos equipamentos ao longo do tempo.
“No início a gente teve um investimento muito grande para trazer a solução para o Brasil, montar uma fábrica e estruturar a operação. Por isso, focamos bastante na venda dos equipamentos”, afirma Moreira.
Segundo o executivo, o aluguel também atende uma demanda operacional do mercado corporativo. Como a armadilha depende da reposição periódica de cilindros de CO₂ e do atrativo sintético que imita o suor humano, muitos estabelecimentos preferem terceirizar o acompanhamento da operação em vez de adquirir o ativo.
A companhia trabalha agora na criação de processos automatizados para cadastro de clientes e gestão dos contratos de locação. O objetivo é acelerar a expansão da base comercial sem depender exclusivamente da venda direta dos equipamentos.
Ao mesmo tempo, a empresa prepara a chegada ao Brasil da Mosqitter Mini. O equipamento foi desenvolvido para ambientes internos ou áreas onde paredes, vidros e vegetação dificultam o alcance dos atrativos emitidos pela armadilha principal. A expectativa é que o novo produto chegue ao mercado brasileiro até o fim de 2026 e amplie a presença da marca em residências, hotéis e espaços comerciais com áreas fechadas.
A expectativa da empresa é que a combinação entre locação e novos produtos ajude a elevar em 40% o faturamento da operação da Mosqitter em 2026, após o negócio registrar receita de R$ 2 milhões em 2025.
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