Após uma década abandonado, casarão histórico no Recife vira polo de startups com R$ 18 milhões

Por Guilherme Gonçalves 13 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Após uma década abandonado, casarão histórico no Recife vira polo de startups com R$ 18 milhões

Um casarão histórico abandonado no Bairro do Recife — também conhecido como "Recife Antigo" — ganhará nova função a partir da próxima segunda-feira, 15. O prédio que por décadas abrigou órgãos públicos e uma instituição financeira será a sede do NERD (Núcleo de Empreendedorismo e Residência Digital), novo equipamento do Porto Digital voltado à criação de startups, formação de empreendedores e conexão entre empresas e tecnologia.

O projeto recebeu investimento de R$ 18,5 milhões, sendo R$ 13,8 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e R$ 4,7 milhões do governo de Pernambuco. O valor foi aplicado em obras civis, instalações, mobiliário e equipamentos. O espaço tem 2.500 metros quadrados, distribuídos em quatro andares, com auditório para 200 pessoas, arena de eventos, salas de formação, áreas de coworking e um café aberto ao público.

“Como fazemos o Porto Digital e a economia do conhecimento de Pernambuco crescerem em outra escala nos próximos anos? A resposta não está apenas em ter mais startups, mais salas ou mais programas isolados. Está em fazer o ecossistema funcionar como um sistema, conectando talentos, universidades, empresas em crescimento, organizações maduras e demandas reais de mercado”, afirma Pierre Lucena, presidente do Porto Digital.

A expectativa de Lucena é atender milhares de pessoas por mês, incluindo empreendedores, startups, estudantes, grandes empresas e profissionais em busca de qualificação.

De delegacia fiscal a banco e centro de inovação

O endereço escolhido para o NERD carrega parte da história administrativa e econômica do Recife. Localizado na Rua Dona Maria César, número 70, esquina com a Rua Vigário Tenório, o imóvel foi construído no início do século 20, em um período marcado pelas grandes reformas urbanas do Bairro do Recife, entre 1909 e 1926.

A construção segue o estilo arquitetônico eclético, característico da época, com elementos como adornos nas fachadas, grandes aberturas, gradis ornamentados e marcações horizontais. Registros da Diretoria do Patrimônio Cultural da Prefeitura do Recife (DPPC) indicam que o prédio aparece em arquivos desde 1957, com a estrutura externa preservada ao longo das décadas.

Antes de se tornar um espaço de inovação, o casarão teve diferentes ocupações. Segundo levantamento feito pelo Porto Digital em arquivos históricos, o local abrigou uma Delegacia Fiscal, órgão administrativo ligado à movimentação econômica do bairro pela proximidade com a Alfândega.

A partir de 1953, passou a funcionar ali uma unidade do Banco Nacional de Crédito Cooperativo (BNCC), que permaneceu no endereço até a década de 1970. O banco foi extinto em 1990 durante o Plano Collor. Entre as décadas de 1990 e 2010, o prédio recebeu a Secretaria de Administração e Reforma do Estado de Pernambuco. Mais tarde, também sediou o Escritório de Apoio de Fernando de Noronha.

Em 2023, o imóvel foi cedido pelo governo de Pernambuco ao Porto Digital para a implantação do NERD.

Novo ambiente de inovação toma forma no Recife: NERD terá 2.500 metros quadrados com auditório, salas e áreas de conexão (Porto Digital/Divulgação)

Restauro preservou fachada e modernizou estrutura

A transformação do casarão em um centro de inovação exigiu uma reforma completa. As obras começaram em agosto de 2025 e envolveram cerca de 200 trabalhadores diretamente e outros 400 de forma indireta.

O projeto precisou passar pela aprovação de órgãos de preservação, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e a Diretoria de Preservação do Patrimônio Cultural do Recife, antes do início das intervenções.

Entre as mudanças realizadas estão a reforma estrutural do prédio, incluindo a criação de dois pavimentos intermediários entre as lajes existentes, troca do telhado, atualização da infraestrutura elétrica e hidráulica, instalação de uma subestação própria e de um gerador.

As fachadas também foram restauradas, com recuperação das esquadrias de madeira e vidro, grades de ferro e revestimentos externos. A ideia foi preservar os elementos históricos enquanto o interior recebia uma estrutura adequada para abrigar empresas de tecnologia e programas de empreendedorismo.

“O imóvel histórico apresenta um estilo arquitetônico típico do início do século 20. O restauro representa uma contribuição importante ao patrimônio edificado do Recife, ao mesmo tempo em que transforma esse ativo em um espaço produtivo para a nova economia”, diz o presidente do Porto Digital.

Uma nova aposta para a economia da inovação

O NERD chega em um momento em que mudanças no ambiente tributário brasileiro podem reduzir a importância dos incentivos fiscais como fator de atração de empresas entre estados.

A estratégia do Porto Digital é competir por outro caminho: talento, conhecimento e capacidade de inovação. O distrito reúne hoje 541 empresas e, após 25 anos de operação, busca ampliar sua atuação para gerar negócios em escala maior.

“A inovação não acontece por decreto nem apenas por infraestrutura. Ela acontece quando pessoas qualificadas se encontram, quando empresas conseguem acessar clientes, quando o conhecimento circula e quando o território cria as conexões certas”, afirma Lucena.

O espaço foi desenhado para acompanhar diferentes fases de uma empresa. Na base, terá programas de educação empreendedora e formação de novos fundadores. Também abrigará startups em estágio inicial, negócios em crescimento e grandes empresas interessadas em testar soluções digitais.

A meta do Porto Digital é dobrar o tamanho do ecossistema em dez anos e impulsionar, nos próximos cinco anos, cinco empresas com faturamento superior a R$ 100 milhões.

Na prática, o NERD não funcionará como um coworking tradicional. O modelo prevê programas, conexões e participação de empresas por meio de membership e parcerias corporativas. A proposta é transformar o prédio em um ponto de encontro entre quem cria tecnologia e quem precisa aplicá-la.

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