ApexBrasil inaugura escritório na Índia na expectativa de ampliar comércio
NOVA DÉLI* — A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) inaugurou nesta sexta-feira, 20, seu primeiro escritório na Índia, em Nova Déli, em cerimônia com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de ministros que integram a missão oficial brasileira no país. A nova base marca o que o governo chama de “nova fase” na relação bilateral e reforça a estratégia de ampliar o comércio entre duas das maiores economias do Sul Global.
“Nós vamos ter uma nova fase na relação Brasil-Índia”, afirmou o presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, ao lado de Lula.
Participaram também da agenda os ministros Carlos Fávaro (Agricultura), Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário) e Alexandre Padilha (Saúde), além de empresários e representantes de dezenas de setores produtivos. O presidente Lula não falou no evento.
De US$ 15 bilhões para US$ 100 bilhões?
Segundo o presidente da Apex, o fluxo comercial entre Brasil e Índia atingiu US$ 15 bilhões em 2025, alta de 30% em relação aos US$ 12 bilhões registrados no ano anterior.
As exportações brasileiras somam US$ 6,9 bilhões -- quase metade do total composto por petróleo e derivados.
A avaliação do governo é que o número ainda está muito aquém do potencial. Viana afirmou que a relação bilateral pode alcançar US$ 100 bilhões, patamar semelhante ao comércio brasileiro com Estados Unidos e União Europeia.
“Por que com a Índia é US$ 15 bilhões? Ou era US$ 12 bilhões [em 2024]?”, disse, ao defender que o nível atual não condiz com o tamanho das duas economias.
Revisitar o Mercosul-Índia
No evento, o secretário de Comércio da Índia, Shri Rajesh Agrawal, afirmou que o comércio bilateral ainda está muito abaixo do potencial das duas economias e defendeu um salto nas trocas e nos investimentos entre os países. “Somos duas grandes economias, mas ainda estamos muito longe do real potencial”, afirmou.
Segundo ele, o estoque de investimentos de empresas brasileiras na Índia é de cerca de US$ 1 bilhão, enquanto o investimento indiano no Brasil soma aproximadamente US$ 6 bilhões.
O secretário também ressaltou o potencial no comércio de serviços, que já supera US$ 5 bilhões entre os dois países.
Agrawal também defendeu a expansão do acordo comercial preferencial entre Índia e Mercosul, firmado em 2004. “É hora de pensar em uma expansão substancial do acordo existente", disse.
Ele afirmou ainda que a Índia tem acelerado a assinatura de acordos de livre comércio — nove nos últimos seis anos — e está aberta a aprofundar a integração econômica com o Mercosul.
Agronegócio no centro da estratégia
A abertura do escritório ocorre em meio a negociações para ampliar o acesso de produtos brasileiros ao mercado indiano. Entre as frentes citadas e já adiantadas estão a abertura de mercado para feijões, a ampliação de cotas para proteína de aves e a exportação de genética melhorada de gado zebuíno
Segundo Viana, cerca de 30% da população indiana é vegetariana, o que abre espaço para crescimento das exportações de proteína animal.
Diversas negociações ocorrem entre as delegações brasileira e indiana. Espera-se que o presidente Lula faça um balanço da viagem no domingo, 22, e anuncie os investimentos concretizados e os entendimentos fechados.
Entre as expectativas, estão avanços no acordo entre Mercosul-Índia, cooperação da Embraer com a Adani, tentativas de diminuir tarifas indianas para importação de suco de laranja e carne de aves.
Estratégia geopolítica: Índia como eixo do Sul Global
No plano político, a abertura da representação foi apresentada como parte de uma estratégia de diversificação. O governo tem investido fortemente em ampliar os laços com países da Ásia -- Lula ruma da Índia para a Coreia do Sul, por exemplo.
A avaliação é que uma aproximação estratégica entre Brasil e Índia tende a ser menos sujeita a questionamentos geopolíticos do que um alinhamento excessivo com China, Estados Unidos ou Europa
A iniciativa ocorre em um momento de reconfiguração das cadeias globais e de tensões comerciais entre grandes potências.
O escritório em Nova Déli é o 11º da Apex no exterior. Recentemente, a agência também expandiu a presença na África, ampliou bases na China e reforçou a atuação nos Estados Unidos e em Singapura.
* O jornalista viajou a convite da ApexBrasil
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