Arapuã: como a maior varejista de eletro do Brasil quebrou duas vezes
Vender geladeira, fogão e televisão para o brasileiro nos anos 1970 e 1980 esbarrava num problema: a maior parte do país não tinha conta em banco, quanto mais acesso a financiamento.
Quem resolvesse o problema do crédito faturava.
Casas Bahia, Ponto Frio, Mappin e Mesbla disputavam o mesmo consumidor. Uma rede do interior paulista entrou na briga oferecendo o parcelamento direto no balcão e cresceu até virar a maior varejista de eletrodomésticos do país.
Fundada em Lins, no interior paulista, a rede comandada pelo empresário Jorge Wilson Simeira Jacob, descendente de libaneses, chegou a operar 265 pontos de venda no Brasil, abriu capital em Nova York e faturou 2,2 bilhões de reais em 1996, no auge da expansão.
Sete anos depois, já não existia mais como gigante do varejo.
"Quem é? (Arapuã) Que te cobre de beijos (Arapuã) Satisfaz seus desejos (Arapuã) E que muito lhe quer (Arapuã). Quem é? Arapuã… ligadona em você!" O jingle, com letreiros em neon nas principais avenidas, fixou a marca na memória de uma geração inteira.
A história começa antes da televisão, do neon e do bilhão.
Como a Arapuã começou
Em 1952, Jorge Wilson Simeira Jacob tinha 18 anos e acabara de ser emancipado pela Justiça.
Órfão de mãe aos 11 e de pai aos 16, herdara, com dois irmãos menores, alguns imóveis em Lins e uma loja de tecidos com dez funcionários, chamada Nossa Senhora Aparecida.
Pagas as dívidas do inventário, Jacob separou os imóveis sem ônus para os irmãos e tocou sozinho o negócio.
Em dois anos, transformou a loja na mais importante da cidade.
Os tecidos, no entanto, eram só o ponto de partida. No mesmo ano de 1952, ele começou a vender liquidificadores da marca Walita e planejou a abertura de uma segunda unidade, também em Lins.
A loja nova levou cinco anos para sair do papel. O dinheiro acabou antes da obra, e Jacob ficou descapitalizado no meio do caminho.
Em 1957, inaugurou enfim o novo ponto, batizado pela primeira vez de Arapuã, com uma inovação que se tornaria o motor de tudo: o crediário próprio, com parcelamento direto no balcão. A modalidade era até então restrita a bens de consumo duráveis e abriu o varejo de eletrodomésticos para consumidores de baixa renda sem acesso ao sistema bancário.
A recessão que limpou a concorrência
A virada veio nos anos 1960. O combate à inflação promovido pelo governo militar levou praticamente todos os concorrentes da Arapuã na região a pedir concordata — instrumento jurídico anterior à atual recuperação judicial — ou a fechar as portas.
A empresa sobreviveu, descapitalizada, mas sozinha no mercado.
Foi quando Jacob decidiu abandonar de vez os tecidos e concentrar a operação em eletrodomésticos.
A recessão se tornou oportunidade: muitos pontos comerciais foram assumidos sem custo inicial, e entre 1966 e 1971 a Arapuã abriu cerca de cem lojas.
O nascimento do Grupo Fenícia
Nos anos 1970, a empresa começou a comprar negócios fora do varejo. A intenção, segundo a própria companhia explicou à época, era diversificar o risco, que estava concentrado em bens de consumo duráveis e imóveis. Em 1973, adquiriu a indústria de alimentos Duchen.
A crise da dívida externa na década seguinte impôs critérios de expansão mais rígidos, mas não interrompeu as aquisições.
Em 1981, a Arapuã comprou uma fábrica de chocolates. Em 1982, um banco. Em 1984, inaugurou uma fábrica de extratos de tomate. Em 1985, comprou uma fabricante de eletrodomésticos e os pontos comerciais de uma rede varejista carioca.
A diversificação deu origem ao Grupo Fenícia, holding — empresa que controla outras companhias — que reunia as marcas Etti, Simeira, Lótus, Banco Fenícia, Neugebauer, GG Presentes e Prosdócimo.
