Após divórcio da Paramount, Porta dos Fundos vive seu melhor momento — e sonha em virar uma emissora

Por Mateus Omena 25 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Após divórcio da Paramount, Porta dos Fundos vive seu melhor momento — e sonha em virar uma emissora

Depois de mais de uma década moldando o humor na internet brasileira, o Porta dos Fundos chegou em 2026 com um desafio: provar que tem bastante espaço para decolar — e não apenas sobreviver à fragmentação das plataformas.

Com o fim do vínculo com o estúdio americano Paramount — do qual fazia parte desde 2017 —, em março do ano passado, a empresa passou por várias mudanças em sua operação. E o resultado veio com a ampliação do alcance dos conteúdos, novas frentes de negócio e uma mentalidade que, nas palavras de João Vicente de Castro, sócio-fundador marcou o “renascimento” do Porta dos Fundos.

“Foi um ano atípico, mas também de muitas transformações, de renascimento e de diversificação de conteúdos”, declara João Vicente de Castro, em entrevista à EXAME.

Com a retomada de sua independência, o hub passou para o controle dos três sócios-fundadores João Vicente, Fábio Porchat e Gregório Duvivier. Antonio Tabet e Ian SBF, que também tinham participação, deixaram a empresa.

Essa "dança das cadeiras" permitiu ao Porta apostar sem medo e crescer para além das projeções. A companhia superou a marca de 8 bilhões de visualizações em seus projetos, resultado de uma estratégia que combinou inovação criativa, presença multiplataforma e parcerias estratégicas com grandes players do mercado.

Neste cenário, João Vicente de Castro enfatiza que 2025 foi o melhor ano da história do Porta dos Fundos, permitindo também a expansão do modelo de negócio.

“Nosso objetivo é virar o canal digital mais relevante de humor e entretenimento do Brasil. E isso começou a ser construído no ano passado”.

Uma breve viagem no tempo

Criado em 2012, o Porta dos Fundos consolidou audiência digital com a publicação de esquetes de humor interpretadas por elencos diversos. O desempenho no YouTube ampliou o alcance do canal e levou à aquisição pela Paramount, à época Viacom, cinco anos depois.

Mesmo após a associação com a empresa americana, o Porta dos Fundos manteve parcerias com diferentes plataformas e grupos de mídia. Entre os acordos, estão produções para Netflix, Globoplay, Prime Video e Kwai, além de projetos comerciais com marcas.

João Vicente de Castro, Gregorio Duvivier e Fábio Porchar, sócios fundadores do Porta dos Fundos. (Divulgação)

Em 2019, a produtora iniciou a expansão internacional com operações no México e, posteriormente, na Polônia, com foco em conteúdo local. A estratégia incluiu adaptação de formato e elenco para os mercados regionais.

Ao longo dos anos, o Porta dos Fundos deixou a imagem de canal de YouTube e se consolidou como produtora. Além das esquetes de humor, o grupo passou a incluir em seu portfólio minisséries, séries e filmes. Tornando-se também referência no Brand Enterteinment, ao estreitar suas relações com marcas e agências para conteúdos especiais — que no final das contas, virou um forte pilar do negócio.

Por trás do humor

Após uma longa trajetória no humor, o Porta se tornou referência em provocar risadas por meio de um conteúdo consciente, irreverente e inovador. Os impactos vão além dos memes nas redes sociais, pois atingem o senso crítico dos brasileiros sobre os principais assuntos do momento.

Entre os destaques do ano estão projetos como:

Como 59 episódios, o "Não ImPorta" registrou 249 milhões de views, 193 milhões de impressões e 15 milhões em engajamento.

O reposicionamento da empresa no ano anterior veio acompanhado de escala. Para superar a marca de 8 bilhões de visualizações, o time de roteiristas e criadores adotou uma estratégia baseada em experimentação de formatos, maior presença nas redes e resposta rápida aos debates atuais.

“A gente se permitiu testar mais, abrir a sala de roteiro para ideias que não necessariamente conversavam com as sketches. Organizamos melhor nossas redes e conseguimos tracionar com vários conteúdos diferentes, como cortes de podcast, personagens e sketches quentes, que dialogam com assuntos do cotidiano”, afirma Castro.

Ele explica que as “sketches quentes” refletem uma mudança no consumo de humor, mais conectado ao noticiário e a pautas de grande interesse público. Um exemplo foi o vídeo com o ator Wagner Moura, publicado no dia em que ele foi indicado ao Oscar, o que reforçou a relevância do Porta dos Fundos no ambiente cultural.

O empresário também afirma que, no último ano, foram feitos grandes investimentos na aquisição de talentos do entretenimento.

"Começamos a desenvolver novos formatos editoriais a partir do que temos visto no mercado, do que consideramos interessante e de talentos que queremos trazer de volta ao Porta dos Fundos — pessoas que começaram com a gente ou que admiramos".

