Após 144 anos, Sagrada Família ganha última torre

Por Gustavo Frank 10 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Após 144 anos, Sagrada Família ganha última torre

Em fevereiro deste ano, a cruz que coroa a Torre de Jesus Cristo foi içada ao topo da Sagrada Família de Barcelona. Com ela, a basílica atingiu 172,5 metros e se tornou a igreja mais alta do mundo, ultrapassando a Catedral de Ulm, na Alemanha. A construção havia começado em 1882.

Amanhã, 10, o papa Leão XIV celebra uma missa solene na basílica e inaugura oficialmente a 18ª e última torre do projeto de Antoni Gaudí. A data coincide com o centenário da morte do arquiteto, atropelado por um bonde em Barcelona em 1926, aos 73 anos, sem ter visto a obra concluída.

A cruz que quase não existiu

A Torre de Jesus Cristo foi o projeto mais complexo da construção. A peça central é a cruz que a coroa, com altura equivalente a um prédio de cinco andares e peso de cerca de 100 toneladas. Gaudí havia imaginado uma estrutura refletiva que brilhasse durante o dia e iluminasse o horizonte à noite. Mauricio Cortés, o arquiteto mexicano responsável pela execução, precisou equilibrar essa visão com exigências estruturais contemporâneas, sobretudo o peso.

A solução foi fabricar a cruz na Alemanha em 14 seções pré-fabricadas de concreto e aço inoxidável, material que não existia nos tempos de Gaudí. Cada seção foi içada por guindastes até uma oficina instalada a 60 metros de altura, diretamente sobre a nave central da basílica. Lá, os trabalhadores revestiram as peças com cerâmica branca esmaltada e vidro produzido localmente, antes de montar e elevar a estrutura à posição final. Cortés considerava que o exterior ficou próximo do que Gaudí planejou, com mais margem de interpretação para o interior, que o arquiteto não havia definido em detalhe.

A cruz da Torre de Jesus Cristo foi fabricada na Alemanha em 14 seções e pesa cerca de 100 toneladas (Wikimedia Commons/Wikimedia Commons)

O que quase destruiu tudo

A basílica sobreviveu a pelo menos dois momentos que poderiam ter encerrado a obra para sempre. O primeiro foi a Guerra Civil Espanhola. Em julho de 1936, dez anos após a morte de Gaudí, anarquistas incendiaram a cripta da basílica e destruíram grande parte dos projetos e maquetes em gesso guardados em seu ateliê. O segundo foi financeiro: como templo expiatório, a Sagrada Família é financiada exclusivamente por doações e, desde 2010, pela receita de visitantes. Durante a pandemia de covid-19, esse modelo entrou em colapso junto com o turismo.

O que impediu o fim do projeto após 1936 foi o trabalho de colaboradores e discípulos de Gaudí, que haviam documentado suas ideias em livros, artigos e fotografias. Mais do que os registros visuais, o que sobreviveu foi uma lógica de projeto. Jordi Faulí, arquiteto-chefe atual à frente de uma equipe de 27 arquitetos e mais de 100 construtores, explicou que Gaudí criou um método de concepção de sistemas que permite interpretar os fragmentos sobreviventes a partir do entendimento das superfícies que o arquiteto usava e de como elas se intersectam.

O que ainda falta

A inauguração desta quarta não encerra a obra. O interior da Torre de Jesus Cristo deve ser concluído até 2028. A Fachada da Glória, terceira e última fachada decorada, prevista por Gaudí como entrada principal da basílica, ainda precisa ser construída. E é justamente aí que está o problema mais imediato.

A proposta da fundação gestora prevê uma escadaria monumental conectando a entrada da basílica à rua, o que exigiria a demolição de prédios residenciais no quarteirão em frente. Moradores e comerciantes do bairro se opõem ao plano. A fundação afirma que precisa primeiro chegar a um acordo com a prefeitura antes de dialogar com os moradores.

Em 2025, a basílica recebeu quase 5 milhões de visitantes. A última visita papal havia sido em 2010, quando Bento XVI consagrou a nave central, e gerou aumento de 38% no número de visitantes nos meses seguintes.

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