A estrutura concentrava em uma única família o controle do varejo, da indústria fornecedora e do banco que financiava o consumo. Esse cruzamento viraria problema judicial duas décadas depois.
"Ligadona em você"
O auge da Arapuã foi entre o fim dos anos 1980 e o início dos 1990. A marca virou onipresente, com letreiros em neon nas principais esquinas do país e a frase "ligadona em você" repetida em rádio e TV.
Só em 1994, a rede abriu 37 novas lojas. Chegou a 265 pontos de venda e cerca de 2 mil funcionários.
Em 1995, depois de uma viagem aos Estados Unidos com um grupo de executivos, Jorge Wilson Simeira Jacob voltou convencido de que precisava reformular o negócio. A Arapuã vendia desde televisores até tapetes e cristais. Ele queria foco.
A decisão foi radical. A empresa fechou 120 lojas de uma vez e reduziu a linha de produtos de 7.500 para 700 itens, concentrando tudo em eletroeletrônicos.
Em outubro de 1995, abriu capital na Bolsa de Valores de São Paulo e passou a negociar ADRs — recibos de ações listados no exterior — em Nova York.
"Estávamos num momento excelente", disse em 1996 Caio Simeira Jacob, irmão de Jorge e então presidente da rede, em entrevista à EXAME. "Mas percebemos que se não transformássemos nosso negócio não teríamos competitividade internacional. Seríamos uma empresa sem futuro."
Em 1996, ano da abertura de capital, a Arapuã faturou 2,2 bilhões de reais, com lucro líquido de 119 milhões de reais. Era a maior varejista de eletrodomésticos do país.
Os primeiros desafios
O modelo dependia de uma engrenagem específica: cerca de 75% das vendas eram financiadas pelo crediário próprio.
A Arapuã tomava dinheiro emprestado para financiar o consumidor e ganhava no juro embutido na prestação.
Em 1997, a crise financeira asiática inverteu a equação. Os juros brasileiros dispararam para conter a fuga de capital, o real se desvalorizou e a inadimplência explodiu. Os carnês começaram a atrasar, e o custo do dinheiro tomado pela empresa subiu ao mesmo tempo. O caixa, pressionado dos dois lados, perdeu fôlego.
As dívidas ultrapassaram 1 bilhão de reais. Em 2 de junho de 1998, a Arapuã pediu concordata, decretada vinte dias depois.
A reestruturação seguinte foi um zigue-zague. A empresa tentou voltar a vender móveis, utensílios para o lar e até produtos de conveniência.
Em fevereiro e março de 2001, estampou sua marca na camisa do São Paulo Futebol Clube nos dois jogos da final do Torneio Rio-São Paulo, vencido pelo tricolor — o patrocínio durou uma única partida no front da camisa.
Em julho de 2002, com parcelas da concordata vencidas, a Justiça paulista decretou a falência em primeira instância. A empresa reverteu a decisão no Tribunal de Justiça de São Paulo. Sete anos depois, em 2009, o Superior Tribunal de Justiça atendeu ao recurso de duas credoras — a Philips e a Evadin, fabricante da Mitsubishi — e decretou novamente a falência, aplicando a lei de 1945.
No intervalo entre a decisão e a publicação, a Arapuã obteve um pedido de recuperação judicial pela nova lei de 2005. Mas como a empresa já tinha a falência decretada pelo descumprimento de concordata, o STJ entendeu que o pedido não era válido, confirmando a falência da Arapuã pela segunda vez.
O que sobrou
Da rede que iluminava as esquinas em neon sobrou pouco.
O herdeiro filho do fundador, passou a investir em vestuário popular em São Paulo e Belo Horizonte por meio da Sette Bello Modas.
Em 2015, a razão social mudou para Kosmos Comércio de Vestuário, mas o CNPJ da antiga Arapuã foi mantido.
O nome "Arapuã" segue no balanço como ativo intangível à espera de leilão para pagamento de credores. O jingle, esse ainda toca na cabeça de quem viveu os anos 1990.
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