De acordo com João Vicente de Castro, a lógica editorial passou a combinar dados e timing. A empresa estruturou uma operação próxima à de uma redação jornalística, aliada a ferramentas de inteligência de dados e monitoramento do público-alvo.

“Essa estratégia passa por duas frentes. A primeira é acompanhar de perto o que está acontecendo, com uma operação semelhante a das redações de jornal, e responder rapidamente aos temas em alta. A segunda envolve o uso de dados. Com o apoio do time de BI, analisamos movimentos sociais e culturais e identificamos conteúdos do nosso acervo que voltam a fazer sentido".

Como muitas sketches são atemporais, republicá-las contribuiu para reviralizar vídeos — alguns feitos há anos que hoje alcançam milhões de visualizações.

"Passamos a usar melhor o nosso inventário, atualizando conteúdos antigos a partir de novos contextos. Temos sketches de pelo menos três anos atrás que, quando voltam, batem em média 4 milhões de visualizações”.

O peso do branded

O ano de 2025 também foi marcado por parcerias estratégicas do Porta dos Fundos com grandes empresas brasileiras e multinacionais de diferentes segmentos. O hub de entretenimento fechou uma colaboração inédita com o Spotify, que trouxe resultados expressivos e abriu caminho para novos projetos de estúdio.

Para o Dia Internacional da Mulher, o Porta fechou uma parceria com o Supremo Tribunal Federal (STF), com conteúdos para conscientizar o público sobre os direitos das mulheres e as leis que garantem sua proteção contra a violência.

Em julho, também foram realizadas ações com a Amazon, durante a campanha do Prime Day, no qual a varejista online patrocinou a edição de estreia do programa "Senhora Sua Mãe", no qual Fábio Porchat entrevistou celebridades e suas mães sobre histórias curiosas.

"O Porta dos Fundos sempre teve uma forma muito específica e eficiente de tratar qualquer assunto, e isso também se aplica quando há uma mensagem de marca. A ideia é transmiti-la de forma divertida, sem interromper a experiência", explica o empresário.  "Isso faz diferença para o público, que passa a associar determinada empresa a uma experiência positiva. O resultado é ganho de simpatia e de relevância para quem anuncia".

Dados fornecidos pela companhia à EXAME mostram que, com conteúdos produzidos para marcas foram adquiridos: mais de 250 milhões de views, 3,6 milhões de interações, e uma retenção média de 43% em conteúdos branded.

Em comparação com 2024, as visualizações tiveram um aumento de 53%. Outras parcerias com empresas como Citröen, La Roche Posay e Claro somam mais de 185 milhões de views.

Segundo João Vicente de Castro, a diversificação de formatos e narrativas no cardápio do Porta dos Fundos intensificou o interesse das empresas, pois notaram o potencial do hub em expandir mensagens para além do seu público-alvo. E isso tem levado os parceiros a investirem em outras frentes de produção. Mesmo assim, o "match" de valores e culturas tem feito uma enorme diferença na hora de assinar contrato.

"Antes, nossa oferta era muito concentrada em sketches, o que limitava a recorrência com marcas. Uma empresa fazia uma ação pontual e só voltava depois de um tempo, já com outra campanha. Esse modelo já mudou. Entendemos que conteúdos como programas, podcasts e formatos alinhados aos valores da marca permitem relações mais duradouras. Diferente das sketches, que são pontuais, esses formatos possibilitam presença contínua ao longo do ano. Um podcast, por exemplo, pode manter uma marca associada ao conteúdo de forma perene. Já as sketches tendem a ser ações mais isoladas", esclarece o sócio-fundador.

Esse movimento não apenas incentivou a companhia a ampliar a grade de atrações e a oferta de serviços, como também fidelizou a relação com grandes marcas. "Os projetos originais passam a ser pensados já com a integração de marcas de forma orgânica, alinhada ao conteúdo. Isso permite construir relações mais longas, ao mesmo tempo em que atende às necessidades de comunicação das marcas e expande o editorial do Porta".

Novas verticais de negócio

Além do branded content, o Porta conta com outras frentes de negócio para tornar sua tática de monetização mais robusta. A receita gerada com os trabalhos para o canal no YouTube permanece significativa, mas os conteúdos para as marcas se tornaram o carro-chefe do grupo. Cerca de 70% do faturamento ainda está ligado a esse modelo, agora complementado por novas iniciativas.

Uma delas é o “ImPortados”, novo braço de negócio focado em marketing de influência e agenciamento de talentos. A operação iniciou em março de 2026, com o propósito de turbinar as oportunidades comerciais e consolidar o Porta dos Fundos como hub de entretenimento e distribuição de conteúdo.

No mesmo mês, foi lançado também o talk show "Por Trás da Porta", formato voltado aos bastidores e aos relatos de profissionais envolvidos na construção do conteúdo criativo da empresa. A atração foi exibida inicialmente no PortaTV, plataforma de distribuição gratuita com publicidade, conhecida como Free Ad-Supported Streaming TV (FAST). A partir de 1º de abril, o programa também passou a integrar o catálogo do YouTube, com publicação nos canais Porta dos Fundos e Fundos da Porta, e do Spotify. O conteúdo ainda conta com materiais exclusivos direcionados aos assinantes do serviço Porta+.

