Após 'efeito Messi', futebol virou negócio de US$ 23 bilhões nos EUA — mas por que não virou paixão?

Por Mateus Omena 15 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Após 'efeito Messi', futebol virou negócio de US$ 23 bilhões nos EUA — mas por que não virou paixão?

Durante décadas, o futebol ocupou um espaço recorrente no imaginário esportivo dos Estados Unidos: o de esporte prestes a alcançar uma posição central na cultura do país. A ideia remonta a 1913, quando Gustav Manning, então uma das principais autoridades da modalidade, afirmou ao jornal New York Times que o futebol poderia se tornar “o passatempo nacional do inverno”. Mais de cem anos depois, a previsão continua sendo debatida.

A expectativa ganhou força na década de 1970, quando Pelé trocou o Brasil por Nova York para atuar no New York Cosmos, projeto que buscava popularizar o esporte no mercado americano. A iniciativa teve vida curta, mas ajudou a consolidar uma narrativa que resistiu ao tempo: a de que fatores como globalização, mudanças demográficas e a expansão dos direitos de transmissão acabariam impulsionando o futebol a um novo patamar nos Estados Unidos.

O argumento voltou a ganhar tração com a realização da Copa do Mundo de 1994, a criação da Major League Soccer (MLS) e, mais recentemente, com a chegada de Lionel Messi ao Inter Miami, em 2023. A transferência do argentino, após sua passagem pelo futebol francês, foi tratada como um marco para a modalidade no país.

A percepção de que o futebol poderia finalmente atingir um novo nível de relevância também foi alimentada pelo crescimento da audiência de ligas internacionais, pela popularidade de produções como "Ted Lasso", série da AppleTV, e o documentário "Welcome to Wrexham" (disponível no Disney+) e pelo aumento do interesse de torcedores americanos por competições disputadas fora do país.

Os alcances e limitações do futebol nas Américas

No entanto, a aproximação da Copa do Mundo de 2026 expôs algumas limitações dessa expectativa. Embora o futebol tenha se consolidado como uma força econômica e social nos Estados Unidos, os sinais indicam que sua trajetória não segue o mesmo padrão observado em países da América do Sul ou da Europa, onde o esporte ocupa uma posição predominante na cultura popular.

Uma pesquisa publicada em 2024 apontou o futebol como o terceiro esporte favorito dos americanos. O crescimento é evidente, mas ainda distante de uma condição hegemônica. Nesse cenário, permanece aberta a discussão sobre o que efetivamente representaria o sucesso da modalidade no país.

Essa questão está no centro de The Long Game ("O Jogo de Longo Prazo", em tradução livre), escrito pelo jornalista Leander Schaerlaeckens. No subtítulo, a obra descreve a trajetória da seleção masculina dos Estados Unidos como uma jornada de quatro décadas rumo ao topo “ou quase”. O autor sustenta que o atual nível de competitividade da equipe nacional representa um avanço significativo diante das dificuldades históricas enfrentadas pelo programa.

O livro revisita momentos marcantes da seleção, incluindo a vitória por 1 a 0 sobre a Inglaterra na Copa do Mundo de 1950. Grande parte da narrativa, porém, se concentra nos obstáculos enfrentados nas décadas seguintes, marcadas por problemas administrativos, limitações financeiras e períodos de baixa atividade competitiva.

Ao reconstruir essa trajetória, Schaerlaeckens destaca episódios como a Copa do Mundo de 1994, inicialmente recebida com pouco entusiasmo interno, o programa de desenvolvimento de jovens atletas na Flórida durante os anos 2000, a ausência na Copa de 2018 e os esforços posteriores para recuperar competitividade internacional.

A discussão sobre quando o futebol finalmente "conquistará" os Estados Unidos continua presente, embora o próprio autor demonstre ceticismo em relação ao conceito. A obra sugere que a própria definição de sucesso permanece indefinida dentro do debate esportivo americano.

Entre os indicadores frequentemente utilizados para medir essa evolução está a presença de jogadores americanos em clubes europeus. Na partida contra Portugal disputada em março deste ano, nove dos onze titulares da seleção atuavam na Europa. Ao mesmo tempo, investidores americanos ampliaram sua presença no futebol internacional. Atualmente, sete dos quinze clubes com maior faturamento do mundo pertencem a bilionários dos Estados Unidos ou a fundos de private equity.

O 'efeito Messi' realmente funcionou?

Lionel Messi: jogador argentino atua no Inter Miami, nos Estados Unidos. (Rich Storry/Getty Images)

Outro olhar sobre o fenômeno é descrito no livro The Messi Effect: How the Global Legend Changed the Future of American Soccer ("O Efeito Messi: Como a Lenda Global Mudou o Futuro do Futebol Americano"), do jornalista Paul Tenorio, do jornal The Athletic. O autor argumenta que o futebol já possuía uma base consolidada antes mesmo da chegada de Lionel Messi.

Segundo Tenorio, milhões de americanos acompanhavam regularmente ligas como a Premier League inglesa e o campeonato mexicano. Ainda assim, a MLS permanecia restrita a um público mais específico. Como resume o autor, os clubes da liga “mantinham um ar mais de culto: torcedores apaixonados, mas pouca repercussão no grande público”.

A contratação de Messi alterou esse cenário ao ampliar a visibilidade da MLS, impulsionar vendas de produtos licenciados e atrair novos patrocinadores. Apesar disso, Tenorio avalia que a liga não aproveitou plenamente a oportunidade para implementar mudanças estruturais capazes de ampliar o impacto do momento.

Cobertura de longa data da MLS, iniciada em 2007 durante a chegada de David Beckham ao Los Angeles Galaxy, sustenta a análise do jornalista. Ele aponta que dirigentes demoraram para revisar aspectos relacionados a elencos, salários e calendário competitivo, reduzindo o potencial de crescimento em um período considerado estratégico antes da Copa do Mundo de 2026.

O livro também relata bastidores das negociações envolvendo Messi e decisões financeiras da liga. Em determinado momento, Tenorio revela que a própria MLS encomendou estudos sobre o alcance da influência do argentino. As conclusões indicaram que muitos torcedores acompanhavam prioritariamente a carreira do jogador, e não necessariamente os clubes pelos quais ele atuava.

Essa constatação reforçou a percepção de que a liga possui uma janela limitada para converter a popularidade de Messi em crescimento sustentável. O tema ganhou relevância em meio à renegociação recente do contrato de transmissão entre a MLS e a Apple TV, em um contexto de dúvidas sobre a manutenção do ritmo de crescimento da audiência após o salto registrado em 2023.

Enquanto dirigentes discutem estratégias de expansão, o debate sobre o papel do futebol na cultura americana permanece aberto. Diferentemente de países onde a modalidade ocupa posição central na identidade nacional, os Estados Unidos apresentam um cenário esportivo mais fragmentado, dividido entre diferentes ligas e modalidades.

Ainda assim, a trajetória do futebol no país demonstra crescimento consistente e um negócio capaz de movimentar milhões.

De acordo com um relatório da Sportico, todos os clubes americanos —incluindo imóveis e negócios relacionados ao futebol pertencentes aos donos dos clubes, como uma franquia da NWSL (National Women's Soccer League) — equivalem ao total de US$ 23 bilhões (R$ 120 bilhões) em valor de mercado. Em primeiro lugar no ranking, aparece o Inter Miami, casa de Messi, com US$ 1,45 bilhão (R$ 7,5 bilhões). Na sequência está o Los Angeles FC, com US$ 1,4 bilhão (R$ 7,3 bilhões).

Mesmo que a seleção americana continue distante das principais potências internacionais e que a modalidade não alcance o mesmo peso cultural observado em outras regiões, o interesse do público segue em expansão. Com a Copa do Mundo de 2026 no horizonte, a discussão sobre o futuro do esporte nos Estados Unidos tende a ganhar novos capítulos.

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