"O projeto foi lançado há poucos meses e começou a ser estruturado em setembro de 2025, com foco na organização do acervo e na forma de distribuir os conteúdos. Nesse processo, a equipe também revisitou o volume de material já produzido ao longo dos anos".

Por razões estratéticas, o Porta dos Fundos não informa os resultados financeiros. No entanto, João Vicente de Castro reforça à EXAME que o desempenho da empresa em 2025 ficou dentro das projeções.

"Nosso lucro atingiu as expectativas para o período. E chegamos a 2026 em um cenário financeiro saudável, sem dívidas, com metas atingidas e capacidade de reinvestimento mantida", declara.

Depois de preservar a susentabilidade do negócio, mesmo com o fim do vínculo com a Paramount, o Porta dos Fundos já tem definiu suas proridades para os próximos meses.

"Em 2025, houve um ciclo de investimentos para aproximar o Porta dos Fundos de um projeto de expansão que já vinha sendo desenhado. A estratégia deve continuar em 2026. Não pensamos em distribuição de dividendos ou venda da empresa, mas em ampliar a produção de conteúdo e fortalecer a operação, adianta.

Uma nova TV

Com o lançamento do PortaTV e a oferta de atrações elaboradas para esse formato, o Porta dos Fundos tem uma meta ambiciosa para os próximos anos: se transformar em uma espécie de emissora digital.

“Meu sonho é que o público entre no YouTube do Porta dos Fundos e encontre conteúdo 24 horas por dia”, afirma.

Atentos às constantes reviravoltas no ambiente digital, os sócios-fundadores da empresa preferem a cautela antes de fazer apostas altas. Segundo João Vicente, essa postura se reflete também nas movimentações que estão ocorrendo no mercado do streaming.

"Havia a expectativa de que o setor do streaming seria muito maior e mais estável do que se mostrou na prática. No Brasil, vimos mudanças frequentes de estratégia e liderança nas plataformas, o que trouxe instabilidade. A expectativa de alguns anos atrás era de uma produção contínua de séries, o que não se confirmou", explica. "Para as produtoras, o movimento gerou frustração. O volume de projetos realizados ficou bem abaixo do que se projetava inicialmente".

Com o projeto de lei de regulamentação do streaming — que visa taxar plataformas de vídeo sob demanda (Netflix, YouTube e muitas outras) com a Condecine (0,1% a 4% da receita bruta) e impor cotas de conteúdo nacional —, o cenário ainda é muito incerto para as produtoras de conteúdo.

"Há uma expectativa de ajuste. O mercado passa por um processo de reacomodação, com revisão de tamanho e de expectativas, o que pode trazer resultados mais consistentes no futuro, embora isso deva levar tempo", diz o empresário.

Apesar disso, João Vicente de Castro ressalta que há um clima de otimismo dentro do grupo para os próximos meses. Com projetos como o Porta TV, novos programas e um pipeline que pode chegar a “um conteúdo inédito por dia” até o fim de 2026, a empresa acredita que o movimento iniciado em 2025 é apenas o começo.

"Para 2026, o objetivo é lançar quatro novos programas de linha. Entre eles, estão um novo podcast, um programa com Fábio Porchat e outro com Gregório Duvivier. Há também projetos em desenvolvimento, como um possível programa com Ed Gama e Estevam Nabote, ainda em fase de definição. Se o plano avançar como previsto, a meta é chegar ao fim do ano com um conteúdo inédito por dia", detalha.

O segundo semestre começará aquecido pela Copa do Mundo, marcada para junho. Para o maior evento global do futebol, o hub já preparou um cardápio especial de produções bem-humoradas e colaborações com marcas.

"Já temos três projetos ligados à Copa em desenvolvimento, em conversa com marcas. A ideia é explorar o futebol no período, inclusive para anunciantes que não têm direitos oficiais do evento, mas buscam formas de se associar ao assunto. Esse contexto abre espaço para soluções criativas de conteúdo e monetização".

Para as eleições presidenciais, com primeiro turno marcado para outubro, o Porta também avalia oportunidades, mas ainda não pode adiantar detalhes. "Há também um projeto em andamento. Ainda está em fase inicial e não há confirmação de lançamento, mas, se avançar, a expectativa é de um formato relevante.

O ano de 2026, para João Vicente de Castro, promete ser desafiador, mas também a chance de escalar para um novo patamar em sua independência. Depois de um longo período de reorganização, o diagnóstico é de que o Porta dos Fundos ainda está longe de atingir seu potencial máximo.

“Eu acredito demais nessa empresa. O Porta dos Fundos não deu nem metade do que tinha para dar ainda”, finaliza.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: